Escrita e conforto

Escrever não me dá conforto. Dá-me um bocado de outras coisas, mas conforto, não. Agora mesmo estou escrevendo e tem coisas gritando. Escrevo e organizo os gritos, mas às vezes organizo mal. Eu não posso gritar quando estou escrevendo. Tenho de escrever compassada. De compasso e régua, se preferem. Incontáveis vezes não dou conta disso. Embora digam que a literatura é uma arte apolínea, eu não sinto assim. Acho escrever dionisíaco e, num sentido grego, infernal. Escrever é o meu inferno (no sentido grego, repito). Um inferno do qual já provei, comi a romã, portanto, não posso sair. Alguns textos me dão euforia, mas é passageira. Não me dão satisfação nunca. Sinto sempre que poderiam ser melhores.

Se eu lidasse com o texto de olhos fechados, ficaria satisfeita com ele. “A vida é fácil de olhos fechados”, disseram os Beatles. Mas eu olho para eles de olhos bem abertos. Olho com olhos de absurdidade. E eles estão recheados de reticências nas entrelinhas. As reticências me inquietam. Era para me acalmarem, mas me inquietam e me dão uma sensação de vazio.

O que quero? Que o texto embriague. Que as palavras tornem pântano o que é seco e seguro. O que quero? Que o texto abisme. Que me acosse e me expulse de si. Que não me queira com ele. Que se livre de mim. Aí, eu teria conforto. Para mim, um texto só tem sentido por ele mesmo, e sozinho.

Eu quero ser separada do texto por uma ruptura, por um corte na raiz. Sair do texto completamente não é negá-lo, nem negar-se. Ao contrário. Sair do texto é fazer com que ele exista. Por isso, não me sinto confortável enquanto o texto está em mim e eu nele. Escrever é romper, e nenhum rompimento se faz sem dor. Preciso renunciar a retê-lo (o texto), fazer isso com palavras. Porque o texto tem uma independência que precisa ser reconhecida. Se não a reconheço, o texto trava. Acho sempre que o texto trava. Acho sempre que estou atrelada a ele.

O que mais poderia me contentar num texto seria a distância entre mim e ele. Seria o estranhamento que as palavras deslizantes poderiam trazer. É bem verdade que já houve textos assim. Poucos, de total desligamento. É nestes que me inspiro, não para imitar a mim mesma, mas para enveredar-me por uma escolha. Fixo seus suportes, externos aos meus. Posso mirá-los, arrisco dizer, até aprender com eles.

Eles vêm a mim como visitantes, não como filhos pródigos voltando à casa. Posso revê-los quase sem culpa de tê-los escrito, digo quase porque culpa é uma coisa que me é inerente, portanto sempre há um bocadinho dela em qualquer coisa que eu tenha feito. Mesmo separados de mim, quando os revejo tenho ímpetos de refazê-los. Mas esses independentes impedem-me. Quanto à maioria, submeto-os às mudanças pelas quais passo. Não são poucas, nem espaçadas.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 27 de abril de 2011 16:49

    Puxa, Chico, muito agradecida. E mais ainda por junto de Nina. Acho que ela é mesmo um antídoto contra obviedades.

  2. chico m guedes 27 de abril de 2011 14:45

    não conheço, jarbas, mas não duvido.
    pessoalmente não tenho interesse na poesia de leminski.
    abraço

  3. Jarbas Martins 27 de abril de 2011 14:19

    atenção, chico guedes, andei sabendo, pelo google, que existe uma tradução de “distraído venceremos”, de paulo leminski. para o húngaro.
    você conhece? que tal esse novo desafio, traduzir leminski para o húngaro? abçs..

  4. chico m guedes 27 de abril de 2011 12:03

    Carmen, andei procurando uma citação operística pra fazer em homenagem ao seu nome (até tuitei uma), mas, firulas à parte, aqui e agora digo só: Viva Carmen (e Nina Rizzi), antídotos certos contra obviedades nesta blogosfera.

  5. Carmen Vasconcelos 27 de abril de 2011 10:35

    Grata, Jarbas e Tião.

  6. Tião Carneiro 26 de abril de 2011 22:05

    E esse texto não é singular? Ele livrou-se da autora, não tenha dúvida. Agora ele está confortando quem já provou da romã gêmea. Aquela que não nos deixa sair da leitura.

  7. Jarbas Martins 26 de abril de 2011 18:40

    Proesia, proème ou prosa porosa?
    Carmen dilacerante e dilaceradora de gêneros.

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