Escrever aos sessenta

Marcelo Antinori, brasileiro que vive em Washington, onde por mais de vinte anos trabalhou como especialista em projetos de desenvolvimento em instituições internacionais como o Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento, decidiu aos sessenta anos iniciar uma nova carreira como escritor. Já tem livros publicados em espanhol e inglês e em 2013 lançou três livros em português.

ENTREVISTA

Como é escrever aos sessenta?

Resumindo em uma frase, para abrir e dar o tom a entrevista, diria que é um desafio mais complexo e ao mesmo tempo mais excitante do que imaginava. Em um primeiro momento até que parece fácil. A impressão é a de que basta romper o medo, sentar em frente a tela e o teclado e começar a escrever. Mas a verdade é que o medo não chega a incomodar. A coragem, desafio maior de um jovem escritor, dificilmente assusta aos sessenta – quem tem a ousadia para escrever nesta idade, é por que não se assusta em frente a uma pagina em branco – No meu caso, ao invés da hesitação e timidez, o problema foi administrar os excessos de uma vazão incontida que me levou a escrever mais de mil e duzentas paginas em apenas um ano. Queria provar a mim mesmo que conseguiria e a cada capitulo que escrevia, outro mais nascia atrás. Compreendi que escrever em quantidade não era difícil e depende apenas de desejo e disciplina, o problema para ser escritor é outro: escrever com a qualidade desejada. Trocar o terno e gravata por bermuda e sandálias ajuda e sem duvida é mais divertido passar o dia contando e inventando historias em frente ao computador, mas isso não basta para transformar alguém em um escritor. Existem alguns efeitos colaterais de ter vivido sessenta anos imerso em outras atividades que tem de ser compreendidos – e talvez ajustados – para conseguir o que se quer.

E quais seriam estes “efeitos colaterais”?

O primeiro e mais obvio é a falta de costume. Se alguém escreve aos sessenta é por que tem inspiração, mas se não escreveu aos vinte é porque escrever nunca foi uma obsessão. Pessoalmente não acredito em escritores de final de semana. Fui um deles e conheço suas limitações. Um texto com valor literário exige mais que a simples paixão. Para conseguir a qualidade no texto é necessário que o autor esteja obcecado pela ideia e compelido permanentemente a renunciar a tudo em troca alguns minutos de criação. O problema é que esta obsessão, quando nasce aos sessenta, não vem acompanhada do costume de escrever. É necessário perseverança para arrancar e colocar em funcionamento este processo criativo que não é simplesmente “sentar e escrever” e passa por uma combinação de ideias geradas com frases racionalmente construídas e se completa com a escolha de palavras que trazem a estética ao texto. Depois de anos orientando o processo de pensamento em outras direções é natural que a maquina tome algum tempo para se aquecer. O segundo requisito é o conhecimento da engenharia do texto, que segundo alguns pode ser adquirido em cursos, mas que no meu entender, apenas pode ser desenvolvido a partir de um processo de leitura constante dos grandes textos. Verdade que aos sessenta existe uma vantagem – uma boa parte dos grandes textos já foram lidos – mas é preciso fazer uma releitura diferente: menos enfocada em desfrutar o prazer do texto e da historia e mais atenta a aprender com a leitura, lições sobre a forma adequada de criar e escrever. Depois de novamente azeitar a maquina criadora e produzido uma enorme quantidade de paginas, tenho agora dedicado meu tempo a ler e reler textos, em busca da qualidade. E nisto tenho preferencia pelos contos, pois neles, com menos tempo, é possível, captar uma maior variedade de estilos.

Pratica e conhecimento são apenas estes os desafios?

Não, falta o terceiro e mais complexo deles. Os dois primeiros são condições necessárias mas não suficientes pois o artista não é aquele que apenas sabe contar, mais sim aquele que tem a capacidade de perceber, onde outros nada veem, aquilo que deve ser contado. É preciso abrir esta porta de percepção que consegue ver nas sombras, perceber nas entrelinhas e que é capaz de sentir a sutileza e o peso de cada evento, de cada palavra e o ritmo correto da frase. Isso não é ciência exata e tampouco depende de um método que se explique em apostilas. Isso esta ao alcance da mão mas ao mesmo tempo não é possível de explicar nem de tocar. É um sentir que vem de uma relação mais ingênua, curiosa e humilde com o que te cerca. Aos sessenta e normal que as frustrações da vida tornem a observação amarga e amargura é, na minha opinião, o principal inimigo de um escritor mais velho. Mas experiência e sabedoria não precisam ter como único destino a amargura, basta lembrar que um pequena pitada de loucura pode fazer alegre o que antes era triste.

E você já conseguiu superar todos estes desafios?

Ainda não, o caminho é longo e estou apenas no inicio. E é dai que vem a beleza de escrever aos sessenta. Depois de ter passado décadas pensando como um economista, buscando soluções praticas para resolver problemas reais trabalhado em empresas, governo e em instituições internacionais, desenvolvi uma forma de pensar que é incompatível com a que hoje necessito. Antes como economista escrevia sobre o que tinha certeza, hoje como escritor, escrevo sobre minhas duvidas. A primeira parte deste processo de readaptação foi explosão e esta já completei. Estava vivendo no Panamá quando decidi escrever e em um ano terminei quatro romances diferentes com os mesmos personagens: O primeiro “O Ultimo voo do Condor”, foi originalmente publicado em espanhol e depois traduzido para o inglês, e os outros: “Recordações do fim do mundo”, “O macaquinho vestido de Napoleão” e o “Húngaro que partiu sem avisar” publicados em português. São romances simples, quase juvenis, assim como “O Labirinto de Mariana”, uma historia linda que escrevi, quando ainda não tinha tempo e nem técnica para desenvolve-la, e que me ajudaram a aperfeiçoar a compreensão e a técnica da arte de escrever. Agora que superei esta etapa da explosão, sinto que tenho condições de escrever um texto, que além de contar uma historia possa ter a pretensão de ser uma obra literária. Este ano devo publicar um novo romance “A Noiva de Paraty” e talvez um livro de contos, mas sei que ainda não são estes o grande livro que vou escrever. Este livro especial esta lentamente nascendo na minha cabeça e pretendo começar a escreve-lo apenas ao final do ano. E é esta ambição – que pode até ser desmesurada, que importa! – que me enche o peito e me anima todos os dias como um garoto a acordar antes do sol e sentar em frente a tela e o teclado do computador.

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