[ENTREVISTA] Henrique Lopes e o “Mar de Paradoxos”, do Igapó de Almas

Fotografia de capa: Marina Mole

A banda Igapó de Almas liberou o novo trabalho nesta sexta-feira (19), em suas redes sociais e canais de streaming. “Mar de Paradoxos” foi plantado, regado, colhido e fermentado, até espumar no copo, durante mais de dois anos, por cinco estúdios. Achei um dos discos mais legais feitos nesta esquina da América do Sul, nos últimos tempos. Ritmos, arranjos, letras fortes, boas melodias, aquela série de efeitos já observados nos discos anteriores, mas agora maturados pelos anos de experiência em home studio – a estreia, “A”, é de 2014.

Uma reunião de gente talentosa que só cresceu ao convidar artistas de grande sensibilidade estética e múltiplas habilidades, como Bex, Alice Carvalho, Tiago Terras e o poeta Netuno Leão. Em uma troca de áudios frenética, conversei com Henrique Lopes, instrumentista, diretor artístico, produtor executivo e à frente da assessoria da banda, via Rizomarte Records (selo do qual é sócio proprietário). Foram nove perguntas sobre este ser o disco com mais faixas cantadas (só uma instrumental), de ter letra politizada, duas cantadas em inglês, e como foi concluir “Mar de Paradoxos” durante um período trágico.

O disco começou a ser gravado em junho de 2018 e só foi lançado agora em 2021. O que mudou nas composições, produção, arranjos, nesse tempo? Como o isolamento pela pandemia influenciou nesse processo?

Henrique Lopes: Esse primeiro momento de gravação, em 2018, foi uma espécie de residência artística. Passamos uma semana reunidos num espaço pra gravar, dedicação exclusiva a isso. Cada um trouxe um tema instrumental, uma canção que havia composto e coisas que haviam surgido em jams sessions ali. O disco começou a ser esboçado a partir desse encontro. Aiyra havia recém-entrado na banda, a gente tava mudando de formação, então a gente não tava entrando no processo de levantar o show, optamos por já entrar no processo criativo, até porque o Igapó tem esse perfil de projeto musical. A gente gosta de estar permanentemente construindo uma obra. Mas as músicas só ficaram prontas mesmo em janeiro de 2021, principalmente a parte de mixagem e finalização. O estúdio do Pedras, na Vila de Ponta Negra, o Cigarra, ele foi a base do Igapó. Quando a pandemia começou, a gente não estava trabalhando no disco. Não víamos perspectiva de como fazer isso acontecer, aí com a aprovação do edital [Lei Aldir Blanc] a gente se organizou pra gravar as músicas na Casa das Artes, tomando os cuidados necessários, não tão coletivos. Às vezes, ia um de cada vez e ia resolvendo as faixas.

Capa de “Mar de Paradoxos” em xilogravura feita por Gustavo Rocha

Daí que estico uma segunda pergunta que envolve a situação do país: “Ijira”, letra e voz da Alice Carvalho, é um tema politizado, com fortes referências à nordestinidade e ao presente da política brasileira. Sendo o Igapó de Almas influenciado por sons da nossa região e também da Amazônia, era natural ‘um grito’ contra a política do atual governo surgir na música de vocês?

Todo mundo no Igapó é contrário à maneira como esse governo conduz o país, se é que dá pra dizer que ele conduz de algum modo. Acho que é uma política bem destrutiva. Desde o começo, muito pela vivência que o Pedras teve no Acre, onde ele morou nove anos, incorporamos muita coisa das sonoridades amazônicas, principalmente na parte rítmica. Então, independente se isso está tematizado claramente como uma crítica ao governo, mas o próprio fazer cultural ele já é uma atitude de crítica permanente. É você seguir fazendo uma coisa que não se deseja que seja feita assim. Falando especificamente da música da Alice, a Ijira, a gente já tinha o tema instrumental e nessa de sempre convidar pessoas pra participar dos discos, Alice já estava no radar. Ela é uma artista que a gente admira pra caramba como atriz, mas também como roteirista. A gente já tinha visto a leitura dela de um texto no trabalho do Baiana System. Ela já tinha usado música do Igapó como trilha do Septo [websérie]. Convidamos mas sem definir o tema. Quando a gente convida pessoas para colocar suas composições em nossos discos, não damos uma orientação do tema. A gente mostra o som e vê o que a pessoa traz. Quando ela trouxe esse texto, fechou muito bem com o que a gente tava querendo expressar. Por isso que é a segunda música. Porque digamos que a primeira parece uma coisa mais conceitual da sonoridade, e na segunda ali com a Alice ela já deixa claro falando por todos essa perspectiva de fazer uma crítica. Ela fala de ‘familícia’, coisas que são notórias mas acho que a arte serve pra reiterar coisas claras pra todo mundo.

