Entrevista do escritor Diego Moraes a Lívio Oliveira

Diego Moraes, 32 anos, é autor dos livros “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (2012), além de “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” (2013), ambos publicados pela (editora Bartlebee). Acaba de lançar “Um bar fecha dentro da gente” (editora Douda Correria) e até o fim do ano lançará “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘eu te amo’ no orelhão” (editora Corsário-satã).

Leia entrevista exclusiva com o escritor.

L.O. Pra começar, Diego, preciso saber como tem sido esse caminho iniciado em Manaus, lugar onde você nasceu no não tão remoto ano de 1982. Não é fácil nenhuma caminhada literária, todos sabemos. Mas, a sua parece mesmo fora-de-série. Muita história, não é? Muitas referências. O que me diz sobre essa tal de literatura, que se apresentou diante de você?

D.M. Faço aniversário com Nelson Rodrigues no dia 23 de Agosto. Não lembro de muita coisa na década de 80. Só que tive um velocípede do exército e que um rei momo embriagado arrebentou 3 garçons no baile de carnaval infantil de um clube da cidade. Tinha uma faixa bem grande no lugar desejando “feliz carnaval 1987”. Conheci a literatura em 1996. Estava procurando um mertiolate para passar numa ferida do joelho e acabei encontrando “Vidas Secas” do grande Graciliano Ramos na estante do quarto de uma tia já falecida. As ilustrações do livro chamaram minha atenção e o li de uma porrada só sentado no chão. Minha coluna chegou a doer, mas valeu a pena. Ele despertou meu interesse por leitura e daí li alguns clássicos da coleção vaga-lume e boa parte da obra de Marcos Rey. Escrevi meu primeiro conto em 97 após levar meu primeiro pé na bunda. Ele falava de um cara que se apaixonava por uma prostituta numa boate stripper e acabava falando de Jesus Cristo e depois casava e vivia feliz para sempre no céu. Nada é para sempre, né? Mas quando se é jovem tudo parece eterno. O conto tinha uma pegada gospel, mas depois melhorei muito. Literatura não deixa de ser músculo. Exercício. Quanto mais você malha, mais cresce. O lance é seguir escrevendo. E segui. Escrevia poemas e contos à mão. Tudo com caneta bic azul ou preta e lia para amigos e desconhecidos num bar a poucos metros de distância do Teatro Amazonas. Isso já no 2000. Tomei gosto pela bebida e caí de cabeça em John Fante, Bukowski, Rubem Fonseca, Kerouac, Roberto Piva, Pedro Juan Gutiérrez, Rimbaud e Lima Barreto. Daí foi um pulo para publicação em zines e revistas literárias de Manaus.

L.O. Até aqui, você já considera ter chegado a um ponto ideal? Ou desejado? Afinal, o que almeja nessa seara, o que há no seu horizonte?

D.M. Almejo ser lido. Apenas isso. Chega a ser engraçado ver amigos falando que querem desfilar na Flip e ganhar prêmios jabutis. Sempre achei essa coisa de feiras e premiações o maior embuste. Minhas referências literárias nunca ganharam porra nenhuma. Todos viveram como fodidos e beijaram a lona muitas vezes na vida. Lima Barreto vivia como mendigo e enlouqueceu no alcoolismo vivendo seus últimos dias num hospício. Não fora reconhecido em vida. Hoje o lance é diferente. Basta apenas publicar um livro (geralmente ruim) e já está com todos holofotes em sua direção. Já dá palestras e curso de escrita criativa. Uma geração que faz literatura como se estivesse comendo coxinha na hora do recreio. Os mauricinhos tomaram o poder do mercado literário com o jogo de marketing das grandes editoras, mas posso apontar 30 autores que estão longe de vernissages que escrevem muito melhor que esses caras que viajam para representar a literatura do Brasil em outros países. A internet e a Flipobre me deram a oportunidade de conhecer muitos escritores de calibre, do Oiapoque ao Chuí.

L.O. Você escreve contos, trabalha a poesia. Onde esses gêneros se encontram e se desencontram?

