Erradicando a fome de conhecimento

Por Alexandre Hannud Abdo e Névio Carlos de Alarcão *

A Wikipédia, que completa dez anos amanhã, não existe em oposição à imprensa ou à academia: a sua produção depende da apuração destas

De todos os sonhos humanos, há um que perdura e orienta o avanço da civilização, se não mesmo o define: o de que cada indivíduo compartilhe livremente a soma de todo o conhecimento. Essa ideia dá vida à ciência, às humanidades, à política, ao jornalismo e a tantas outras atividades voltadas ao bem público, pois reflete o caráter último colaborativo e universal do conhecer.

O conhecimento deriva do contraste de ideias e experiências, alimenta-se de compartilharmos nossas diferenças. Reconhecemos esse sonho, ao longo da história, nas eras que associamos ao ideal humano e vemo-lo negado nos períodos de injustiça e censura.

Há dez anos, completados amanhã, miríades de pessoas diversas em suas línguas e nacionalidades encontram-se todos os dias em um mesmo endereço para expandir e concretizar tal sonho. Lendo, escrevendo, discutindo, fotografando e recentemente filmando verbetes na Wikipédia. No dia 15 de janeiro de 2001 surgia a enciclopédia on-line que qualquer um pode editar.

Poucos anos depois, nasce dela o Movimento Wikimedia, que deu origem a outros projetos, como o Wikcionário e o Wikilivros.

Hoje, mais de uma centena de línguas têm suas Wikipédias interligadas. Dentre elas, o português é a oitava maior, com 666 mil artigos.

O guarani, com menos falantes alfabetizados e informatizados, tem 1.300 verbetes. E muitos brasileiros também contribuem na Wikipédia em inglês, já com mais de 3,5 milhões de tópicos, tornada um amálgama dos povos pela sua condição de “lingua franca”.

Persistem, entretanto, mal-entendidos sobre a Wikipédia. Tende-se a interpretar seu bordão “a enciclopédia livre” como uma ausência de regras. Pelo contrário, ela é regida por princípios e normas, e cada contribuidor compartilha igual responsabilidade em zelar por eles.

É dita livre justamente por um desses princípios, o de que o conhecimento ali contido possa ser recombinado sem restrições em outras obras, desde que preservada nelas essa mesma liberdade.

Outro equívoco difundido é o de que a Wikipédia existe em oposição à imprensa ou à academia. Ignora-se aí que sua produção, pelos princípios da verificabilidade e da imparcialidade, depende dos processos de apuração e relevância executados por estas, que fornecem as fontes citadas em cada artigo.

Seus editores são voluntários, quer corrijam uma palavra, quer escrevam um artigo, e determinam por si onde e quanto contribuir.

Procedentes de variadas camadas sociais e ocupações, suas motivações são igualmente diversas.

Mas, dentre elas, uma recente pesquisa conduzida pela Fundação Wikimedia, a organização criada para manter a infraestrutura do projeto, revelou que fazer parte de uma causa maior e se divertir são razões universais.

A mesma pesquisa mostrou que, infelizmente, há significativamente menos editoras mulheres, o que expõe a enciclopédia ao risco de um viés masculino. Pelo lado positivo, reconhecido isso, mais mulheres podem se interessar em participar.

A grandiosidade e a abertura da Wikipédia nos ensinam muitas lições sobre confiança e ousadia na construção do conhecimento, quando lá descobrimos jovens, ainda no ensino fundamental, fazendo contribuições relevantes e construtivas ao lado de universitários, trabalhadores e aposentados.

Mas seu caráter coletivo também expõe nossa condição humana, seus conflitos inerentes e como normas técnicas e sociais servem para mediar essas diferenças e torná-las produtivas. Nisso, participar desse sonho é também uma lição de vida e de ética, um aprendizado sobre nós, unidos em sociedade.

* ALEXANDRE HANNUD ABDO, 29, cientista molecular e doutor em física pela USP, e NÉVIO CARLOS DE ALARCÃO, 52, poeta e funcionário aposentado do Banco do Brasil, editam a Wikipédia e são voluntários do Movimento Wikimedia no Brasil.

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