[ENTREVISTA] Maíra Dal’Maz: O agouro alquimicamente é também cântico

Maíra Dal’Maz (1991) é poeta, escritora e mediadora do Leia Mulheres, nascida no Pará mas vivendo em Natal desde 1993. Ela estreia em livro solo com “Agouro”, lançado pela Editora Escaleras, uma casa editorial nordestina e idealizada por mulheres. O livro, que está em pré-venda no catarse até o próximo dia 23, é uma teia mágica que embrulha pessoas, viagens, memórias, pesadelos e sonhos.

Com textos dos dois últimos anos, o livro é composto predominantemente por poemas, apesar da existência de eventuais “prosas sonâmbulas”, como a autora as chama. Nele, Maíra aborda temáticas que o próprio nome anuncia: a iminência de algo, essa atenção ao sinal e o peso destes tempos em que vivemos — tudo isso com a maturidade de escrita apontada por Isabela Coelho na orelha: “Que não se enganem: ‘Agouro’ é um livro de estreia de uma poeta experiente”.

Enquanto o livro não chega, ficamos com uma breve entrevista para sabermos um pouquinho dos bastidores e dos labirintos deste que promete ser um grande livro.

Maíra, você pode contar um pouquinho sobre sua relação com o livro/ literatura?

Minha relação com os livros/literatura é de família. Minha mãe sempre me deu livros durante a infância. Também havia uma estante em casa, com a qual pude me familiarizar com alguns clássicos da literatura mundial — de capa, claro que a leitura destes livros veio muito depois. Por parte de pai, meu avô, que é analfabeto, sempre se orgulhou muito do poema que um dia ele criou e recitou para Câmara Cascudo — é realmente belíssimo. Apesar das dificuldades, também é uma família muito ligada às artes, sobretudo literatura e música. Meu tio Ivam Pinheiro é poeta e até arrisco a dizer que meu pai também, além de um exímio leitor. Tudo isso não quer dizer que venho de uma família rica, mas que dei sorte, sim, e que este é um resumo romântico da coisa.

Ser professora e poeta tem alguma relação?

Honestamente, eu me esforço para que não haja esta relação. Claro que estudei literatura na minha formação em Letras e que eu também ensino isso, mas o trabalho é outro. Talvez a única relação seja que em ambos existe o trato com a linguagem.

Como foi o processo de feitura do livro? Como surgiu a chance (e a coragem) para publicar?

A chance de publicar foi de uma chamada pública da Editora Escaleras. A coragem foi esse risco pujante de morte, em decorrência desta pandemia — a bem da verdade, coragem tem vindo, na verdade, deste medo horripilante, porque sou muito medrosa. Venho editando poemas, organizando e escrevendo desde a metade do ano passado, quando me sobrou um tempo, devido ao isolamento. Também comecei a fazer algumas oficinas que me ajudaram profundamente a me expressar e ter um pouco mais de segurança.

Em nosso cotidiano, a palavra agouro é comumente utilizada com uma conotação negativa; em que medida seu livro reforça ou se distancia dessa conotação? Há uma linguagem específica para o agouro?

Sim, entortamos a palavra, mas isso não é de todo mal. O livro reforça em muitos aspectos essa conotação negativa, porque assim costuma funcionar meu raciocínio. Não vivemos nos piores tempos da humanidade, mas isso é muito difícil de defender. Por isso também os poemas afastam-se da conotação negativa, mas é preciso esforço para perceber, como também é preciso na vida.

Qual é o seu interesse com a linguagem?

Respondo, como sempre, com Orides Fontela: “Toda palavra é crueldade”. Tenho interesse nesse tipo de linguagem, que fere e salva. Ou como diz Marcelino Freire: “A minha vontade é sair gritando. Urrando.”

Dado o caráter intimista do “Agouro”, em que medida os sujeitos líricos de seus poemas camuflam sujeitos autobiográficos?

Acredito que antes de serem autobiográficos, são mais como projeções da memória. E como a memória funciona cheia de lacunas e enviesamentos, ela é criativa neste aspecto. Sempre tem a pessoa real que escreve, óbvio, e quem a orbita, mas há, além disso, todas as possibilidades que não são ela. Que não sou eu, nem ninguém, em sua totalidade.

Como é lançar o primeiro livro por uma editora nordestina liderada por mulheres?

Como afirmei no formulário da chamada pública da editora, é um encontro de projetos de vida. Como mediadora do Leia Mulheres há mais de 5 anos, eu escancaro essa importância. Débora Gil Pantaleão é muito generosa, e ter meu original aprovado por ela é uma honra imensa e, claro, uma alegria forte.

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