D.M. Charles Baudelaire diz o seguinte: “sempre ser um poeta, mesmo na prosa”. É o que tenho feito desde quando me entendo como gente. Meu livro “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” que está catalogado como do gênero “conto brasileiro” é poesia pura. Desde os diálogos dos personagens até descrições e rubricas. Às vezes leio prosadores que são mais líricos que poetas e também leio poetas que são mais prosadores que muitos romancistas por aí. Um crítico disse que minha dicção poética flerta com o epigrama, a micronarrativa e o mais arrebatado lirismo. É por aí. O importante é brincar a linguagem sempre. Acho que a literatura contemporânea tem quebrado com essa coisa de gênero. Daqui alguns anos ninguém saberá nem o que significa conto, poesia, romance, soneto, roteiro e texto teatral. Será tudo catalogado como literatura.

L.O. Seus textos têm tido realce na internet. Ela tem sido uma boa aliada? Tem sido fiel aos seus planos e metas? O fato de trabalhar textos curtos e a emoção instantânea colaboram nesse sentido?

D.M. Meu lance com a internet vem desde 2010. Tive um blog intitulado “ursocongelado”, no WordPress, que dava mais de mil acessos diários. Neguinho do Japão, Estados Unidos, Alemanha e até Rússia lia meus textos publicados nele. A internet é uma mãe. Um celeiro com bastante capim e feno. Ainda revela muitos autores. Graças a ela tive a oportunidade de publicar meus últimos 3 livros. Tem sempre um editor de bom coração garimpando quem escreve pedradas e coisas lindas na web. Agora ninguém gosta de textão na internet. Parece uma plataforma para se ler textos às pressas. No metrô ou no banheiro. É preciso manjar de sintaxe para dizer tudo em poucas linhas.

L.O. Aliás, você trabalha os seus textos curtos e poemas com uma visceralidade incomum. Consegue associar temas batidos, como o amor, com o tom ácido da crítica e da revolta social. Como trabalhar esse amálgama tão complexo e às vezes explosivo? E que outros elementos compõem essa mistura?

D.M. Eu sou um escritor que prega a vivência acima de tudo. Sem vivência, a literatura fica com cara de tênis falsificado. Soa falso. Você saca na hora que o cara pesquisou e trabalhou capítulos inteiros do romance que publicou na universidade e não consegue esconder as influências gritantes. Não que seja um problema, mas curto literatura que não faça me lembrar outros autores. Solidão, alcoolismo e adicção são lances que vivi. Então sei muito bem o que estou escrevendo. Tenho o controle quando trato desses temas, mas meu diferencial é que passo verniz com muito lirismo e refinamento. Sou um escritor muito lírico. A vida bate forte na gente e devolvemos com literatura. Essa é minha revolta. Uma revolta lírica.

L.O. Num dos seus textos recentemente publicados na internet você descreve transgressão como “morrer velhinho” e que “morrer jovem é tão clichê”. Em que medida você teme a morte?

D.M.  Me considero um sobrevivente. Boa parte dos meus amigos de infância morreram de overdose ou foram assassinados em circunstancias do tráfico de drogas. Cresci num dos bairros mais barras pesadas de Manaus na década de 90. Cheguei a ver gente metralhada e amarrada no poste quando saía para escola. Quero morrer velho porque agora tenho a literatura que não deixa de ser um vício – talvez meu melhor vício – e gosto de escrever. Dá prazer na mesma equivalência que sexo, de uma boa gozada. Já não me considero jovem. Tenho 32 anos. Rimbaud escreveu quase tudo aos 17. Então agora é relaxar e abraçar a velhice fazendo literatura da melhor qualidade.

moraesL.O. Mas, afinal e sinceramente, o que é mesmo “transgressão” pra você? Ela é essencial à literatura?

