Entrevista – Pablo Capistrano


O que faz de alguém um filósofo? A pergunta é instigante e a entrevista a seguir, também. Não basta a busca pela verdade para a conceituação de filósofo. Um historiador também procura fatos. Também é muito pouco o deslumbramento com particularidades cotidianas, como sugere o clássico O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, ou toda criança seria um filósofo em potencial. Talvez o filósofo seja aquele em busca de uma verdade ou uma teoria explicativa de algum fato. Quem deseja mergulhar neste mundo fantástico da filosofia e usa-la como a melhor arma para se defender dos perigos do dia-a-dia, o filósofo Pablo Capistrano lança amanhã o livro Simples Filosofia (Rocco, 175 pág, R$ 24,50) na livraria Siciliano, no Midway, a partir das 16h.

O jornalismo é necessário às ciências para tornar fácil a leitura de temas científicos. A filosofia se vale da crônica com este propósito?
A filosofia tem um contato íntimo com a literatura. Parmênides escreveu uma poesia para falar do Ser; Sêneca e Epicuro foram mestres no gênero epistolar; Kierkegaard escreveu diários; Sartre e Camus usaram o formato do romance para expandir a filosofia existencialista; Agostinho e Descartes escreveram biografias e por aí vai. Eu optei por usar a Crônica, um gênero muito forte no Brasil, como suporte para a filosofia. Acho que nesse sentido a literatura é a melhor ferramenta para aproximar o leitor. Ela é quem dá o tempero ao texto.

Você já disse em entrevista à Revista Catorze que a Rocco busca livros vendáveis. Pequenas Catástrofes e Simples Filosofia são livros comerciais a partir de qual pressuposto?
Acho que hoje há um certo apelo comercial na filosofia. Há a curiosidade de um público que cresceu sem saber o que era a filosofia (você sabe, essa coisa da ditadura ter retirado a disciplina do ensino médio fez um estrago grande). Acho que de certa maneira há um público cansado de auto-ajuda e de literatura de baixo nível. Sinto que tanto o Pequenas Catástrofes quanto o Simples Filosofia tocam esse público, porque de uma maneira ou de outra eles falam sobre filosofia de um modo literário.

Muitas das metáforas usadas no livro para melhor compreensão das teorias filosóficas se amparam na música. Ela consegue estreitar essa compreensão entre arte, filosofia e razão?
Cara, eu acho que a música é a forma superior de pensamento. Soa algo meio pitagórico isso, não é? Mas eu penso assim. Sinto que quando minha linguagem fraqueja, quando minhas palavras não conseguem alcançar a velocidade do meu pensamento (e isso me acomete vez em quando), a música me retira dessa zona nebulosa e me oferece um escape. Acho que quando o conceito topa, só a música salva. Falando dessa forma, arte, razão e filosofia se encontram facilmente no espírito da música.

O processo de elaboração dos textos parte de alumbramentos cotidianos ou de leituras filosóficas que despertam paralelos com atividades do dia-a-dia?
Alguns têm essa pegada da inspiração. Alguns surgem de situações bem pontuais, como por exemplo o que eu falo do suicídio do Correia (um amigo da UFRN). Ali tem algo de emoção e comoção, mas boa parte desses textos foram bem pensados. A Pop Filosofia (sessão dominical publicada em O Poti) deu trabalho de fazer porque eu tinha que pesquisar, estudar, pensar sobre um modo de falar, sobre o que dizer de cada filósofo e sobre como tratar um tema filosófico de uma maneira criativa. E o pior é que tinha que ser em sequência, porque tinha a linha cronológica que aparecia semanalmente. Sabe como é: tem um lance de folhetim nessa história. Foi foda velho; pior do que escrever um romance.

Como diz o filósofo Heráclito, “tudo flui”. Até quando Simples Filosofia permanecerá atual?
Sinceramente eu não tenho muito ideia da permanência dos meus textos. A filosofia dificilmente deixa de ser atual. Pense em Platão, escrevendo a República uns três séculos antes de cristo. Uma vez um aluno meu do curso de Direito perguntou se uma edição da República (de Platão) de 1990 estava desatualizada (livro de Direito é diferente, desatualiza todo ano). Eu disse: “tem erro não. velho. Pode comprar uma edição de III séculos antes de cristo no sebo que dá na mesma”. (risos).

Um livro que aborda a necessária filosofia de forma mais didática, afim de estimular o gosto para o tema, até que ponto difere de um livro de auto-ajuda?
A grande maioria dos textos de auto-ajuda são chupados de textos filosóficos clássicos, especialmente os que se preocuparam mais com a ética. Auto-ajuda é diluição filosófica, uma espécie de cópia pós-moderna das escolas de filosofia helenística. Até Ética a Nicômaco, por exemplo, se fosse escrito hoje seria encaixado em uma estante de auto ajuda, porque o que Aritóteles estava fazendo era um manual de eudiomonia (felicidade), um livro que ensinava como agir para ser feliz, quer coisa mais auto ajuda do que essa? A questão é que entre ler a cópia e o original é melhor ir ao original. Para quê ler essa diluição contemporanea se há os originais antigos, bem melhores. meu livro é de História da Filosofia, ou seja, eu falo sobre os originais, para que o público possa saber que tem coisa melhor do que Paulo Coelho e Dan Brown.

Houve algum cuidado minucioso nas colocações opinativas em cada crônica ou todo o conteúdo é fruto de estudos de teorias filosóficas?
Pensei um bocado, mas em filosofia não há consenso. Sabe, eu ando meio heideggeriano esses dias. Boa parte das minhas interpretações dos filósofos segue uma linha que tem a ver com a história da cultura contada por Heidegger. Por isso quem tem um conhecimento mais aprofundado em filosofia pode questionar muito das minhas interpretações, porque pode ler a história da filosofia a partir de outro enfoque ou pensar em um filósofo a partir de uma outra linha de interpretação. Isso é inevitável. Se eu me perturbase com isso não teria escrito as crônicas. Então eu escolhi a minha leitura e fui em frente.

Como de praxe, a filosofia bota o dedo onde poucos são chamados, como na religião. Em “O retorno da fé” você aborda o tema pelas ideias de Kierkegaard e diz que “ainda há lugar para a fé no século 19”. E hoje?
Hoje a fé é o grande ponto a ser discutido. Vivemos uma época muito semelhante ao século 17. Uma época de guerras de religião, de intolerância latente. Então a filosofia tem mais do que nunca essa tarefa: de pensar a fé.

Não como autor do livro ou cronista, mas como filósofo: qual a revolução possível aos dias de hoje?
Acho que Estou ficando careta. Hoje a revolução é o retorno.

* Entrevista publicada no Diário de Natal desta sexta-feira

– Foto roubada do site www.disruptores.com.br

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