[ENTREVISTA] Thiago Medeiros e nossa postulação da realidade

Nunca se postulou tanto a realidade, como nos últimos dez meses. Isolados, amedrontados e mal pagos, nossa vida na pandemia virou uma eterna busca por referências. Perdemos a impressão do primeiro contato, para vivermos de previsões. Uma doutrinação do esquecimento se fez necessária, sob risco de pirarmos definitivamente. Digo isso com a desconfiança de que um dos antídotos para estancar nossa sangria psíquica cabe em uma analogia com o momento.

Pois a literatura nos oferece mais dúvidas e perplexidades, do que certezas. Nos empurra aos primeiros gestos de um fato, não a uma resolução final travestida de frases fortes, algo possível de ser elaborado por quem domina o básico da língua portuguesa. Um poema, um conto, um romance, representa a vida em toda sua incoerência e contradições. Mas é um corpo preguiçoso, sempre à sua espera para entrar em movimento.  

Neste domingo de sol tímido, Thiago Medeiros lança seu quarto livro de poemas em uma live (15h) em seu perfil no Instagram (com a participação da ótima cantora norte-americana, Haley Peltz). O título, “Quanto mar cabe no sal da lágrima”, é o agora: em meio a tanto choro, até onde as águas desse mundão chamado Arte podem nos levar? A ardência sentida nos poemas de Thiago também carrega multicores, uma paixão pelo tema que manda no escritor e provoca o leitor. Pedras soltas no chão (ou na cabeça dos infames) em direção ao desconhecido.

Nesta entrevista, foram nove perguntas, que poderiam triplicar, caso estivéssemos em uma mesa de bar. Thiago fala do livro, de como cria um poema, do trabalho com arte no Estado e, claro, das dores e vivências pandêmicas.

“Quanto mar cabe no sal da lágrima” tem direção de arte de Rita Machado, revisão de Eliziane Ataliba, arte de capa e designer da Creeaty, textos de Daniela Galdino, Jean Sartief e Luiz Renato Almeida.
Thiago, fenômeno mundial esse de gente boa aproveitar o isolamento para fazer arte, com desengavetadas de projetos ou desenvolvimento de novos. Seu novo livro surgiu do zero, totalmente influenciado pela pandemia, ou você já programava lançar algo este ano?

Quanto mar cabe no sal da lágrima nasceu durante o período da pandemia. Eu estava trabalhando ainda com o Ardência, que publicamos em julho, mas tinha alguns poemas que não entraram e vi alguns fios dramatúrgicos possíveis neles, além da urgência do tempo em que estamos vivendo. Aí as dores vão aumentando, as palavras e as lágrimas saindo. Conversei com Rita, Airton e Renato, que me acompanham desde o meio-dia, e chegamos a conclusão de que estava publicável, no mesmo momento surgiu a possibilidade do edital emergencial Aldir Blanc pela prefeitura do Natal e Funcarte, as coisas estavam fluindo e eis aqui mais um trabalho.

Penso que, quem escreve, acima de tudo, deve ser um bom leitor. O que você tem lido? Você organiza suas leituras, adota algum método, reserva tempo pra ler autor conterrâneo, contemporâneo, clássicos, gringos obscuros?

Eu leio tudo. De bula de remédio a romance. Durante quase um ano de distanciamento e pandemia, recebi muitos livros e zines de autores e autoras de todo o país que conheci em lives e outros encontros virtuais. Meu método de leitura é fluido e caótico, sempre estou lendo vários livros ao mesmo tempo começo pelo meio, pelo fim, até chegar na primeira linha do livro. Terminei alguns livros que estavam na metade: O quarto de Giovani de Baldwin; Grande Sertão: Veredas de Guimarães; Pólogo, ato, epílogo de Fernanda Montenegro. Estou lendo: Por cima do mar, de Debora Dornellas; Tente entender o que tento dizer com organização, de Ramon Nunes Mello; Vermelho fogo, de Regina Azevedo; Stela e outros poemas de amor, de Marina Rabelo; A dança da asa esquerda, de Canniggia Carvalho; Cidade finada, de Thiago Medeiros; Cabidela, de João Ernesto e ansioso por todos os títulos que ainda vão sair por esses meses. Claro, continuo lendo minhas bulas de remédios e encartes de supermercados.

