[ENTREVISTA] Rozeane Oliveira e a arte da dança durante o isolamento

Uma das principais bailarinas de Natal, Rozeane Oliveira apresenta o espetáculo solo “(Eu) Fêmea”, nesta sexta-feira (22), às 19h, nas redes do Coletivo CIDA–Coletivo Independente Dependente de Artistas (Youtube, Instagram e Facebook).  

Nesta breve entrevista, ela fala sobre os espetáculos (Eu) Fêmea e Vermelho Fendado, sobre como é compor dentro de casa, sua preparação física e o que o isolamento despertou na percepção de si própria enquanto mulher. “Qual a mulher que há em você?, essa pergunta é latente em mim”.

O espetáculo “(Eu) Fêmea” é de 2016. O que mudou desde então? Me refiro a gestos, movimentos, a coreografia em si. Ela mudou nesses quatro anos? Algo observado em suas vivências foi inserido ou retirado do projeto inicial?

O espetáculo surge no final de 2016, durante uma transição minha, a saída de uma companhia de dança que eu fazia parte há oito anos, e o início do coletivo CIDA juntamente com o René Loui. De lá pra cá, eu venho organizando a estrutura do espetáculo. Então, sim, ele está em transição, mudanças, porque querendo ou não meu processo hoje é totalmente diferente de quatro anos atrás e eu trabalho com autobiografia, então eu trago todas as minhas questões, aflições, angústias, a forma como as pessoas tentavam me encaixar, me colocar em caixinhas e a forma como eu mesma, através da minha arte, do palco e da dança, consegui potencializar o meu ser feminino, enquanto essência, enquanto força. O (Eu) Fêmea trouxe muito claro a potência do meu eu, de qual mulher existia dentro de mim. E essa é uma das perguntas que permeiam a parte da criação, a parte da pesquisa: ‘Qual a mulher que há em você?’. Essa pergunta é latente em mim frequentemente. Eu me pergunto, durante essa pandemia, início de 2021, qual é a mulher que existe em mim? Eu estou em processo de remontagem, sim, do (Eu) Fêmea. Amanhã (22) será o espetáculo fiel, coreograficamente, gestualmente, ao desenho do espetáculo que estreou em 2016, mas pra dentro de minha realidade hoje, em tempos pandêmicos e de isolamento social.

Como é seu processo de pensar e compor uma coreografia, no que se refere aos dois ‘espaços’ artísticos de seus últimos trabalhos: o palco e sua casa? O que cada um dos cenários muda em sua dança?

Montar espetáculos em sala de aula [a casa] é meu ambiente de conforto, é meu escritório. A partir do momento em que eu adentro a sala de aula para trabalhar meu corpo, uma cena, composição, pesquisa, ali é meu ambiente comum de trabalho. E dentro da pandemia eu me vi muito engessada. Acredito que não só eu, mas passei por um processo muito reflexivo, de pensar o que era antes, o que é agora, o que vai vir depois, como vai ser. Isso foi me deixando muito paralisada em casa. Quando eu percebi, eu já estava há sete meses praticamente sem produzir. Até vir o insight de fazer o Vermelho Fendado. Comecei a pensar em todas as minhas fendas, vendo tantas pessoas indo embora, em processo de isolamento. Começaram a abrir fendas que eu nem lembrava que existiam ainda. Desde a infância, vieram memórias muito fortes. Então, em uma sala surgiu a ideia de fazer um solo de 8min, em que eu filmei justamente para um edital da Funarte. Deu certo e ele está aí no mundo. É outro trabalho que vou fazer um processo de investigação mais profundo, para desses oito minutos acontecer um espetáculo de 40min. O processo é totalmente diferente, porque você acorda na sua casa, tem lugares que você nem reconhece na sua casa. E a partir do processo de pesquisa dentro da casa comecei e reconhecer lugares que eu não percebia que estavam ali e de que forma a casa termina sendo uma extensão de mim.

Vendo “Vermelho Fendado”, e qualquer coreografia sua, a plasticidade dos movimentos vem de muita precisão, muito domínio do corpo, item básico da dança. Como você se prepara? Faz exercícios auxiliares, dietas, seções de alongamento ou apenas a prática da dança já lhe abastece de força e flexibilidade?

Meu processo de preparação corporal é muito tranquilo. Não faço nada que me tire o sossego. ‘Ah, você tem que fazer dieta’. Não, eu me permito mesmo, faço exercícios. Quando posso vou à academia, mas agora tenho feito no meu quarto. Os dias que não quero fazer, eu tô tranquila. Nessa pandemia já é tanta coisa pra gente ficar bitolada com ‘Ah, eu preciso disso, daquilo’. Não, preciso não. Eu preciso curtir esse tempo, estar com os meus, estar o mais confortável possível dentro desse processo, senão a gente pira, né? Como o que acho essencial pro meu corpo, descarto muita coisa. Adoro tomar minha cerveja. Corro, às vezes, pela manhã. Faço muito exercício de respiração, que eu acho importantíssimo. Alongamentos também. E é isso, vou descobrindo o corpo durante esses processos, mas nada de tão elaborado.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo