Escritas e escrituras

“Colho o que preciso nas fendas das rochas, lá onde o mar
Precipita as cabeças de cavalos montados por cães a uivar
E a consciência já não é o pão no seu manto real
Mas o beijo único a recarregar-se com brasa própria.”
(André Breton).

Contra a palavra, saio ao vento e seco. Mesmo seca, frutifico. A palavra ofega sob meu jugo ou eu ofego sob o jugo dela. Não somos (nem ela, nem eu) da raça dos libertos. Eu não a suporto, ela não me dá suporte. Ela sempre me seca, sempre me esvazia. Esvaziar-me é a minha tendência e o meu destino, pelo menos quando estou em estado de palavra. E alguém ainda pensa que há conteúdo entre mim e a palavra. Nenhum. Se compartilho usando a palavra, estou compartilhando nadas. Estou dando os meus nadas, que se revelam em palavras, só isso. O que houver a mais não é meu, é de quem lê. “ Mas só a que eles não têm.”

Já o silêncio, esse me conforta, me aquece, me recheia. O silêncio me dá estofo. O silêncio eu acho mais bonito. Mesmo assim, mesmo com a fascinação pelo silêncio, a palavra é muito mais presente, muito mais freqüente. Talvez me compraza o vazio, ou talvez eu aceite o vazio para poder ficar com a palavra. Talvez seja uma espécie de masoquismo, de preferência bizarra. Uma esquisitice, enfim.

Enfim, de algum modo prefiro a palavra, mesmo que seja desse modo inútil de escrever. Não fosse assim, isto mesmo não se estaria escrevendo neste papel virando vão (“uma semente de ilusão”). Não, o papel não é oco antes de eu escrever, ele fica branco depois, branquinho, para quem quiser enchê-lo de palavras. Ora, direis, escrever para contrariar o vazio. Eu escrevo para chegar ao oco, ao vão.

E tenho pressa, porque só esvaziada é que posso receber, pois é esvaziada que sinto necessidades. Se estou toda ocupada, se meus espaços estão cheios do silêncio profuso, não posso ter esperança de agasalhar nenhuma outra dádiva. O vazio, a fome e a falta me trazem premonições, o vazio das palavras me dá decifrações. Talvez seja essa a explicação para o fato de eu preferir a estadia prolongada com as palavras escritas, secantes.

Mas não é transe místico este meu esvaziamento, é uma coisa bem banal, até. Uma coisa diária, comezinha. Uma coisa bem própria deste mundo feito de palavras: ser ultrapassada pelo querer dizer, sem que esse querer chegue às palavras; ser ultrapassada por palavras que nunca quererão acumpliciar-se. Quem nunca se indispôs e se inquietou com a rasteira que as palavras lhe deram um dia, atire a primeira tecla.

“Palavras, palavras, palavras.” Por essas e outras faltas, vou ao vento, à intempérie, eu desassossego. Para alguma vez ficar repleta, vou primeiro às palavras, para abrir-me os espaços, os vãos.

# Citações dentro do texto: Fernando Pessoa, Gilberto Gil e Shakespeare, nessa ordem.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 29 de outubro de 2011 17:43

    Grata pelas palavras, Wilson. Gostaria de ler o seu ensaio, quando estiver pronto. Obrigada mesmo.

  2. Wilson Azevedo 29 de outubro de 2011 12:18

    Que conforto ler essa crônica, caríssima Carmen. Estou numa luta tremenda com as suas palavras. Finalizando ensaio sobre os seus três livros. Mas um ensaio é pouco. Selecionei cinco poemas de cada livro e já é material suficiente para uma tese.

  3. Carmen Vasconcelos 27 de outubro de 2011 21:14

    Jarbas, sempre incentivador. Obrigada de novo.

  4. Jarbas Martins 27 de outubro de 2011 8:06

    escrita, escrituras e a arte citacional, esse demônio do pós-modernismo.tua prosa poética está em meu cânone particular, Carmen.
    .

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