Geral

Ernesto Sabato, um resistente

Por José Castello
O GLOBO

Ernesto Sabato foi, antes de tudo, um resistente. Não é um exagero dizer que foi um herói, embora o heroísmo, com suas pompas e comendas, não lhe caia bem. Foi, talvez, um herói discreto, sem grandes ilusões a respeito da luta da qual, no entanto, nunca desistiu. Sabato foi um libertário. Sua literatura, sempre em alerta contra as armadilhas do racionalismo e do dogma, é uma prova viva disso.

Sua morte, à beira dos 100 anos, ilustra o modo como carregou a resistência no próprio corpo. Como transformou o corpo, mesmo quando já débil e decaído, em um escudo. Aferrou-se à vida apesar de tantas adversidades, e insistiu em viver, em atravessar todo um século, mesmo quando viver lhe parecia triste, ou absurdo. Caminhou com firmeza até a última muralha, sempre sabendo que ela bloquearia seu caminho, mas fazendo desse destino fatal sua razão de viver.

Sabato fez da literatura um instrumento de luta contra a brutalidade do real. Lutou, ainda, contra os literatos sabichões, que emprestam à literatura uma arrogância que ela não só não tem, como a desmente. Doutor em Física, duvidou com ênfase da neutralidade da ciência, apontando seu caráter subjetivo, precário e, mais ainda, ficcional. Comunista de formação, militou por longos anos na política, mas nunca permitiu que o engajamento se convertesse em congelamento.

Sua ficção, em particular o fabuloso “O túnel”, de 1948, guarda vestígios fortes de sua formação em física. Ela mostra um mundo que se desdobra em planos paralelos e em resultados imprevisíveis, que se afunila em túneis no qual o tempo e o espaço se contorcem e se anulam, e que, apesar de todos os esforços humanos, está sempre a nos escapar. Um mundo no qual a ficção não é uma fuga, mas, ao contrário, um fundamento. Sabato sempre afirmou que somos feitos de sonhos — não de ilusões tolas, descoladas do real, mas de ficções ardentes, que a ele nos grudam.

Talvez não seja um acaso que, entre os grandes nomes da literatura argentina do século XX — Borges, Cortázar, Arlt — ele tenha sido o último a morrer. Sua morte é uma metáfora, dolorosa, de sua obstinação em se manter livre das regras que amordaçam o humano, entre elas nossa própria finitude. Sempre me impressionou sua solidão intelectual, que ele sustentava não como um peso (embora certamente lhe doesse), mas como um ato de resistência. Sim, para Sabato a literatura não era um ofício, mas um ato. Era uma maneira de ser.

Pena que, entre os grandes escritores argentinos, Sabato fique sempre um pouco esquecido. A verdade é que sua ficção incomoda e, mais ainda, transtorna. Ela não celebra valores ou ideais, mas a miséria do existir. Não defende teses, bons pensamentos, ou estéticas requintadas, mas se coloca em posição de sentido contra a animalidade que nos ronda. Não é uma ficção que consola: ao contrário, agita o espírito e nos obriga a pensar. Mais ainda: nos obriga aceitar que, no fim, há sempre uma última muralha que veda nosso caminho.

Sabato foi não só um grande escritor, mas um escritor grande, desses que não se submetem às adulações e que não arrastam o pé do que são. Via a literatura não como um ofício exercido por homens cultos, ou um anestésico destinado aos medrosos, mas como um grito. A luta precária, mas bela, de um homem que não se deixava pisar, mesmo sabendo que, um dia, a morte o esmagaria.

JOSÉ CASTELLO é crítico e colunista do Prosa & Verso

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Tácito Costa

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