Entrevista – Dosinho


Dosinho anuncia fim das gravações aos 83 anos por falta de reconhecimento e prestígio em Natal

Dosinho está cansado das súplicas por espaço na mídia radiofônica natalense. O compositor de frevos e marchinhas carnavalescas decidiu pela aposentadoria: Não grava mais CDs. “Não cansei de gravar; cansei de procurar sucesso em Natal”, reclama. O último CD gravado ainda está quentinho: Carnaval de Ontem e de Hoje – uma compilação de antigos sucessos e cinco composições inéditas. Dosinho fará primeiro a divulgação em Recife. Na capital do frevo ele tem prestígio, espaço garantido em rádio.

Nosso Capiba potiguar construiu um catálogo de frevos-canções e marchinhas com alma de beco, de Carnaval de salão, de alegria solta. É que as marchinhas se revestem dessa magia que remete aos tempos da máscara e do lança-perfume, das chacotas inocentes. Que o diga o Zezé. Será que ele é? Dosinho também é carnavalesco de vanguarda, mesmo aos 83 anos. Se uma “galera” faz Carnaval com o dinheiro público, Dosinho escreve marchinhas dos fatos do tempo-hoje. O da moda é o “Dólar na Cueca”.

Mesmo sem o prestígio merecido, o carnavalesco reverencia em sua música a Natal do amigo Cascudo; a Natal dos blocos Bacurinhas, Jardim de Infância, Lords, a desfilar pela Avenida Deodoro. Época em que os assaltos pertenciam ao período momesco, com a “invasão” às casas alheias em verdadeiros bailes improvisados. Dosinho é esse retrato vivo de um capítulo dedicado aos carnavais da Natal antiga ou da Natal de hoje, voltada aos axés, forrós pornofônicos e carnatais.

Se a canção de Capiba Madeira que Capim Não Rói é tocada como hino em Recife por reverenciar pessoas e recantos da capital pernambucana, a marcha Tributo a Natal, de Dosinho, nunca figurou em qualquer rádio potiguar. O prestígio do carnavalesco é maior em Recife. “O pernambucano não acredita que componho como eles sendo de Natal”, se orgulha. De fato. Dosinho foi parceiro de Capiba, foi gravado por Alceu Valença, Antônio Nóbrega e outros grandes do Carnaval ou do frevo pernambucano.

A grande pedida desse ano é Bloco Sem Nome – uma alusão ao autêntico carnaval de rua: “Entro no frevo e se meu corpo bambear, se minha cabeça rodar, tomo uma e vou em frente. Meu bloco é grande, mas não tem diretor, nem porta-bandeira, nem compositor, nem comissão de frente. O folião entra e sai quando quiser. Se toma, se cai, se fica em pé. Tudo é alegria. E o Rei Momo já concede liminar que o frevo não pode parar”. E vem o refrão: “Toca o Zé Pereira, começa tudo de novo. Alegria minha gente. O carnaval é a festa do povo”.

Como é Carnaval e o ressentimento fica guardado aos dias cinzas, Dosinho passará os quatro dias de Momo em Natal. Espera, o sucesso das músicas na sua cidade sem precisar invocar Zé Areia, Djalma Maranhão, Luizinho, Paulo Maux, Severino Galvão ou os donos das rádios, porque a saudade pode ser doce quando o tempo presente é glorioso.

Entrevista – Dosinho

O senhor finaliza sua carreira com esse CD?
Deixar de compor é impossível. É hobby, passatempo. Nem vou deixar de gravar. Vou gravar de forma aleatória: um cara gosta da música e grava, mas partir pra produzir CD não dá mais.

Cansou da falta de espaço na mídia natalense?
Apesar da minha idade, compor nunca foi problema. Agora, fazer sucesso é. Em Natal, nunca me faltou apoio da imprensa escrita e falada. As emissoras de rádio, a exceção da FM Universitária, é que nunca abriram espaço para minha música.

Quais os motivos?
Não admito que achem os arranjos da minha música mal feitos, que a gravação seja tecnicamente ruim. São composições reconhecidas em Recife. Ednaldo Santos (radialista famoso em Recife) me convidou para seu programa de estréia. Saio de lá, deixo meu CD e toca o ano inteiro. Escute “Carnaval de Antigamente” e veja que arranjos maravilhosos. Fiz também um samba enredo sobre Natal… É cada música bonita, cantada com uns vozeirões de arrepiar, arranjos caprichados, mas não toca.

São anos, décadas de lamento e nada muda. Vale a insistência?
Aqui é diferente da Bahia. Quando sai CD lá vai contrato às emissoras para tocar tantas vezes ao dia; precisa nem o artista pedir. Houve um estremecimento musical entre Recife e Salvador porque Antônio Miquines (pernambucano) chegou com CD pra tocar na rádio baiana e disseram que só tocavam se fosse grande sucesso ou o ouvinte pedisse muito. O que aconteceu? Em Recife nem Ivete Sangalo toca mais. Lá tem programa anual e diário de Hugo Morais só dedicado ao frevo.

Por que o senhor insiste no sucesso em Natal?
Porque um CD meu não sobra onde ponho para vender. Tem gente que coleciona. Imagine se tocasse! Só continuei a gravar porque vende. O povo toma conhecimento pelos jornais. Numa loja no Praia Shopping venderam dez essa semana.

Em 2009 o senhor não gravou por quê?
Recebi convite de Valéria Oliveira para participar de um CD (Sem Perder o Passo), junto com outros convidados. Compus duas músicas para o CD e deixei de gravar o meu. Quando saiu o CD, não tinha pra vender. Pediam-me e eu não tinha. Quando gravo um CD só o apoiador compra um número de unidades que cobre o custo de produção. Nesse último tive dois apoiadores. Eles compram, cada um, mais de dois mil para dar de brinde.

O senhor pretende visitar rádios para divulgar o novo CD?
Cheguei a uma rádio e fui muito bem recebido. “Olha o cara que fez a música do ABC!”. Coisa do tipo. Quando saí, me disseram: “Nem se preocupe que quando começarem a pedir a música, a gente toca”. Ora, se não toca, como vão pedir? Esse Carnaval com Bin Laden é uma média de 8 a 10 pedidos ao dia no programa de Hugo Morais, em Recife. Ele fica besta como o povo gosta dessa música. Outra muito pedida é A Fome Mudou de Nome (uma crítica ao programa Fome Zero). Então, não vou mais às emissoras, só à Univeristária que me dedica uma hora todo ano.

E o carnaval, passa por aqui?
Vou antes a Recife divulgar, dar entrevista, deixar os CDs. Tem loja no shopping que já está vendendo. A Rádio Capibaribe me dá uma hora. Quando acabar, venho pra cá para ver se consigo alguma coisa por aqui. Pode ser que resolvam tocar. De repente, até alguma coisa nova…

* Parte desse texto foi publicado no Diário de Natal de hoje

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