Entrevista – Fernando Luiz


Desde crooner do conjunto Apaches, Fernando Luiz construiu 40 anos de carreira dedicada à música popular

Brega é gíria baiana para designar puteiro, segundo Caetano Veloso escreveu em seu livro Verdade Tropical. O gênero é discriminado desde muito antes. Fernando Luiz sabe disso. O autor de Garotinha começou a carreira profissional em 1969, quando cantores e compositores bregas como Odair José eram abominados pelas bandas de rock e astros da MPB. Do rock potiguar ao programa do Chacrinha, das boates cariocas à venda avulsa de livros, dos shows no circo à música brega e ao trabalho de resgate da música romântica potiguar, são quatro décadas de vivências, lutas e vitórias musicais comemoradas amanhã com o lançamento do DVD Fernando Luiz: 40 anos de música.

O show tem a personalidade do artista: no bairro de Felipe Camarão, aberto ao público e repleto de convidados também reconhecidos pela representatividade popular: Júnior Grafith, José Orlando, Messias Paraguai, Lane Cardoso, Carlos Alexandre Junior e outros. No repertório, 12 dos maiores sucessos de Fernando Luiz, pout-pourri com sucessos do brega que marcaram época, duas canções em inglês para registrar o início da carreira como crooner da banda Apaches, além dos hits de cada convidado. “José Orlando, por exemplo, vem só para cantar Pistoleiro do Amor. Veja que prestígio, como eu sou chique”, brinca o cantor, que junto com Carlos Alexandre e Gilliard, foram os artistas-solo que mais divulgaram o nome do Rio Grande do Norte fora do Estado.

E o chique, no tempo-hoje, rima com cult. O brega, em tempos de cólera, é cult. Odair José é cultuado por gregos baianos, atenienses roqueiros e babilônicos de toda sorte. Um reconhecimento tardio. Há 30 anos, Odair, Fernando Mendes e Amado Batista vendiam milhões de discos e cobriam os prejuízos das gravadoras que apostavam nos astros da música tropicalista e roqueira. Essa é a Verdade Tropical: o brega financiava a MPB. E aquele mesmo Caetano Veloso – o do brega = puteiro – regravou Fernando Mendes recentemente e redescobriu o sucesso comercial com “E agora, que faço eu da vida sem você…”. E há que se concordar: o brega, assim como o puteiro, agrada desde o pobre mais matuto até o rico mais arrogante.

Entrevista – Fernando Luiz

Nos fins dos anos 60 e psicodélica década de 70, a música em Natal girava em torno do rock e das bandas de baile. Como foi esse início de carreira e como chegou ao brega?
Quando cheguei de Nova Cruz a Natal, em 1969, as bandas tocavam rock. Desde Renato (e seus Blue Caps), até Beatles, sucessos internacionais e MPB. O brega era música abominada. Quando entrei no conjunto Apaches, usava barba, macacão jeans, aquela coisa roqueira. Mas minha infância foi ouvindo Anísio Silva, os boleros do Trio Irakitan, e quando morava em Natal ouvia Jerry Adriani, Wanderley Cardoso…

Era vocação, então.
Minha imersão no brega propriamente dita foi em 1982. Antes disso viajei ao Rio de Janeiro em 1974. Lá eu cantei de tudo nas boates e churrascarias cariocas. Abria concessões para cantar Roberto Carlos, José Augusto, Altemar Dutra, porque o povo pedia. Conquistei o primeiro lugar no quadro Buzina do Chacrinha, gravei meu primeiro compacto simples com músicas do tipo. Quando voltei a Natal, em 1982, não tinha mais o perfil de roqueiro. Então, para sobreviver, tocava música romântica em bares, churrascarias e encontrei os circos. Foi lá onde incorporei a música brega. Cantava Evaldo Braga, Evaldo Freire, Reginaldo Rossi, Amado Batista. Motivei-me com o estilo, gravei disco e encontrei minha vocação. Não fossem os circos, talvez estivesse perdido hoje cantando de tudo um pouco.

Odair José sofria preconceito. Hoje, ele é considerado cult. Essa mudança se deve a que?
Eu ria desses caras, mas eram os que mais vendiam discos. Graças a eles os artistas da MPB podiam gravar, porque a venda dos bregas cobriam os prejuízos comerciais dos artistas cults. Paulo Sérgio Araújo escreveu, em 2006, o livro Eu Não Sou Cachorro Não, que explica bem isso. O brega desde sempre abriu espaço para as questões sociais da camada mais popular. A emprega doméstica nunca sentou à mesa na música de Chico Buarque, enquanto Odair José pedia: “pare de tomar a pílula”, e antecipava um problema moderno. Então, Caetano Veloso, sempre gênio, recentemente regravou Fernando Mendes (Você Não Me Ensinou a Te Esquecer). “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, de Odair José também foi bem regravada. Então, essa onda de brega cult se deve bem a Caetano.

Você tem trabalhado durante anos na busca e incentivo aos valores populares da cidade, promovido shows em periferias. O que você tem encontrado de bom por aí?
Não sou pesquisador. Sou um observador da cena. Sei que tem muita gente boa. Mas destacaria Júlio Lima, que faz uma mistura de som bem bacana. E Arleno Farias, também fora de série. Sem deixar de lembrar Roberta Sá, Marina Elali, que canta muito bem, e Khrystal. Em termos de representatividade, lembraria Lane Cardoso, mesmo no difícil campo do axé, a banda Grafith, que toca de tudo, e, não caia da cadeira, Zezo, que mesmo com sua cafonice gravou Dolores Duran quando ninguém pensava nisso. São artistas representativos em seus segmentos. Multiartista é Hermeto Pascoal. É preciso ter um perfil musical que lhe identifique. O meu é a música romântica, o brega.

Fernando Luiz: 40 anos de Música
Quem: Fernando Luiz e convidados
Data e hora: Amanhã, a partir das 20h
Onde: Felipe Camarão (por trás do Detran, cruzamento das ruas Santa Cristina e Santa Maria)
Acesso livre

* Texto publicado hoje no Diário de Natal

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