Entrincheirados no balcão

Por Joca Reiners Terron
BLOG DA COMPANHIA

1.

Em 1972, depois de assaltar a casa onde hoje fica a Livraria da Vila, o ladrão anarquista Guido Amleto Meneghetti subiu a Fradique Coutinho com guardas no seu encalço. Esbaforido, dobrou à direita na Rodésia e resolveu entrar no boteco de seu Albino.

Meneghetti tinha 92 anos.

Foi a última vez que bebeu em liberdade.

2.
A família Benuthe comprou o bar do seu Albino no ano seguinte, em 1973, e a Mercearia São Pedro (instalada na rua Rodésia desde 1968) começou também a vender molhados, além de secos.

3.
Me ocorre agora que ao morrer em Madri em novembro de 1936, Buonaventura Durruti tinha apenas a muda de roupa, um par de binóculos, duas pistolas, os óculos escuros e uma sede danada.

4.
A primeira vez que arremessaram um legume em Betina foi também a primeira em que ela foi à Mercearia São Pedro. Depois de atravessar a rua e se sentar numa cadeira na calçada, uma abobrinha caiu em seu colo.

5.
Pombinho foi o primeiro a ver o fantasma de Meneghetti diante da Mercearia, num final de tarde de 1976. O anarquista estava em pé, encostado no poste, e ainda tomava sua taça de vinho tinto. Pombinho latiu, pois aquele era o poste onde costumava mijar.

6.
Pombinho era o cachorro do Larilarai, o bêbado mais folclórico da Vila Madalena. Os dois morreram de tanta cachaça: Pombinho de cirrose, Larilarai não se sabe ao certo — numa noite de 1982, depois de sentar no “banquinho do Meneghetti”, ele desapareceu.

7.
Enquanto via seu corpo ser jogado numa vala comum pelos camisas negras de Mussolini, Enrico Malatesta pensava que uma cerveja viria a calhar, “Afinal não há melhor lugar para se entrincheirar do que um balcão”. Os fascistas não desejavam ver o túmulo de Malatesta transformado num símbolo anarquista.

8.
Há trinta anos, todos os dias, seu Sorrentino bebe um conhaque, porém nos anos bissextos pede duas taças. Uma taça é para ele mesmo, a outra coloca diante de si, do outro lado da mesa. Nessas ocasiões seu Sorrentino conversa longamente em italiano, mas nenhum garçom ousa perguntar com quem.

9.
Depois de trabalhar no Cineclube Oscarito, Marquinhos Benuthe iniciou em 1985 a projeção de curtas-metragens na Mercearia. O primeiro filme foi Dov’e Meneghetti, de Beto Brant.

10.
Às 23h30 de uma noite de 1998, Betina achou um pimentão amarelo dentro de sua bolsa.

11.
O cantor australiano Nick Cave mudou-se para São Paulo em 1990. Depois de alguns dias perdido pela cidade, foi parar na Mercearia São Pedro. Lá, ele começou a bater cartão todos os dias. Os clientes achavam que ele era um sósia e se espantavam com sua semelhança com um certo cantor de rock australiano.

12.
O culpado pelo França ter começado a trabalhar na Mercearia em 1992 foi o Magrão. O França continua por lá, porém o Magrão deve estar queimando no inferno para onde vão os garçons quando cometem atos imperdoáveis.

13.
França viu o fantasma de Meneghetti no final de uma noite fria de 1993. Nem ligou, pois não acreditava em fantasmas. O fantasma também não lhe deu crédito, já que não acreditava em pigmeus.

14.
Depois de um pico de heroína batizada e dez doses de uísque, Nick Cave ficou horas na locadora de vídeo nos fundos da Mercearia procurando um filme, ele próprio não sabia qual. Foi quando o fantasma de Meneghetti apareceu e lhe sugeriu qualquer coisa dos Irmãos Marx.

15.
Diz uma lenda da Mercearia São Pedro que se o cliente sentar-se no “banquinho do Meneghetti” aquela será sua última bebida.

16.
Ao atravessar a Rodésia em direção à Mercearia numa noite de 2001, Betina recebeu do carro que passava uma berinjela siamesa que lhe foi arremessada. Ela ficou feliz por não ter sido uma jaca.

17.
Andando pela Broadway em 2002, Nick Cave viu uma foto de Buonaventura Durruti na vitrine da livraria Shakespeare & Co. Ao lado do anarquista espanhol estavam dois homens que Cave teve a nítida impressão de conhecer. Um deles era o fantasma que vira anos atrás, na Mercearia. O outro parecia o seu Sorrentino, um velho cliente do bar, mas como poderia ser?

18.
Em torno das 11h da manhã de sábado, 21 de setembro de 2003, a cozinheira afoita chamou Pedro Benuthe até a cozinha. De dentro do caldeirão da feijoada ela retirou com a colher de pau um colar de ouro e pedras preciosas. Na parte de trás da maior gema havia um entalhe de brasão familiar. Depois de consultado um especialista, descobriu-se que a joia havia sido roubada por Meneghetti da mansão Matarazzo em 1936.

19.
Toda vez que vem a São Paulo participar da Mostra de Cinema, o cineasta alemão Peter Sempel faz questão de cumprimentar os amigos na Mercearia São Pedro. Ele fica horas lá sentado, tomando cerveja, mas às vezes desaparece entre as estantes da locadora de vídeo. Marquinhos diz que Sempel aproveita para fazer uma consultoria com Meneghetti. É só verificar nos créditos de seu filme mais conhecido, Punk + Glory — argumento: Guido Amleto Meneghetti.

20.
No começo de 2004, depois de beber uma cerveja sentado no “banquinho do Meneghetti”, Bijóia foi para casa, porém antes resolveu tomar a saideira num boteco da rua Harmonia. Enquanto bebia começou a chover, e Bijóia entornou mais cinco “saideiras”, aguardando o pé-d‘água passar. Quando enfim resolveu ir embora, tropeçou na calçada, bateu a cabeça no meio-fio e se afogou na enxurrada.

21.
A confusão se estabelece todas as noites entre os garçons da Mercearia São Pedro. Nessas ocasiões em que França briga com Neto por causa das comandas e Dario alisa os bigodes, procure não prestar atenção apenas na anarquia promovida por eles. Você poderá ouvir uma gargalhada com nítido sotaque italiano vinda bem lá do fundo do bar.

[Conto em homenagem à Mercearia São Pedro, meu bar predileto de toda vida, publicado originalmente em Uma antologia bêbada (2004), volume que reunia textos de 17 escritores habituês.]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua e Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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