Escárnio, covardia e miséria de muitos

Por Milton Hatoum
ESTADO DE SÃO PAULO

O sujeito saiu da prisão e fez um discurso emocionado na Casa onde homens e mulheres representam o povo. Dizem que em plena sessão parlamentar o condenado se ajoelhou, fez suas preces e gritou “aleluia”, as mãos para o céu.

Estranha litania de um desavergonhado! Ainda assim, a infinita bondade divina pode acolher a oração dos crentes, indistintamente. Mas, em casos extremos de opróbio e cinismo, até uma divindade se envergonha de alguns fiéis, incluindo os do alto e os do baixíssimo clero.

O choro e a oração do deputado fazem parte dos rituais de dissimulação e hipocrisia encenados por políticos e empresários corruptos. Essa encenação barata significa uma total indiferença à lei e à coisa pública. As lágrimas, preces e gestos calculados são rituais de outro culto, nada religioso: o velho personalismo de uma certa elite política. O escárnio da cena é aviltante. Não menos aviltante é o voto secreto, que permite a cumplicidade de réus inconfessos ou de gente que teme a punição de futuros atos criminosos.

Ainda é atual e necessária a leitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda:

“No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal”.

De fato, nossas constituições são feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas. As vontades particulares, cochichadas em círculos fechados, são um acinte a uma verdadeira democracia. Outro político – um senador de Rondônia também condenado pela Justiça – é dono de uma estação de rádio. Dezenas de deputados e senadores são proprietários de jornais, estações de rádio e tevê. Essa é mais uma aberração do nosso sistema político.

Na década passada, um promotor público disse que o dinheiro roubado por políticos em conluio com empresários mata crianças e usurpa o futuro de jovens brasileiros. E é verdade. Com os mais de 8 milhões de reais roubados dos cofres de um Estado do Norte, as famílias pobres são as mais prejudicadas. A violência e a miséria na zona rural de Rondônia são tão alarmantes quanto a destruição da floresta. Isso acontece também no Pará e em Mato Grosso, sem falar na vergonhosa ausência de infraestrutura urbana em bairros pobres de Manaus, Macapá, Cuiabá e de outras capitais da Amazônia.

Numa entrevista ao Estadão (1.º/9/2013), o presidente da Câmara afirmou que seus pares sentiram “dó” de Donadon. Por isso, e também por corporativismo, o político criminoso não foi cassado. Desconfio que a imensa maioria do povo brasileiro não sente dó desse deputado.

Segundo Bolívar Lamounier, há décadas – pelo menos desde os anos 1950 – o povo brasileiro é saqueado por um novo tipo de clientelismo: as relações promíscuas dos três poderes com construtoras, agências de publicidade, empresas de transporte urbano e de coleta de lixo.

A farra é geral e não se limita a esse ou aquele partido. Quase todo o sistema político se alimenta da promiscuidade entre o público e o privado. Como desatar esse nó? Como instaurar transparência e lisura nas licitações de obras e serviços dos governos federal, estadual e municipal? Como, enfim, transformar em democracia a caricatura de uma democracia?

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 13 de setembro de 2013 11:26

    SANTO,SANTO,SANTO/ ASSIM TE CHAMAM, SANTO./ BENDITO ÉS/ MALDITOS SÃO.

  2. Marcos Silva 13 de setembro de 2013 10:57

    A indignação de Hatoum é absolutamente correta. Deputados têm todo o direito a sentimentos de piedade NA VIDA PRIVADA. No exercício de seu trabalho, são obrigados a cumprirem a lei.
    Quanto à piedosa encenação do bandido, a culpa não é de Deus. E as bancadas evangélica e carismática não protestaram contra o uso de Seu Nome em vão!

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