Entrevista – Nação Zumbi

* Entrevista feita pela internet é uma faca de dois gumes: ou o entrevistado aproveita para conceder respostas mais elaboradas ou responde com desdém e o repórter perde a chance da réplica, da insistência, do ping-pongue. Enfim, tirem suas conclusões…

“O caranguejo ainda vira gabirú”

Depois do renascer da música sob o manto de ritmos, protestos e berços diferentes, a espera por um novo boom sonoro original se torna cada vez mais distante. Do jazz ao blues, do rock ao punk, do reggae ao ska, a história da música assiste, de tempos em tempos um toque genial. O Brasil contribuiu com a Bossa Nova. Isso até caranguejos saírem das tocas e migrarem do mangue nordestino para ganherem o mundo: da lama ao caos. Essa diáspora comemora 15 anos em 2009. E o palco do festival Música Alimento da Alma (Mada) estende o tapete vermelho a uma Nação Zumbi ainda viva e pulsante.

O Mangue Beat ainda chora a morte de Chico Science com música renovada e as mesmas guerrilhas culturais e intervenções políticas, símbolos da filosofia musical revolucionária de Recife. São 15 anos do lançamento do álbum Da Lama ao Caos – o segundo e último de Chico “Ciência” junto com a Nação Zumbi. Um disco antológico, referencial. Já na música de abertura, Monólogo ao Pé do Ouvido, a proposta estético-política do movimento Mangue Beat é introduzida. Após hiffs poderosos, maracatu cibernético/punk e o Recife pintado de mangue, o hino Da Lama ao Caos chega aos ouvidos para anunciar a invasão dos caraguejos.

Todas as 14 composições do Cd serão apresentadas no show Da Lama ao Caos Faixa a Faixa. A Nação Zumbi sobe ao palco montado na Arena do Imirá durante o segundo dia do Mada, dia 24 e contará com a participação de outro representante máximo do movimento: o pernambucano Otto. Outras canções notórias da banda – da época de Chico Science ou não – também serão apresentadas nesta celebração, como Praieira, que remete a uma mistura energética; Samba Makossa, música popularizada na versão de Marcelo D2; Salustiano Song, canção que atingiu o grande público e outras mais executadas por Jorge Dú Peixe e seus mangue boys da Nação Zumbi, como o contrabaixista Dengue, entrevistado pelo Diário de Natal:

Entrevista – Dengue

São 15 anos de Da Lama ao Caos. O som do Mangue Beat permanece o mesmo ou já sofreu influências de novas sonoridades?
Mudar sempre. Mudou e deve continuar mudando graças a deus! A cada dia tocamos de um jeito diferente devido as novas experimentações.

O Cordel do Fogo Encantado, o Mombojó são claramente influenciados pelo Mangue Beat, mas tem identidade própria, som diferente. O que acham dessa, digamos, mutação do movimento?
Bom, essa é a proposta. Não existe um som que realmente caracterize o movimento. A identificação é mais ideológica do que sonora. Sempre pode tudo, e ver que os caras entenderam isso, nos dá a certeza de que realmente conseguimos passar algo para as pessoas. Além do mais trabalhamos com as duas bandas citadas sempre.

Os integrantes da banda têm gostos parecidos ou existe uma salada rítmica saudável ao resultado final?
A salada existe e é saudável. Se não fosse ela já teríamos acabado a banda há muito tempo.

Os projetos paralelos de cada um são o segredo da permanência do grupo nestes 15 anos e com mesma formação desde 2002?
Apenas um dos vários segredos.

Como foram os bastidores da gravação do Da Lama ao Caos? Vocês tinham consciêcia de que seria um álbum histórico e referecial para a música brasileira?
Não tínhamos e não temos essa consciência. Tudo era novidade e aproveitamos cada minuto daquilo.

Vocês vislumbram o surgimento de outra força rítmica e revolucionária como o Mangue Beat para os próximos anos? De onde surgiria e com que proposta?
Realmente não fazemos a menor idéia sobre isso. Quando acontecer estaremos ligados.

A morte de Chico Science modificou de alguma maneira o som da banda?
Totalmente. Mas se ele estivesse ai, o som também seria cmpletamente diferente.

A proposta estético-política do manguebeat se mantém hoje? Até quando permanecerá atual diante do cenário mutável da música e da sociedade?
Como a proposta era modernizar , acredito que sempre será atual e mutante.

Qual o melhor caminho: da lama ao caos ou do caos à lama? O caranguejo já consegue andar para o Sul sem virar guabiru?
Tanto faz o caminho, o interessante é aprender com ele. E o caranguejo ainda continua virando gabirú. Nós ainda temos problemas com isso.

São 15 anos do álbum, de sucesso. O bucho está cheio e organizado. Já dá pra desorganizar?
Toda vez que vemos as coisas se organizando, de pronto desorganizamos tudo outra vez e a história se repete…

* Matéria publicada no Diário de Natal deste domingo

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