“Quanto mar cabe no sal da lágrima” é seu quarto livro. Qual a mudança mais perceptível em sua poesia, desde o primeiro livro?

Confesso que ainda não consegui fazer essa avaliação. O que posso dizer é que o Thiago de hoje não é o mesmo de 5 anos atrás. Passado o retorno de Saturno, agora o processo tem sido de organização do que restou. Quanto mar é um livro mais sóbrio do que os outros trabalhos, é mais direto. As dores das narrativas mudaram e são mais reais do que os amores perdidos do Ardência. É uma busca por esperança e por cura para nossas saudades e dores tão latentes neste período.

Como surge um poema seu: de um verso, uma frase que salta no juízo, ou um tema que você está vidrado e começa e escrever em cima?

Mente de ariano não descansa. A todo o momento estou pensando alguma coisa, estou lembrando de uma fala de alguém, da novela, ando com mais de um caderno na bolsa e estou sempre distraído para estar atento à cidade e a diversidade que nela habita. Gosto de passear pelo Alecrim e pelo Centro como um errante e me deparar com a surpresa do poema. O título desse novo trabalho surgiu assim, de salto como alguns dos poemas. Eu releio muitas vezes, envio para pessoas em quem confio até ele piorar ou melhorar e ir pro mundo. O poema me faz acreditar no mundo, no amor é a possibilidade de não sucumbir. Escrevo todos os dias, uma frase que seja, para não me esquecer de lembrar.

Muito autor despreza parte do próprio trabalho, seja por ter lançado algo no começo da vida adulta, ainda imaturo, ou textos endereçados a alguém, com posterior arrependimento. Você se arrepende de algo que publicou?

Eu me arrependo mais das coisas que não faço. Acredito que todos os trabalhos que já realizei durante esses quase 15 anos, seja com teatro ou com literatura, me transformaram em um ser humano melhor e com questões mais densas, todos eles disseram muito daquele Thiago naquele momento, são legítimos, geralmente doloridos, já que escolhi a dor física e emocional como motes principais da minha pesquisa. Todos os amores e amigos, os reais e os que eu inventei, a quem enderecei poemas e textos foram bem sentidos e vividos e falar sobre o amor e suas dramaturgias é, de alguma maneira, uma possibilidade de comunicação universal.

Até outro dia, a poesia era o ‘patinho feio’ das editoras, gênero difícil de emplacar boas vendas. Até que começou o movimento de publicar poesia nas redes, como o que vemos no Instagram. Por ser um formato mais curto, suscinto, pronto pra consumo ali no celular, um poema, penso eu, é bem agradável nesse formato. Comente a respeito.

Eu acho que é uma força contrária ao que vem acontecendo no país com fechamento de editoras e bibliotecas, escassez de público leitor. Passa também, acredito, que por questões de autoestima a pessoa está ali sendo lida, compartilhada, isso vai injetando força para que a pessoa continue, além da inserção num mega mercado que se abre e está rentável. Existem ideias geniais unindo designer, poema e empreendedorismo. Acho que quem se dedica a ser instapoeta e instapoeto tem uma visão profunda do marquetinguelê nas redes sociais e, me parece, que tem dado certo. Nunca vi tantos poemas ganhando outros suportes em paredes, muros, vitrines. Acho que isso é reinvenção!

Li um ou outro comentário sobre o excesso de lançamentos literários via Lei Aldir Blanc. Como consumir tudo? Como podemos comprar tantos livros que achamos relevantes e também de amigos ou pessoas que simpatizamos e queremos ajudar na carreira literária, sobretudo em plena crise econômica?

