ENTREVISTA: Rogério Pitomba “até o caroço!”

A essência musical do Rio Grande do Norte é o instrumental. Acho que supera o zambê, o côco de roda, o forró (for all) ou qualquer outro gênero. E não só pela tradição ou herança deixada por Tonheca Dantas, Felinto Lúcio, Urbano Medeiros, Waldemar de Almeida e um sem número de bandas e filarmônicas centenárias espalhadas pelo interior potiguar. Chegamos à contemporaneidade com uma das três mais conceituadas orquestras universitárias do Brasil. E, claro, ostentamos, como diz o rapaz aí abaixo, o metro quadrado mais qualificado de instrumentistas do mundo. Temos Tico da Costa e Manoca, de lembranças saudosas. Antônio de Pádua, Bethoven e o “monstro” Sergio Groove, para saudarmos o hoje. E entre os mais nem tão jovens assim, está no nível desses feras o já premiado baterista Rogério Pitomba.

De cá lembro saudoso uma viagem meio louca que fiz, a convite de um amigo fã da Boca de Sino, de acompanharmos um show da banda em Caicó! Nos hospedamos no mesmo hotel do grupo. Lembro de Paulão, guitarrista já experiente, e da cantora (já não era Carmem Pradella) – as duas peças principais da banda. Mas curioso era um “boy” na banda. Talvez ainda adolescente, Rogério Pitomba já dava conta do recado. Introspectivo, parecia ter a concentração necessária de um músico refinado. E o salto para um gênero mais sofisticado estava claro. E eis que agora o cara lança um DVD de tom jazzístico, nesta quinta, intitulado ‘Até o caroço’. Isso após participação em importantes festivais de música instrumental e premiações de prestígio. Pitomba é hoje dos bateristas mais requisitados e reconhecidos em um celeiro de bambas.

Confira mais nesse breve bate-papo:

Fale um pouco de seu começo enquanto baterista, ainda muito jovem, e a passagem por tantas bandas de diferentes gêneros musicais.
Rogério Pitomba – No inicio comecei tocando rock só por diversão, na banda Ravengar. Em seguida, na banda Boca de Sino, que tocava na noite frequentemente, e, sem perceber, a música já estava virando meu trabalho. Fui estudando e tentando me profissionalizar cada vez mais, investindo em cursos, equipamentos, e assim passei por diversas bandas de diferentes estilos, como: Officina, Sueldo Soares, Tricor, Jane Fonda, Valéria Oliveira. Em algumas ainda toco, a exemplo da Rosa de Pedra, com a Maira Sales, com Camila Masiso, entre outras. Fiz gravações com diversos artistas, participei de festivais pelo Brasil.

E qual seu trabalho atual? Vive só da música?
Hoje procuro focar mais no meu trabalho instrumental e em algumas bandas que faço parte. Vivo “só” de música porque já dá um trabalhão e toma todo o meu tempo, inclusive nos fins de semana, onde, em algumas profissões, é possível descansar (rsrsrs). Acredito que o músico profissional é como qualquer outro profissional: tem que estudar e dedicar o seu tempo integral pra crescer na carreira. E ainda temos que estar o tempo todo buscando inovar pra se manter atuante no mercado.

Esse novo trabalho traz uma mescla de influências musicais distintas. Qual o gênero que você mais se identifica?
A música brasileira é o que pulsa mais forte dentro de mim, mas sempre busco misturar com o jazz e outros estilos.

Você tem uma vivência de aproximados 20 anos de música. Qual comparação você pode fazer do início da carreira e de hoje, no tocante a espaços, incentivos e qualidade de bandas?
No início, em 1999, quando ainda era um hobby pra mim, parecia ser muito bom em relação a locais para tocar, cachês e público. Era o auge do Pop e do Rock. Parecia uma “mesada” boa demais pra um adolescente. Mas isso tem muita relação com o cenário musical do momento. Alguns estilos acabam se destacando mais do que outros. Hoje, parece ser um pouco mais difícil, pois optei por seguir um caminho mais específico, principalmente focado no meu trabalho. Mas, apesar de poucas opções para o estilo da minha música vemos importantes festivais aqui no Estado, como o Fest Bossa Jazz e o Festival DoSol, que têm dado um imenso apoio às bandas de diversos estilos e principalmente à música instrumental. Em relação à qualidade das bandas, como em toda profissão, em todos os momentos existiram e existirão as “marromenos” e as de excelente qualidade.

Acredito no instrumental como gênero musical mais tradicional do Rio Grande do Norte. Temos instrumentistas notáveis. Qual sua opinião a respeito?
Já estive em diversas cidades do país e em algumas do mundo e o local onde vi mais músicos bons por metro quadrado foi aqui no Rio Grande do Norte. O instrumental é fortíssimo entre os músicos, mas ainda não muito procurado pelo público em geral. Existem alguns poucos bares que incentivam esse estilo, como o Benditas Boteco, mas a maioria ainda opta por outros estilos mais populares.

Curiosidade: assistiu ao filme Wiplash? Se enxergou em algum momento do filme?
Assisti. Excelente! Me vi em vários momentos. Mas o momento que mais me marcou e me identifiquei foi principalmente em relação à superação e à persistência. Se você acreditar e até mesmo nos momentos em que você desacreditar, você não desistir, os resultados positivos virão de qualquer forma.

Sobre o DVD. Muitos músicos e artistas dependem da verba das leis de incentivo e fundos de cultura para produzir seus trabalhos. Você optou pela produção independente. Por quê?
Mais pela questão burocrática mesmo. Não sou muito bom na parte de produção para projetos (rsrsrs). Então acabei fazendo algumas permutas por horas de estúdio, consegui alguns patrocínios como o da Mariz Comunicação Integrada, que fez toda a parte gráfica do CD e DVD e prensagem, e ainda com o apoio dos músicos que gravaram comigo, e me apertando daqui e dali foi dando tudo certo! A produção, também amiga, está correndo atrás junto comigo e estamos conseguindo muitos apoios e apoiadores (rsrsrs).

O que pode falar sobre o esse novo trabalho? Como se deu a seleção do repertório? Há um conceito?
Esse novo trabalho está mais “jazzístico”, por isso optei por uma formação de banda base com bateria, piano e baixo acústico. Com essa formação posso trabalhar um repertório de jazz, mas sem perder a essência da música brasileira, elaborando mais dinâmicas nas músicas, dando a elas uma roupagem totalmente diferente e mais charmosa.

Será realizado algum show de lançamento? Já tem algo definido quanto a participações, local e data?
O próximo show será na Escola de Música da UFRN, nesta quinta-feira (26), às 20h, e terei como banda base no baixo acústico Daniel Ribeiro, no piano Emerson de Oliveira. E como participação especialíssima terei Paulo César Vitor (piano) e Jow Ferreira (guitarra). Na produção, a Vanessa Oliveira, raçuda, me ajudando demais.

Batuka Brasil 2013, considerado o maior concurso de bateria do mundo – vencedor como Melhor Instrumentista

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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