Espírito de contradição

DIÁRIO DE BERLIM

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Junho foi o mês dos amigos em Berlim. E depois de um mês a acompanhá-los por Mitte, Kreuzberg e Prenzlauer Berg, volto à calmaria do meu bairro (onde o marasmo deveria ser sinônimo de trabalho), só para confirmar que a tranquilidade também tem um preço: Charlottenburg parou nos anos 80.

O espírito de contradição foi banido do presente — e não só em Charlottenburg. Hoje, ou você é a favor ou é um perdedor. O espírito de contradição foi substituído pela expressão da burrice e do ressentimento pessoal na internet.

E se Charlottenburg nos anos 60/70 foi um lugar da contradição (centro nevrálgico de uma cidade murada, ao mesmo tempo culto e resistência ao capital, onde a burguesia era obrigada a conviver com a contracultura, com o movimento estudantil e com o terrorismo), nada mais natural que o bairro hoje esteja relegado à obsolescência. Nem é preciso explicar por quê. A vida passa, as pessoas envelhecem. E isso se vê na rua. Charlottenburg é um bairro velho, de classe média alta, acomodado, comercial, convencional e pacato, povoado por burgueses e ex-hippies de cabelo branco. Com a queda do muro, o que era contestatário ou alternativo perdeu a razão de ser, pendurou as chuteiras ou migrou para o outro lado da cidade. Da efervescência dos anos 20 na região do zoológico, narrada nos diários de Christopher Isherwood, resta a comemoração dos torcedores do Hertha BSC, bebendo cerveja e comendo currywurst em frente ao Europa Center em final de campeonato.

Que fazer, senão transformar o passado em estilo e capitalizar a nostalgia? No alto de um prédio em frente ao zoológico, por exemplo, reabilitaram como espaço para eventos corporativos o “lounge” onde pilotos e aeromoças da falecida Pan Am se reuniam quando passavam por Berlim. Os móveis são os mesmos, assim como os lambris nas paredes, os lustres e o carpete. As garçonetes estão fantasiadas de aeromoça. E a reconstituição histórica permite a executivos e publicitários comemorar a festa dos bônus de fim de ano ou uma nova conta da empresa num cenário de filme de época.

Só a Schaubühne, instalada nos confins de Charlottenburg, insiste em prosseguir na contramão. Dínamo cultural nos anos 80, o teatro resiste ao mesmo tempo ao marasmo ambiente e ao culto da nostalgia, com algumas das manifestações mais ousadas da cidade. Volto a falar em teatro (teatro bom, um dos assuntos que dá menos leitura entre quem é a favor de tudo), porque é raro ver uma montagem tão radical como a que Michael Thalheimer fez de “O Poder das Trevas”, peça de Tolstói encenada pela primeira vez em 1902, por Stanisklávski, em Moscou.

Thalheimer construiu uma parede preta, fechando a imensa boca de cena da sala principal da Schaubühne. Um túnel horizontal de cerca de um metro de altura, como um caminho entalhado na parede, corta o palco de uma ponta à outra, a cinco metros do chão, levando os atores, que engatinham com joelheiras, até uma pequena câmara central onde podem finalmente ficar em pé. Os espectadores assistem a tudo como crianças diante de um formigueiro gigante que tivesse sido secionado no meio por uma placa de vidro para permitir a observação do movimento dos insetos em seu interior. Os atores interpretam as misérias de um punhado de camponeses russos, agachados, como formigas indo e vindo pelo túnel, das pontas do palco até a câmara central, onde se amontoam e se entredevoram com palavras em torno da cama de um moribundo. Além das joelheiras, às vezes usam máscaras de pano penduradas como véus sobre o rosto, o que dá um aspecto ainda mais perturbador e sinistro à encenação.

Uma amiga atriz e bailarina, casada com um compositor russo, me diz que vamos ser vizinhos. Vai morar atrás da Schaubühne. O marido não vê a hora de sair de Prenzlauer Berg. O clima da RDA, por mais apagado que esteja desde a queda do muro, ainda o deprime. Ou talvez seja o inverso: o processo de “gentrificação” pelo qual o bairro vem passando nos últimos anos. Berlim é uma cidade para todas as gentes e todos os gostos. Mas, como no resto do mundo, o gramado do vizinho é sempre mais verde. O marido da minha amiga sonha com o Ocidente. Guarda a lembrança de quando o capitalismo era um modo de contestar o modelo do totalitarismo soviético. E os jovens financistas e as celebridades de Prenzlauer Berg, vencedores satisfeitos com suas conquistas e seus carrinhos de bebê, não correspondem a sua memória, nada têm de subversivos nem de contestadores. Só quero ver quando ele chegar a Charlottenburg.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + 7 =

ao topo