D.M.  Basta você ser diferente para ser chamado de transgressor ou marginal, Lívio. Escrever de um jeito foda que as pessoas te apontam como marginal ou transgressor. Não escrever parecido com a manada, que logo querem te rotular como o “novo Bukowski” ou “Céline da amazônia”. Escuto isso geralmente de gente que não conhece minha obra e confunde minha personalidade com literatura. Eu posso ser o cara mais durão da paróquia, mas minha literatura é lírica. Quem leu “A fotografia do meu antigo amor dançando tango”, “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” e “Um bar fecha dentro da gente” vai concordar comigo, mas é assim mesmo… quem não é coxinha é logo tachado de transgressor ou marginal. Só que nunca dirigi embriagado ou botei uma arma na cara de alguém para assaltar. Sou apenas um escritor. Ser chamado de “urso lírico” já está de bom tamanho.

L.O. A solidão e o desamparo são temas recorrentes nos seus escritos. São seus móveis íntimos?

D.M.  Desamparado não sei se já fui. Até quando vivi nas ruas em São Paulo, no ano de 2003, tive amparo de mendigos que dividiam restos de comida e cachaça comigo embaixo do frio. Gosto do trecho de uma música do Celso Blues Boys: “eu tenho alguém, mas me sinto sozinho”. Solidão é importante. A solidão sangra e escreve como ninguém. Aumentar a literatura é aumentar a solidão. É preciso ser sozinho para escrever coisas lindas. Fico desnorteado com alguém por perto. Atrapalha a minha escrita. Solidão é dádiva para quem escreve.

L.O. Como tem sido a receptividade da sua nova obra “Um bar fecha dentro da gente”? O que o leitor ganhará com ela? E as antologias de que tem participado, aqui e lá fora?

D.M. Acabo de sair numa antologia intitulada “70 poemas para Adorno” e publicar meu quarto livro de poesia “Um bar fecha dentro da gente” em Portugal. Tenho alguns leitores por lá atenciosos. E participarei de uma antologia outsider, na Argentina. O lance é expandir minha poesia. Alargar minha literatura. A poesia caminha com as próprias pernas. Basta escrever que ela anda e abre portas em qualquer lugar. O leitor ganhará poemas neste nível:

“Agora não adianta ofender

arranhar a pele

quebrar os discos do beck

agora não adianta escrever

pregar bilhetes na porta da geladeira

agora não adianta pegar leve na cocaína

agora não adianta falar em rehab

agora não adianta chorar

sentado na sarjeta do meu bar

predileto

agora não adianta dedicar poemas

agora não adianta jogar as cinzas do Marlboro no ralo da pia

agora não adianta comprar a obra completa de Walt Whitman

para ler nas férias

abraçado contigo no sítio dos meus pais

agora não adianta obturar os dentes

agora não adianta prometer

coisas que só o amor promete.”

(— Um bar fecha dentro da gente – Diego Moraes)

L.O. Quando se deve colocar um ponto final num conto? E num poema?

D.M. O silêncio é o ponto final. Quando ele começa a soar mais alto que seu desejo de continuar escrevendo é hora de parar e terminar o poema ou conto.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 6 comments for this article
  1. júlia favaron magoulas 21 de Abril de 2015 19:05

    houve um tempo que quando ia a locadora buscar um filme, “brincava” que estava buscando algo “arrebatador”. e passados muitos filmes, mudanças de casas e um mundo cada vez mais estranho, encontro na escrita do diego esse sentimento, se assim posso chamar, de arrebatamento. obrigado!

  2. Lívio Oliveira 21 de Abril de 2015 22:49

    Você tem razão, Júlia. As palavras de Diego são mesmo arrebatadoras. Devemos, sim, um agradecimento a ele.

  3. Anchieta Rolim 23 de Abril de 2015 13:46

    Legal, grande Lívio! Massa demais a entrevista. Parabéns, aos dois! E que venham outras.

  4. Lívio Oliveira 23 de Abril de 2015 18:04

    Amigo Anchieta, meu dileto artista, seguiremos adiante e juntos. Abração.

  5. José Saddock 27 de Abril de 2015 13:10

    Diego lembrou-me Rolim, apesar da diferença. A poesia libertária de ambos – criou em mim essa polissemia arco-íris.

  6. Pingback: Diego Moraes realiza lançamento do livro “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘Eu te amo’ no orelhão” em São Paulo | Livre Opinião - Ideias em Debate

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