Escritor frio, mulheres quentes

Por Daniel Piza
O Estado de S.Paulo

Vigor de personagens femininas marca o romance Verão, que encerra trilogia do Nobel sul-africano J.M.Coetzee

Quem viu J.M. Coetzee quando veio à Flip, em 2007, o descreveu como uma figura seca, fria, que apenas leu sua palestra e foi embora sem mal deixar um sorriso. Pois é assim que sua literatura frequentemente é vista também: seus livros seriam contidos demais, vibrantes de menos. O primeiro a reconhecer e brincar com isso é o próprio Coetzee, cuja trilogia que poderíamos chamar de “pseudoautobiográfica” se completa agora com Verão. Antes vieram Infância e Juventude, todos com o subtítulo balzaquiano “cenas da vida na província”.

Os três livros formam um conjunto de memórias ficcionais ou ficções memoriais que não apenas ironiza o gênero biográfico, mas também o discute. Como nos outros romances desse premiado escritor sul-africano radicado na Austrália, que ganhou o Nobel e foi o único a receber dois Booker Prizes, o ensaio tem presença forte. Em A Vida dos Animais e Elizabeth Costello, por exemplo, sua militância pelo vegetarianismo tomou tal conta da narrativa que afugentou os que discordam de suas ideias. Já em O Mestre de Petersburgo o mergulho em Dostoievski deu ânimo ao enredo.

Sua melhor obra continua sendo Desonra, justamente porque seu argumento tem alta voltagem (a história de uma mulher engravidada em estupro numa fazenda sul-africana e da reação de seu pai ao fato) e, por mais “objetiva” que soe a escrita de Coetzee, toda a complexidade da situação é desenvolvida na rede de eventos. Na verdade, a diferença entre a história e a escrita ? diferença mais flaubertiana que balzaquiana ? é um trunfo de Coetzee nesse livro, pois obriga o leitor a duvidar da própria comoção. Em Vida e Época de Michael K e À Espera dos Bárbaros, Coetzee como que se preparara para chegar à plena maturidade de Desonra. E depois?

Na sexta parte de Verão, uma colega de John Coetzee, Sophie, professora e crítica literária, responde sem eufemismos: “Depois de Desonra eu perdi o interesse. No geral, eu diria que o trabalho dele é desprovido de ambição. O controle dos elementos é muito estrito. Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura.” Muitos leitores e críticos pensam o mesmo sobre os livros mais recentes de Coetzee. Da mesma maneira, duas outras personagens, Margot e Adriana, descrevem o homem de modo semelhante: respectivamente, “autista” e “de madeira”. E é dessa confusão entre obra e autor que o livro trata.

Detalhes. Afinal, John Coetzee é e não é o consagrado J.M. Coetzee. O primeiro está morto, não teve filhos, passou o final da vida cuidando do pai doente. O segundo está vivo, acaba de completar 70 anos, tem filhos e já era casado nos anos 70, quando as histórias se passam. Mas ambos são escritores, viveram a infância na Cidade do Cabo, moraram nos EUA e optaram pela cidadania australiana, desconsolados com o apartheid em seu país. O que mais há em comum, ponto a ponto, talvez nunca saibamos; e não é isso que importa, pois o livro se faz ler por si próprio. E essa estrutura heterodoxa não deixa de ser resposta à acusação de Sophie.

Sua maior força está nas personagens femininas. Julia, Margot, Adriana e Sophie estão entre as cinco pessoas escolhidas por um biógrafo para serem entrevistadas a respeito de John Coetzee; Martin é o único homem. O quinteto conviveu com o falecido escritor quando era um pedreiro de modos rudes (o que o verdadeiro Coetzee também nunca foi) que começava a escrever suas primeiras obras, como Dusklands (nome real de seu primeiro livro, publicado em 1974). O biógrafo diz estar interessado apenas nessa fase inicial de sua carreira e é constantemente contestado por seus entrevistados sobre a insistência em detalhes íntimos.

São esses detalhes, porém, que dão a vitalidade que o título Verão pode sugerir. No primeiro e no último capítulo, lemos páginas dos cadernos de anotação de John, onde faz comentários mais genéricos sobre a situação da África do Sul (“Essa conversa de salvar a civilização, ele tende a pensar agora, nunca foi nada além de um blefe”), encerrados com a expressão “A desenvolver”. Mas nas entrevistas o que aprendemos são as diferentes maneiras como aquelas pessoas o viam no período. É como se Coetzee alertasse para a imperfeição de qualquer biografia, já que elas se baseiam no que os outros pensaram de alguém, sem perspectiva de tempo e sem capacidade de distanciamento.

Egoísmo. Ao mesmo tempo, muito do que as pessoas têm a dizer a respeito de John seria relevante para ele, caso estivesse vivo, pois mesmo que discordasse poderia ver consistência ou ao menos material para autocrítica. Julia, em especial, tem personalidade forte, que trai na própria capacidade de articulação ? tem explicação para tudo que aconteceu entre eles ? o resquício de desconforto, a sugestão de que não é tão bem resolvida a respeito daquilo. Fala argutamente sobre a infantilidade dos homens, que querem uma esposa fiel e ao mesmo tempo se orgulham de que seja desejada por outros. Conta como o caso extraconjugal com o pedreiro-escritor reanimou seu casamento. Mas o critica pela inabilidade nas preliminares, pelo egoísmo em relação aos sentimentos femininos.

Outra grande personagem é Adriana Nascimento ? sim, uma brasileira. O biógrafo faz entrevista com ela, em São Paulo, por supostamente ter tido um caso com John quando ele dava aulas de inglês para sua filha, Maria Regina. Adriana, uma ex-bailarina cujo marido sofreu acidente em Angola antes de ir para a África do Sul, nega o caso, alegando que o biografado não parecia ter muita masculinidade e parecia “não feito para a vida conjugal”. Depois deixa claro que ele estava apaixonado por ela e que, se ele tivesse ajudado (a driblar a burocracia local, por exemplo), aí sim teria tido alguma coisa, “poderia ter me permitido ser fraca”.

Isso dificilmente pode ser visto como elogio à cultura brasileira. A latino-americana que quer um marido forte que tome conta dela, ao mesmo tempo ciumenta da filha com o professor mais velho, parece um estereótipo. Mas seu retrato dele como um falso libertino é bastante plausível no contexto do romance. “Como se pode ser um grande escritor quando não se sabe nada de amor?”, ela ainda pergunta. É possível, porém, e não foram poucos na história da literatura. Coetzee talvez seja apenas mais um.

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