Espanha x Alemanha

Por Tatiana Martins

Obrigada, meu Tio Jarbas. Devo a você e Eduardo Galeano o meu despertar para a arte que é o futebol.

Por André Kfouri

TOURADA EM DURBAN

A única chance do toureiro é sair da arena sem que o touro o encontre. O animal pode vê-lo, sentir seu cheiro. Pode saber onde ele está e para onde vai. Mas não pode tocá-lo.

O peso é tamanho, a força tão bruta, que um leve raspão dos chifres pontiagudos é o fim.

A única chance do touro é suportar a tortura, as provocações, os ferimentos. Participar do bailado sem permitir que as repetições da coreografia quebrem seu espírito, derrubem sua determinação. E esperar um vacilo.

O toureiro tem a coragem, a técnica, a estratégia, as armas. O touro tem a força, a explosão, a velocidade, o instinto.

O toureiro é paciente, maquiavélico. Sabe que o tempo corre a seu favor, que o controle das ações provocará os erros, que o cansaço deixará o touro à sua mercê, para o golpe final.

O touro é insistente, obstinado. Sua natureza lhe obriga a se comportar e se mover da mesma forma, sempre oferecendo perigo, porque isso é o que está programado em seus genes. Um engano, uma falha, uma demonstração de arrogância do toureiro, e seus chifres o punirão com severidade.

O toureiro sabe como a dança terminará, se tudo correr como ele deseja. Mas tem de ser perfeito. Pagará caríssimo pela indecisão, ou pela má execução.

O touro só sabe atacar, agredir. Sua luta é pela sobrevivência. Ele corre, sua, sangra à espera do momento em que a lei do mais forte prevalecerá.

Na “plaza” de Durban, as cornetas africanas soam de um jeito diferente. Mas o duelo entre o toureiro espanhol e o touro alemão é familiar. A camisa vermelha do toureiro se move por todos os lados, pretende hipnotizar o animal. Xavi, Iniesta, Pedro e Villa são como as lanças que perfuram o bicho, o fazem sofrer, o deixam irritado.

Mas é preciso ter cuidado. Schweinsteiger é o coração que não diminui seu ritmo. Podolski e Klose são os músculos que impulsionam o touro. Ozil é a ponta do chifre.

Na segunda parte do espetáculo de vida ou morte na Copa, o toureiro acelera as ações, conduz a dança de maneira mais objetiva. O touro parece cansado, não responde com a mesma ferocidade. Pedro instiga, fustiga. Iniesta provoca, Alonso bate.

Mas subestimar o touro é imperdoável. Quando o toureiro se imagina no total comando da coreografia, Kroos quase o acerta. Por pouco.

Num movimento da esquerda para a direita, Xavi prepara a lança, Puyol a espeta fundo na carne do touro. Ferimento grave, quase mortal. E, finalmente, o toureiro tem o touro como queria.

Exausto, o touro não reage. Apenas se mexe, pois é o que lhe resta. O toureiro baila, se exibe, até se permite um exagero preciosista.

As cornetas africanas anunciam o fim do espetáculo. O toureiro espanhol agradece os aplausos. No domingo, ele se apresentará na “plaza” de Johannesburgo.

Comments

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  1. Marcos Cavalcanti 13 de Julho de 2010 21:40

    Caro André, não com a mesma destreza que vc na arte de tourear, mas apenas para colaborar com a Tourada de um ponto de vista diferente.

    OLÉ! OLÉ! DIZ O TOURO AO TOUREIRO

    O belo estádio de Moses Mabhida, em Durban, foi o cenário de uma das semi-finais da Copa do Mundo da Africa do Sul, disputada entre duas das grandes potências do futebol europeu e mundial, a Alemanha e a Espanha. Na arena, privilegiados 61 mil torcedores foram testemunhas oculares da tão badalada partida, entre os quais, se fez presente até mesmo o sangue azul de “La Reina Sofía de España”. Menos privilegiados, mas não menos reais, outros milhões de telespectadores súditos do bom futebol e espalhados pelos 5 continentes, também testemunharam a lição tão popular quanto óbvia, que com sapiência helênica vaticina: “Quem teme perder, já está vencido”. E para saber disso nem é preciso filosofar em alemão. Filosofia de beira de mesa de bar de qualquer país do mundo, também serve.
    Como acontece nas famosas arenas da Espanha, por vezes, de olé em olé, é o toureiro quem sai sangrando e acabrunhado do palco, onde o touro, para o espanto da multidão, resta furioso e ofegante, mas vitorioso. Como todos sabem, a melhor defesa é o ataque, e foi com essa filosofia que a seleção alemã encantou o mundo aplicando nas arenas da África, goleadas memoráveis em rivais do poderio de uma Argentina e de uma Inglaterra, mas os meninos de Joaquim, se apequenaram diante dos comandados de del Bosque, quando obedientes, passaram a rezar de joelhos na nova cartilha imposta pelo medroso Loew. As lições desta nova cartilha, forjaram uma Alemanha débil, vacilante e inofensiva, que no máximo conseguia erguer seu pano vermelho, desbotado, para atiçar a fúria do touro espanhol. O mortal florete alemão de quatro pontas? Ninguém sabe, ninguém viu!
    Com a estratégia equivocada quedou-se a Alemanha numa partida sonolenta, evitada, quando finalmente, aos 73 minutos do segundo tempo, foi ferida de morte pela chifrada certeira e impetuosa do mais valente, do mais aguerrido e obstinado jogador em campo. Puyol, “el toro” que empunhou a bandeira da vitória com a fúria de um touro ensandecido pelo desejo de continuar vivo na última arena do mundial. De um salto, voou por sobre os Adamastores alemães e cravou na história o gol que poderá levar-lhe à glória definitiva frente à Holanda, na grande final. Sem trocadilhos, o lance chave da partida saiu dos pés do meio-campista Xavi, que do córner, mandou a Jabulani na cabeça do ariete “rojo”. A bola, golpeada com força minotáurica, vazou o já amarelo goleiro alemão, que nada pode fazer. A Alemanha bem que tentou retomar as antigas lições e acordar do pesadelo revivido, mas já era tarde, o sonho das quatro estrelas foi ficando distante, distante, até que o apito soou e pôs um definitivo fim ao conto de fadas alemão.

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