Eu entendo a reclamação, mas estou do lado dos meus companheiros de classe trabalhadora. Vamos pensar junto: desde março de 2020 trabalhadores autônomos da classe artística, assim como eu, estavam sem possibilidade de renda, já que nossos projetos continuados não poderiam acontecer ao vivo. Sem saber como iria pagar a conta do aluguel, da energia, da água, da internet (para estar conectado precisamos dela), escolhendo se almoçava ou jantava.Foram oito meses de angústia e de reinvenção. Fomos para as lives, realizamos sorteios, quase imploramos com postagens semanais que alguém comprasse um livro por 30,00 ou um zine por 10,00. Em novembro de 2020, depois de mobilização de trabalhadores e trabalhadoras de todo o país, a lei emergencial Aldir Blanc foi executada para trazer um pouco de respiro às emergências desses trabalhadores. Possivelmente, esses recursos não são suficientes para sanar essas dívidas acumuladas durante oito meses. Os valores investidos através dos editais não são apenas para pagar um salário mínimo a um trabalhador, eles não ficam integral com os proponentes dos projetos. Todos os equipamentos, equipe, impressão, assessoria de imprensa, impostos (muitos deles retidos na fonte) são pagos com esses valores. Houve investimento para realizar as obras, mas não foram suficientes para nos manter até abril de 2021, com as restritas possibilidades de circulação das obras presenciais, em feiras, calçadas, encontros… A vida de um trabalhador é feita de urgências, os boletos não param, as demandas também não. “Quanto mar” é o primeiro trabalho realizado com recurso público. Gostaria de oferecê-lo por valores mais simbólicos do que 40,00, que inclui: taxa de quase 10,00 dos correios, 0,50 de cada envelope, 2,00 de cada impressão de um cartão postal. Além disso, há um significativo aumento das matérias primas para confecção dos livros, quase 13%. Eu entendo que todo trabalhador vai fazendo seus cálculos, vai tirando leite de pedra pra ter dignidade. Nós também fazemos isso, nós que precisamos vender cinco livros para conseguir pagar uma conta de energia, de internet ou uma feira quinzenal, o que escolher como prioridade? Nós não consumimos nem a metade do que é feito no RN. Posso citar, pelo menos, uma dúzia de autores e autoras que conheço e que tem mais de 100 livros encalhados na estante desde seus lançamentos, anos antes da pandemia. A todo o momento nos querem interessantes e criativos, a todo momento dizem que a arte salva…O que posso dizer pelas publicações do selo Insurgências Poéticas é que estamos abertos a todo o momento para propostas de investimentos. Quanto você quer pagar pela poesia?

Quais momentos tristes e felizes, durante a pandemia, instigaram poemas do novo livro?

A morte de um primo por complicações em decorrência da Covid, as cenas dos primeiros meses da pandemia em Manaus, o tempo sem abraços, esses momentos me impactaram de uma maneira dolorida que somente a palavra para segurar. Eu não sei se posso falar de momentos felizes em meio a este caos que o Brasil e o mundo se encontram, mas acredito que sentir que não estou sozinho, que há muita solidariedade e generosidade na bolha que me cerca é uma pequena alegria. Se me permite usar o espaço, gostaria de agradecer publicamente a minha família de sangue e de amigos que me ajudaram a segurar a barra que estão sendo esses meses, seja mandando uma mensagem, ligando buscando novas maneiras de abraçar, participando das rifas, comprando os livros, trazendo alimento e esperança para seguir. Isso me ajudou a não sucumbir, muito agradecido!

Usando a categorização dos principais prêmios literários (até 40 e acima de 40 anos), você é um jovem poeta, digamos assim. E dos bons. Você percebe diferença entre a jovem e a ‘velha’ guarda quanto a formas, temas e vigor na escrita?

Não gosto de categorizar pessoas, sobretudo, colegas de trabalho. Acredito que há um problema maior que diz respeito a trabalhadores e trabalhadoras jovens e velhos: a porcentagem alarmante do público que não se considera leitor no RN, a quantidade de bibliotecas públicas abertas na cidade do Natal, essas são questões de política pública que poderíamos participar e buscar possibilidades horizontais para que a literatura brasileira produzida no RN chegue a mais e mais públicos, não só nesses formatos que já conhecemos, mas na intenção de construir juntas um espaço mais humano. Eu que comecei a trabalhar com arte a partir de um projeto social da Casa da Ribeira, acredito na potência da arte como transformação humana. Acredito que há uma outra questão que diz respeito a todas as poetas e poetos de todas as idades, desconstruir a máxima de que “em Natal, um paga 200 para que um outro não ganhe 20”. Acho que essas inquietações podem trazer vigor a poetas e poetos jovens, velhos, cânones.

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