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Esmeralda e os Manuscritos

François Silvestre de Alencar e Luis García Jambrina (foto). O que há em comum entre esses dois escritores? O primeiro, típico nordestino, nem viver na Capital deseja, por opção, pois prefere escrever contemplando, do alto da oestana Serra de Martins, o cinzento da planície sertaneja. E o segundo, professor de literatura espanhola, vive em Salamanca – Espanha, sob o açoite do frio implacável dos rigorosos invernos, brancos de neve.

Mas, se fosse para contestar o questionamento sobre o que existe de comum entre os dois, em uma única sentença, diria: ambos possuem a habilidade de fisgar o leitor e o ter “preso” aos seus escritos, do começo ao fim. Conseguem, com suas bem urdidas tramas, que fiquemos grudados de modo a ansiar o desenlace de cada mistério, de cada lance, de cada capítulo, envoltos em um misto de curiosidade e cumplicidade com a história que se desenvolve à nossa vista.
O mais recente livro de François (foto), Esmeralda – Crime no Santuário do Lima, configura-se como um romance policial ambientado no Rio Grande do Norte, que narra as circunstâncias do assassinato da cigana Esmeralda, ocorrido, paradoxalmente, em um ambiente de oração. Os suspeitos são cuidadosamente caracterizados, tanto em seus aspectos psicossociais quanto em suas habilidades manuais, sendo tudo condizente e habilmente pensado para o surpreendente epílogo.

Já Luis Jambrina lançou, respectivamente, em 2009 e 2010, El Manuscrito de Piedra e El Manuscrito de Nieve, ambos alcançando considerável sucesso de venda e de crítica no concorrido mundo literário espanhol. O primeiro deles ganhou o V Premio Internacional de Novela Histórica Ciudad de Zaragoza. Vale dizer que existe uma sequência entre os dois romances, mas nada que possa estorvar a leitura de cada um de forma separada. O cenário é o mesmo: Salamanca. As ruas, as lendas e os mistérios da velha e bela urbe servem de tela de fundo para essas duas tramas.

Entre François e Jambrina, a proximidade de estilo alcança outra singular característica: a facilidade de urdir realidade e ficção nos enredos. Personagens e fatos históricos convivem naturalmente, ao ponto de confundir (no melhor dos sentidos) o leitor sobre o que é real e o que é fruto da criatividade literária. Por exemplo: o crime cometido contra a cigana Esmeralda é ficção, mas em dado momento, François cita o envenamento de um religioso ocorrido no Santuário de Lima, em 1856, que é fato verídico. Por outro lado, o protagonista das novelas de Luis Jambrina é Fernando Rojas (1465-1541), autor da tragicomédia La Celestina, na qual é encenado o épico amor de Calisto e Melibéia, com destaque para a vilã Celestina, velha alcoviteira, cheia de maldades. Pois bem, no enredo de Jambrina, em dado momento, Fernando Rojas chega a conviver com Celestina, personagem por ele (Rojas) criada. Isso sem falar que no El Manuscrito de Nieve, Jambrina revive a polêmica em torno da morte de San Juan de Sahagún, padroeiro de Salamanca, cuja suspeita de envenenamento perdura no tempo.

François e Jambrina exploram personagens, hábitos e outras tantas nuances bem próprios das respectivas culturas e, principalmente, do tempo em que se situam suas histórias. François ambienta seu romance no Oeste Potiguar dos anos de 1960, demonstrando que, na região confluente dos estados do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, além da aridez do clima, outros tantos matizes político-sociológicos colaboram para que nosso sertanejo conviva com uma realidade em que tudo “é descrença e fé”, como diz a canção de Chico César. E, nesse contexto, François “ressuscita”, por exemplo, o lendário cigano Zé Garcia, sem deixar de fazer referência a Frei Damião e a outras marcantes figuras religiosas do insólito semiárido nordestino.

Jambrina não deixa por menos. Elege o limiar do século XIV como época propícia para adornar tão significativo cenário, espanando densas camadas da poeira do tempo e, em determinado momento, nos fazendo até mesmo enveredar e submergir, com suas personagens, pelos escuros e sinuosos labirintos encravados na antiga muralha salmantina. Além de humanizar o impágavel Lazarilho de Tormes, Jambrina tece grande parte de suas histórias em meio a conventos povoados por diversas ordens religiosas, explorando também proeminentes fatos que as paredes da histórica Universidade de Salamanca testemunharam ao longo de seus oitocentos anos de existência.
Foi-me inevitável perceber a aproximação dos estilos desses dois escritores, após a leitura dos romances. E, como leitor mediano dos gêneros romances históricos e policiais, posso dizer que existe uma barreira de difícil ultrapassagem, ou seja, para um autor abordar crimes, suspenses e mistérios, sem cair no lugar-comum, necessita demonstrar talento e criatividade. Creio que François e Jambrina passaram no teste, com louvor.

davidmleite@hotmail.com

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Do editor

Leia texto de Jambrina aqui

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