Escrever, enfim, é um ofício secular

A crença de que a literatura é uma espécie de ofício que alguém aprende por seus próprios meios, dispensando qualquer auxílio exterior, começa a ganhar ares de ideia passadiça. De fato, está se firmando pouco a pouco um novo paradigma nessa área: cursos regulares para a formação de escritores (denominados em inglês de “creative writing” = escrita criativa) que, ao final, concedem aos inscritos um “diploma de autor”. Tais cursos não só são viáveis, como já aconteçam regularmente em muitos países, sendo que, nos Estados Unidos, a elite literária contemporânea é oriunda dessa espécie de cursos e vem arrebatando com certa regularidade, da década passada para cá, o principal prêmio literário daquele país: o Pulitzer de Ficção.

Essa moda, todavia, não é de todo inédita no Brasil, se lembrarmos que o escritor pernambucano Raimundo Carrero é um pioneiro nessa área desde os anos 1980, quando fez um curso semelhante na Universidade de Iowa, EUA. Desde então, vem ministrando no Recife cursos regulares para a formação de ficcionistas, além de ser autor de um dos poucos manuais do gênero escritos em português. Trata-se do livro A Preparação do Escritor (Iluminuras).

Se Raimundo Carrero tem o mérito de ter introduzido no Brasil os cursos para formação de autor, é no sul/sudeste onde eles aparecem em plena efervescência, conforme reportagem do caderno “Mais!”, da Folha de S. Paulo do último domingo. A Casa das Rosas, na capital paulista, está com suas aulas para a formação de autor lotadas, apesar de oferecer meia dúzia de oficinas de escrita criativa. Uma das atrações dos cursos é o escritor Marcelino Freire (ex-aluno de Raimundo Carrero), que mantém outra oficina no Espaço Barco, também em São Paulo.

Mas, o que se discute, de fato, nessas oficinas, que atrai um número cada vez maior de interessados? Para esclarecer essa questão, a Folha ouviu o já citado Marcelino Freire e mais os professores Luiz Antônio de Assis Brasil e Luís Augusto Fisher. A cada um deles, pediu que pontificassem sobre duas vertentes da literatura: a leitura e a escrita.

O resultado do questionário mostra um pouco do que deve ser a rotina desses cursos que visam a habilitar seus alunos nessa pouco clara seara da “leitura criativa”. Com visão mais conservadora, Luiz Antônio de Assis Brasil recomenda ignorar os best-sellers, usar em abundância o ponto final e dedicar mais tempo à leitura do que a escrita.

Teatral, Marcelino Freire joga com o contraditório e recomenda que “quanto mais um livro fizer mal, melhor” (faltou explicar em que sentido um livro faz mal), para, em seguida, advertir: “Desconfie das dicas que lhe dão”.  Mais comedido, Luís Augusto Fisher contemporiza: “Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que seu honesto empenho de leitura não está sendo recompensado”. Sobre a leitura, Fisher diz, entre outras coisas: “”Embora no sentido trivial o leitor é quem escolhe o texto que vai ler, num sentido mais profundo é o texto que escolhe seu leitor”.

É fácil, portanto, retirar ideias práticas comuns desse domínio das letras, não obstante o fato de que a visão de mundo de cada instrutor seja às vezes de ordem muito pessoal. Mas não resta dúvida de que a formalização do ato de escrever (que necessariamente também implica o da leitura) descortina um campo vasto de novas possibilidades e pode ser um diferencial do nosso tempo, no qual o fetiche do livro exerce um fascínio de rara espécie. De fato, há uma pulsão social que move cada vez mais pessoas a tentar a escrita, sob qualquer uma de suas formas. Cursar um desses programas de “escrita criativa” pode resultar benéfico não só para o futuro autor, mas também para seus eventuais leitores.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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