[ENTREVISTA] Gessyka Santos e Gonzaga Neto falam sobre projeto “Um poeta em cada esquina”

Projeto “Um poeta em cada esquina” (AQUI o canal oficial) estreou nesta quinta-feira com a ideia de conversar com um poeta potiguar por semana de um jeito informal. Conversei com os realizadores Gessyka Santos e Gonzaga Neto, também poetas, para saber um pouco mais da proposta audiovisual e literária contemplada na Lei Aldir Blanc.

Há muitas formas de se divulgar literatura nos meios impressos e digitais. Por que um podcast?

A inquietação veio após esbarrarmos com a surpresa de um jovem, que achava que só existiam poetas mortos. Então, discutimos entre nós essa necessidade de divulgar e registrar a poesia norte-rio-grandense contemporânea de uma forma tão contemporânea quanto, na tentativa de criar um espaço para que esses artistas potiguares se expressassem para além dos seus textos. Bem, os podcasts viraram uma febre nos últimos anos, né? A gente costuma ouvir muito, sobre cinema, política, humor. Aí sentimos falta de um que falasse especificamente de poesia. No fim das contas, porque não unir o útil ao agradável? Foi assim que surgiu o Um Poeta em Cada Esquina.

Percebi, pelo release, que o podcast contará principalmente com a presença de poetas muito jovens, para além dos cânones potiguares. Qual o objetivo dessa proposta?

Porque não? Essa é só a primeira temporada e, ao longo das outras, a gente pretende, sim, trazer novas pessoas. De todos os estilos, de todas as idades, tempos de estrada, cores, gêneros e por aí vai. Pra gente, é importante mostrar que a poesia potiguar não é feita só por homens&héteros&brancos como, historicamente, está registrada que é. Eles também aparecerão por aqui em algum momento, afinal, também fazem parte da poesia potiguar. Temos uma lista enorme de nomes e queremos conversar com muitos poetas. Contudo, entendemos que tem muita gente foda tendo o que falar, mas sem espaço. Nesse momento, essa é a nossa prioridade.

Aproveitando o ensejo, como vocês visualizam a produção literária de escritores iniciantes no nosso estado? Há apoio suficiente?

Não há apoio suficiente nem para quem já tem anos de estrada, avalie pra quem tá começando. Natal tem muita gente boa, que faz literatura na marra. Ficamos felizes em ver que, cada dia mais, as produções independentes de zines está crescendo. Essa é uma ótima forma de começar e de aparecer. Sabemos a dificuldade (e quão caro) que é lançar um livro e a maioria não tem condição, por isso a importância crescente das mini-publicações, sejam elas físicas ou digitais. Os caminhos para conseguir apoio são bastante complicados e é preciso percorrer, boa parte deles, no escuro – agora que nós estamos começando a entender aonde ir, mas o caminho tá longe de chegar no final. Não obstante, os resultados da Aldir Blanc foram bastante animadores, vimos muitos rostos novos em projetos diversos e isso nos alegra. Quanto mais gente produzindo literatura e arte, melhor. A cidade necessita disso. Para além, é preciso educar o público também. É um processo árduo, mas muita gente adora consumir e esquece que o artista também é um trabalhador. Que muitas vezes, aquele zine que você leu inteiro e não comprou, era a passagem de volta pra casa dele. Que aqueles cinco reais de entrada que você não pagou e entrou no migué, era a intera pra pagar uma parte do aluguel. Arte também é trabalho e as pessoas precisam entender isso. E dá pra apoiar mesmo liso, sabe? Uma curtida, um compartilhamento, uma indicação para amigos, tudo isso ajuda.

A primeira temporada foi contemplada pela Lei Aldir Blanc, realizada pelo Governo Federal e Governo do Rio Grande do Norte, através da Fundação José Augusto. Qual a importância desse tipo de iniciativa para a divulgação da cultura?

Esse tipo de iniciativa é essencial. Se as instituições começarem a tratar os artistas como classe trabalhadora, que merecem respeito e incentivo, isso vai começar a reverberar na população. Mas a gente sabe que, do jeito que as coisas estão, isso não deve acontecer nos próximos anos – afinal, o tesão do homem lá é nos desencorajar e desacreditar. Os próximos anos serão de luta e resistência e não se espantem se livros forem queimados. Também é importante frisar que leis de incentivo não são favores que fazem pra gente. É direito! Nesse momento, é preciso nos unir, nos apoiar e tirar quem está no poder. Sem isso, nada vai melhorar muito.

Por fim, por que o nome “Um poeta em cada esquina”? A que esse título remete considerando o contexto da nossa cidade e do nosso estado?

Há um ditado muito antigo que diz “Rio Grande do Norte. Capital Natal. Em cada esquina, um poeta. Em cada beco, um jornal”. A gente achou que casaria bem com a nossa proposta e seria um bom nome para um podcast. Quem frequenta o cenário artístico daqui sabe que, não importa onde se está, vai esbarrar com um poeta em cada esquina. Na real, nem cogitamos outro nome. Quando a gente entendeu o que seria o projeto, ele mesmo se impôs. E cá estamos! Inclusive, é sempre bom lembrar que as conversas estão disponíveis todas as quintas-feiras no Spotify e no YouTube e que, durante toda a semana, postamos conteúdos relacionados aos poetas convidadas – nessa primeira temporada fizemos vídeo-poemas bem legais que podem ser conferidos na IGTV, em @umpoetaemcadaesquina. Um xero de Gonzaga Neto e Gessyka Santos!

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