Envelhecer: Um ato cultural

Um dos mistérios humanos mais inquietantes, sem dúvida, é o envelhecimento. A ciência tem obtido êxitos na questão da longevidade, com suas técnicas cirúrgicas e práticas medicamentosas. Com isso, a sociedade brasileira está envelhecendo a passos largos e não estamos sabendo lidar com essa boa nova.

A universidade e a sociedade brasileira precisa urgentemente cuidar de seus professores e funcionários com idades mais avançadas. Precisa pensar em políticas públicas de inclusão desse enorme segmento da sociedade. O professor quando envelhece tem muito que ensinar e esse enorme legado há que ser potencializado em prol da universidade e da sociedade que o professor ajudou a construir.

A obra do professor deve continuar viva para além do tempo regulamentar da profissão. O velho professor deve ser estimulado a escrever suas memórias, que é uma forma de continuar vivendo e refletindo sobre a realidade de um país que carece de sabedoria e de pessoas éticas. Só na realização somos fortes.

O professor após um período de 30-40 anos ensinando e pesquisando acumula muito saber, livros e documentos. Esse material precisa ser aproveitado pela universidade. Na biblioteca particular, está parte da biografia do professor e, este material, muitas vezes, é menosprezado e jogado às traças.

Bibliotecas são vendidas e estraçalhadas quando deviam ficar na academia. Grandes universidades americanas e européias mantêm bibliotecas de alguns de seus grandes professores. Na UFRN, isso precisa ser visto com mais carinho e zelo. Temos uma sala com o acervo da poetisa Zila Mamede, mas muito mal cuidado e em ambiente inadequado, sem climatização e ventilação. A biblioteca precisa ser ampliada e os livros melhores acondicionados. Mesmo com o avanço da Internet, o livro continua imprescindível. Esse exemplo e a maneira como o livro é tratado nas bibliotecas em geral, desencoraja qualquer professor a doar o seu acervo. O programa Memória Viva, da Televisão Universitária, é uma grande iniciativa, mas é muito pouco do que o professor pode deixar de conhecimento e experiência.

É necessário criar um acervo documental, oral e histórico dos seus professores e funcionários. No outono da vida, o professor precisa continuar cúmplice de uma história que ajudou a criar. Exercitar a mente, o corpo e espírito é envelhecer com sabedoria. O idoso não pode ser mais penalizado do que aquilo que o tempo se encarrega de fazer. Ganha-se menos e se gasta mais nessa fase da vida.

Algumas conquistas que constam na carta magna são muito importantes para garantir um direito que é personalíssimo e, portanto, dever social inexpugnável, diz o artigo 8º do Estatuto do Idoso. A lei também assegura prioridade na tramitação de processos jurídicos dos idosos.

Que esses direitos sejam auferidos urgentemente a quem os têm de direito e não pode mais esperar. Ao mestre sempre com carinho. “Me dê as flores em vida”, diz o samba de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Envelhecer é um ato cultural que a universidade e a sociedade têm obrigação de ensinar e zelar.

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