Explica o processo de composição de vocês. Alguém chega com um beat, uma melodia, uma ideia, ou vocês tiram um tempo de produção coletiva e ‘obrigatória’?

Sobre processo de composição, acho que tem dois caminhos que acabaram orientando a produção. Algumas músicas surgem de alguém da banda produzindo já no computador. Nesse disco, foi principalmente o Pedras e o Rafael [Melo], que são os produtores musicais do disco. Eles criam algum tema de sintetizador, uma programação eletrônica, e vão compondo a música instrumental que, depois, ela ganha uma letra. Isso aconteceu, por exemplo, com a música que a Alice participa, que a Bex, o Netuno Leão. Foram surgindo do computador e depois ganharam mais camadas, até que colocamos as vozes. O outro caminho são as canções que os próprios integrantes trouxeram pro disco. A música já vem como uma canção, que pode ter sido composta no violão, como é o caso de “Jellyfish”, que foi o [Artur] Porpino quem compôs. Ou “Antes que eu me arrependa”, que é minha. A música já vem com uma ideia de harmonia, de melodia, e aí mostramos pra todo mundo e vamos arranjando a música, mexendo um pouco na harmoniza, tentando sair de alguns lugares comuns. Em geral, as camadas das músicas surgem de uma maneira bem gradativa, num processo lento. E na reta final é um processo onde a gente desgrava muita coisa. Esse é um papel do Walter [Nazário], nas finalizações das músicas, pra jogar com o silêncio, músicas que estão com muitos elementos a gente vai tirando, recombinando, secando uma percussão aqui, uma guitarra ali.

“Mar de Paradoxos” é o álbum com menos faixas instrumentais da banda (só uma, a ótima “Nuvem”). Vocalizar parte das ideias sonoras foi mais urgente dessa vez?

Colocar voz nesse disco foi uma questão que a gente tava buscando mesmo. No primeiro disco, o “A”, as letras vieram muito do Pedras. No “Laborioso Vinho”, as letras vieram do Pedras, da Maria Di Lia e eu escrevi uma coisa ou outra. Nesse terceiro disco a gente estava numa construção coletiva, eu, Pedras, Porpino, a Aiyra, apesar de não ter entrado composição dela, que tava mais na onda de contribuir na parte percussiva. Mas todo mundo tinha letra pra colocar no disco. Nesse sentido, a gente achou que essas letras tinham que sair, pois acaba que as coisas ficam engavetadas. O próprio titulo de uma música diz isso: “Antes que eu me arrependa”. Ou seja, antes que a gente desista de deixar uma letra na gaveta, vamos colocar aqui nesse processo. E foi legal, por que o disco além de ter diferentes vozes, tem pontos de vistas diferentes. O disco se tornou plural.

Henrique Lopes é instrumentista, diretor artístico, produtor executivo e faz a assessoria do Igapó de Almas, via Rizomarte Records

Se a formação original destaca um grupo de homens, a presença feminina segue muito viva no trabalho de vocês, com a oficialização da Aiyra como integrante, em seu primeiro álbum na banda, e no novo trabalho, com as participações da Alice e da Bex. Fale sobre isso.

A presença feminina é algo muito natural, que já vem do primeiro disco, com a maioria das participações femininas no canto. Quando a Aiyra entrou na banda, em 2018, foi na saída do Walter. Ele tinha se desligado da banda e ela entrou como multi-instrumentista e também cantora, uma artista completa do ponto de vista musical. Foi a primeira vez que a gente teve presença feminina no palco, nos ensaios, presente o tempo todo com a gente. Tem sido muito legal. A presença dela tornou as coisas diferentes, a energia ao vivo é diferente, dos ensaios. Com as participações também. Nós escutamos muitas mulheres. A Alice e a Bex a gente já estava escutando. Eu tenho um selo, o Rizomarte, e já tinha lançado a Bex, que é uma grande cantora, uma grande inventora de melodias, uma produtora musical, alguém que está totalmente ligada à linguagem do Igapó. Alice também.

A proposta do Igapó de Almas passa pelo retorno às culturas originais do país, uma busca pelo ‘eu’ brasileiro. Em “Mar de Paradoxo”, da capa aos temas, a ideia tem sequência.

