Prémio Cervantes para Juan Goytisolo, um escritor que prefere viver fora de Espanha

Por Luís Miguel Queirós
JORNAL PÚBLICO
Radicado em Marrocos, depois de se ter exilado em Paris e nos Estados Unidos durante o franquismo, o romancista catalão manteve sempre uma relação crítica com a cultura espanhola.

O escritor catalão Juan Goytisolo, um dos nomes mais importantes da ficção espanhola da segunda metade do século XX, é o vencedor da edição de 2014 do prémio Cervantes 2014, no valor de 125 mil euros, atribuído pelo Ministério da Educação, Cultura e Desporto de Espanha e destinado a distinguir um autor de língua espanhola.

A escolha de Juan Goytisolo, nascido em Barcelona em 1931 e irmão dos também escritores José Agustín e Luis Goytisolo, exigiu sete votações sucessivas do júri, presidido pelo poeta José Manuel Caballero Bonald, prémio Cervantes em 2012, que considerou o vencedor deste ano “um dos cumes da literatura espanhola do pós-guerra”. Caballero Bonald destacou, na obra de Juan Goytisolo, “a vontade de integrar as duas margens” e a “aposta permanente no diálogo intercultural”. Uma referência à luta que o autor sempre travou contra as tentativas de rasura da herança árabe na cultura espanhola contemporânea.

Radicado desde 1996 em Marraquexe, Marrocos, onde recebeu no domingo a notícia do prémio, que lhe foi comunicada telefonicamente pelo ministro José Ignacio Wert, Goytisolo opôs-se ao franquismo e saiu de Espanha aos 25 anos, tendo começado por se exilar em Paris, em meados dos anos 50. Trabalhou durante anos como consultor editorial da prestigiada editora Gallimard, antes de rumar aos Estados Unidos, em 1969, onde foi professor em diversas universidades, na Califórnia, em Boston e em Nova Iorque.

Visitou pela primeira vez Marraquexe em 1976, comprou ali casa em 1981, e acabou por se radicar definitivamente nesta cidade marroquina após a morte da sua mulher, Monique Lange, em 1996. Além da narrativa de ficção, Goytisolo tem uma relevante obra ensaística e praticou também a reportagem, a literatura de viagens e o memorialismo. Declarou em 2012 que não voltaria a escrever ficção e nesse mesmo ano estreou-se como poeta com o volume Ardores, cenizas, desmemoria.

Como ficcionista, a sua obra mais conhecida talvez seja Reivindicação do Conde Julião (1970), que a D. Quixote publicou em 1972, numa tradução do poeta Pedro da Silveira. Hoje reintitulado apenas Don Julián, o livro é o segundo volume da chamada Trilogia Álvaro Mendiola, iniciada com Señas de Identidad (1966) e concluída com Juan sin Tierra (1975).

Se os seus primeiros livros, como Juegos de Manos (1954) e Duelo en el Paraíso (1955), ou mesmo a trilogia composta por El Circo (1947), Fiestas (1958) y La Resaca (1958), o situam no ámbito de um realismo crítico não muito distante daquilo a que em Portugal se chamou neo-realismo, é a partir de meados dos anos 60, com Señas de Identidad, que a sua obra ficcional adquire características mais experimentais, revelando um esforço sitemático de renovação da linguagem literária.

Ouvido pelo jornal El Pais, do qual é há muito colunista, e para o qual escreveu reportagens sobre os conflitos da Bósnia ou da Chechénia, Juan Goytisolo afirmou: “Quando me dão um prémio, suspeito sempre de mim mesmo”. Mesmo após a queda do franquismo, o escritor foi mantendo uma relação turbulenta com a cultura espanhola, na qual lamentava que sobrevivessem vários “tabu”, como a importância da influência árabe ou o passado de violência entre cristãos velhos e cristão novos. “Tanto em Paris como quando dava aulas em Nova Iorque, habituei-me a uma sociedade heterogénea”, diz Goytisolo. E recordando o seu regresso a Espanha em 1976, acrescenta: “Só havia espanhóis, era terrível”.

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