Espelho, espelho meu…

Por Alcione Araújo
ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

A atriz Julia Roberts e a modelo Christy Turlington (foto) fizeram anúncios de uma base facial, exibidos na TV inglesa. A ASA (Advertising Standards Authority), que regula a publicidade no país, proibiu-os porque podiam enganar o público sobre seus efeitos. Testada, a base não deu os resultados vistos nas imagens, obtidos por photoshop.

A fabricante nega que os anúncios sejam enganosos. Diz que as fotos da atriz mostram sua beleza natural, mas podem representar os efeitos da base e admite ter corrigido o rosto da modelo: tirou olheiras, escureceu sobrancelhas, clareou pele, afinou lábios. Mantida por anunciantes, a ASA recebe 26 mil queixas anuais; tolerante, admite photoshop, desde que não apague rugas e vincos de expressão em anúncio de antirrugas, nem exagere nas fotos de “antes” e “depois”. A proibição só saiu por pressão da deputada Jo Swinson, ativista contra a excessiva manipulação na publicidade.

Aqui é igual, só não há deputada para deter o “me engana que eu gosto”. Se a beleza da atriz é natural e a da modelo produzida no photoshop, os rostos na TV nada devem à base que se queria vender! Para vender, vale tudo em propaganda, que, diante da regulação apela à liberdade de expressão como se tivesse a nobreza da imprensa ou da arte. Mas é divertido pensar nesse maquiar a maquiagem que sepulta o rosto real, e numa perfeição natural que raia o sublime, capazes de açular o mulherio a comprar a tal base, sonhando com uma beleza que não a usa! Mas o ponto são as celebridades, elas próprias usuárias de cosméticos, cúmplices da fraude – por dinheiro. Muito dinheiro.

Quantos artistas de TV, modelos, cantores, atletas, futebolistas, animadores, apresentadores, personalidades públicas e celebridades atuam em propaganda enganosa! Alugam um talento de outras áreas para vender produtos que não usam nem conhecem e viram cúmplices de fraudes. Não se dão conta, ou se lixam, de que vendem remédio inútil, senão nocivo, elogiam banco de juro extorsivo, plano de saúde que destrata idoso, falso financiamento sem juros. Alheios à ética julgam-se isentos de responsabilidade atribuindo a fiscalização ao Estado e justificam-se pelo valor do cachê: a carência valida o vale tudo?

Seu poder de persuasão, cobiçado pela propaganda, vem da empatia com o público, fruto, por sua vez, da fantasiosa relação de convivência subjetiva, sensível e virtual, da qual nasce respeito, admiração, afeição e, às vezes, até paixão. Envolta em afetividade, sua palavra ganha credibilidade com força de verdade e ação subliminar. A manipulação afetiva garante as vendas – e votos nas campanhas eleitorais! Sem juízo crítico, os ingênuos são mais vulneráveis: elegem seus candidatos e compram a tal base vítimas da mesma fraude.

A ASA proibiu o comercial e a deputada Jo Swinson cogita denunciar Julia Roberts e Christy Turlington como cúmplices de fraude pública. Aqui, a gente anistia a fraude, aplica a base e indaga “Espelho, espelho meu…”. E vê tudo azul.

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