É uma presença muito minoritária na construção da sonoridade brasileira. A ideia de Brasil incorpora muito mal toda a cultura dos povos nativos. E isso também reverbera na música. Essa escuta [da música dos povos originais] já vem sendo feita há muito tempo. Poderia falar da Marluí Miranda, do Uakti, que são influências pra gente. O Igapó faz isso de maneira muito pontual, muito ligada a uma expressão artística. Agora, na banda todos são muito ligados nas coisas brasileiras, do Nordeste, nas gravações antigas. Eu sou historiador no campo da música, então estou fazendo uma pesquisa atualmente sobre o acervo da gravadora Rozenblit [Fábrica de discos pernambucana que, entre os 50s e os 70s era considerada a maior do Brasil]. O Porpino e a Aiyra também têm formação acadêmica e pesquisam sobre a música brasileira. A proposta do Igapó sempre foi fazer uma coisa contemporânea, mas que para quem escuta lá de fora, e a gente tem quem nos escuta no Japão, na Eslovênia, enfim, se depara com um tipo de música brasileira feita hoje em dia. Vivemos isso no dia a dia, não são referências forçadas, faz parte de nossa formação. Não tem como soar de outro jeito.

A pandemia, o isolamento forçado ao qual estamos submetidos, favoreceu a introspecção, o intimismo tão desejado por muito artista. Isso ajudou vocês, de alguma forma?

Teve coisa boa, mas também atrapalhou muito. Tem todo um lado negativo não só pro Igapó, mas em outros projetos que cada um tava envolvido. Sobre a questão da pandemia não vejo como isso reverberou no processo do disco não. A não ser a parte de finalização, mas na poética do trabalho acho que não influenciou.

A faixa de abertura, “Me deixa diluir”, samba, choro e até bolero cubano estão bem evidentes. Tem a ver com o que vocês estão escutando?

A faixa de abertura “Me deixa diluir” foi feita voz e violão, em 2015. Pedras escreveu a primeira parte da música. Aí nesse encontro que a gente fez em 2018, fomos gravar essa musica, que eu gostava muito e escrevi o final da letra, numa parceria com Pedras. Aiyra tava com uma moringa, ela fez a parte rítmica batendo com uma baquetinha de vassorinha. O Porpino gravou os violões. Rafa, os sintetizadores, Pedras a voz. É uma música que como tem a poética do mar, e a gente tava com a proposta do menos é mais pra esse disco, de diminuir as camadas das músicas. Essa música é uma redução extrema das camadas, ruídos, samples que tínhamos antes. Ela tem traço de samba, choro, bolero, mas nada pensado.  O samba, sim. Ela já veio numa levada de um samba, tem hora que a moringa sai da célula, dá o ritmo um pouco fora do tempo. A gente gosta de brincar com isso. Por isso ela começa o disco. Ela acabou se tornando uma síntese desse desejo de fazer uma sonoridade minimalista. Eu gosto quando um disco começa, em vez de uma experimentação muito profunda, pega o ouvinte pela mão e mostra “Ó, tá tranquilo, é só uma voz, tá tudo calmo”.

Fotografia: Marina Mole

Já “Paraglider” e “Jellyfish”, são as primeiras cantadas em inglês. Existe plano de testar o som lá fora?

Não foi algo planejado, isso de colocar duas letras em inglês. O Porpino trouxe a Jellyfish, que tem uma letra muito legal, uma música que traz uma leveza que foi uma coisa nova pro Igapó. Já a da Bex [“Paraglider’], a gente tava com o tema instrumental que o Rafa havia composto, uma onda meio trip hop, meio Massive Attack, talvez. A Bex dialoga com esse estilo e ela tinha até letra em português. Mas ela trouxe uma em inglês. Ela é uma grande inventora de melodias e ficou muito bonito. Não houve plano de direcionar disco lá fora. Desde o nosso primeiro disco, a gente tem um público que acompanha o Igapó em outros países, principalmente através do Bandcamp, que é uma plataforma muito voltada pra quem gosta de pesquisar som do mundo. Desde nosso primeiro disco, por essa plataforma chegamos em vários cantos do mundo. Nosso álbum foi resenhado por sites do México, tocou em rádio do Leste Europeu.

São sete anos desde o primeiro disco. Qual a principal mudança na música de vocês nesse tempo?

Do ponto de vista das ideias musicais e da poética, não houve uma mudança tão grande. A gente continua sendo esse projeto que pede uma escuta mais introspectiva. Não é um disco que você vá colocar num churrasco, tomando uma cerveja com um monte de gente, mas pode ser aquele disco que você escuta num momento mais solitário, de relaxamento. Mesmo que tenham músicas mais animadas, acho que a poética do grupo acaba levando para um caminho mais introspectivo. A grande mudança diz respeito a maneira que aprendemos a operar um home studio, que é o grande instrumento do Igapó. O computador, estúdio em casa, aprendizado autônomo de gravar, mixar, testar muita coisa. Nesse campo, a discografia do Igapó vem evoluindo porque os produtores Pedras, Walter e agora o Rafa, eles se aprimoraram muito nessa arte de conseguir bons resultados em seus estúdios em casa. As músicas soam melhores. O trabalho tá melhor acabado, melhor mixado. Essa talvez seja a grande contribuição da nossa geração, no mundo todo. A coisa do home studio enquanto um instrumento.

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