Erotismo, ditadura e jornalismo em novo livro de Mario Vargas Llosa

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Aos 80 anos, Vargas Llosa aborda paixão entre duas mulheres em um país conturbado, o Peru dos anos 1980, cujo regime de Alberto Fujimori enfrentou o grupo terrorista Sendero Luminoso com armas ‘químicas’, como o jornalismo amarelo, assassinatos e corrupção endêmica

São 22h de um dia normal e duas amigas tão belas quanto ricas estão sozinhas em casa.

Uma visita ocasional, regada a vinhos e bom papo, as fizeram perder a noção do tempo.

O cenário é Lima, capital do Peru, sob a ditadura de Alberto Fujimori e de Vladimiro Montesinos, o doutor, ministro maquiavélico e idealista de toda a propaganda, censura e tortura do governo, além de chefe de fato do Serviço de Inteligência Nacional do Peru.

Às 22h de todos os dias que durou aquele governo eleito democraticamente e que virou uma ditadura em um autogolpe de estado, havia o toque de recolher, devido a ameaça “terrorista dos inimigos” do Peru.

Marisa e Chabela são as mulheres de dois milionários peruanos. Sem remédio, Chabela tem que dormir na casa de Marisa. Só há uma cama…

Durante o sono, no inverno limenho, duas pernas se tocam, se cruzam, ligam o calor de ambas. As respirações estão ofegantes, há medo, tesão e ansiedade. Uma mão, um toque, um risco. Alguém o assume.

Se beijam, viram amantes.

É assim que começa o novo romance do Nobel Mario Vargas Llosa, Cinco Esquinas, título em homenagem ao icônico bairro de Lima, outrora aristocrático e atualmente pobre e violento.

O erotismo da obra de Vargas Llosa é semelhante ao de Flaubert em Madame Bovary, passa dos personagens às páginas e, destas, ao leitor.

Cinco Esquinas pode ser um culto ao erotismo, mas não deixa de lado a característica fundamental do Nobel de 2010: comprometimento.

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Lançado em março na Europa, América do Norte e nos países de língua hispânica, livro chega ao Brasil em agosto, via editora Alfaguara

Llosa retrata o Peru dos anos 1990, e das incertezas política e social que vive seu país, além das incertezas que começará a viver o Jornalismo.

O ponto chave do romance está na encruzilhada entre erotismo, política, sociedade e as duas faces do jornalismo – o mau e o bom jornalismo dentro do mesmo jornal, com os mesmos atores como executores.

O Jornalismo a favor  e contra o poder. Sendo guardião, logo um contrapoder. Mas tendo no governo ditatorial seu principal financiador e fonte, e se revoltando contra ele quando necessário.

“Se há um tema que permeia, que impregna toda a história, é o jornalismo, o jornalismo amarelo. A ditadura de Fujimori utilizou o jornalismo de escândalo como uma arma política para desprestigiar e aniquilar moralmente a todos os seus adversários. Ao mesmo tempo, também está a outra face, como o jornalismo, que pode ser algo vil e sujo, pode converter-se rapidamente em um instrumento de liberação, de defesa moral e cívica de uma sociedade. Essas duas faces do jornalismo são um dos temas centrais de Cinco esquinas”, afirma Vargas Llosa na contracapa do livro que estreará no Brasil em agosto.

Essa parte da história me recorda uma frase de Albert Camus: “Uma imprensa livre pode ser boa ou má, mas sem liberdade, a imprensa nunca será outra coisa que má”.

A história toma sua forma já no capítulo II, quando um jornalista sensacionalista chantageia Enrique Cárdenas, advogado bem-sucedido e esposo da linda Marisa, apresentada mais acima.

O jornalismo, se é que podemos chama-lo assim, mostra sua cara mais perversa: ameaça, chantagem, ‘amarelismo’, exposição, ego… A ditadura de Fujimori foi mestre nessa estratégia contra seus inimigos. O erro do dito jornalista foi acreditar que Cárdenas era inimigo do governo.

E ele não era.

O poder se revela como em qualquer lugar. Nesse momento, sem revelar spoilers, o livro vira um thriller de investigação policial e jornalística, passando para intriga, a traição, o medo e o obscurantismo que vive toda ditadura, além da demonstração de quem tem mais poder.

Em Boa noite, e boa sorte (2005), filme dirigido por George Cloney, que retrata o McCartismo e a caça aos comunistas nos EUA na década de 1950, tem uma frase dita pelo ícone Edward R. Murrow: “Um senador não pode vencer um jornalista”.

Cinco esquinas ganha forma com a evolução dos capítulos, ao mudar cenários e personagens que, ao longo do livro, o leitor se dá conta da interligação de todos pelo mau jornalismo praticado pela revista Destapes e o temor que ela causa com seus escândalos de folhetim, na melhor versão do jornalismo amarelo – se é que existe uma boa versão para o sensacionalismo barato.

Cinco esquinas, Lima. Foto El País
Como toda grande cidade latino-americana, Lima viu seu centro histórico virar uma área degradada, sinônimo de criminalidade e falta de perspectiva; o título do livro de Vargas Llosa se refere a um bairro limenho de mesmo nome, localizado na zona de Barrios Altos

A chantagem a Enrique Cárdenas expõe o conservadorismo de toda a sociedade e, especialmente da sua família e esposa. Fotos do empresário são reveladas em circunstâncias constrangedoras. Alguém deverá pagar por isso, e existem duas formas somente: a legal e a ilegal.

Em um estado de exceção, onde predomina uma ditadura em guerra contra seus inimigos, ou seja, qualquer um que cruze seu caminho, só existe uma via – e todos nós sabemos qual é.

Um incidente gira a roda para outra direção e o jornalismo assume sua função que nunca deveria ser deixada de lado: ser o guardião da sociedade perante os três poderes.

Será Julieta quem conduzirá a Destapes em direção do bom jornalismo e uma série de denúncias que partirão da investigação produzida por ela que também conduzirá a ditadura de Fujimori e do doutor ao seu final, enfraquecida por uma série de denúncias que a fizeram perder o apoio econômico dos ricos peruanos, especialmente os de Lima.

Uma das muitas qualidades de Vargas Llosa está marcada nos cenários.

Em diversos livros seus como Travessuras da menina má, A cidade e os cachorros e outros (sobre a obra de Llosa leia este artigo), as cidades se convertem em personagens.

Ruas, bares, restaurantes, pontes são características mágicas que dialogam com personagens e especialmente com leitores.

Cinco esquinas repete essa qualidade do escritor peruano e mantém a principal característica que faz parte de quase todos os seus livros: a perceptível defesa do homem, da democracia e a denúncia contra a arbitrariedade das ditaduras e do todo sistema totalitário.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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