O espírito do Natal

O Natal é um momento mágico mesmo: a família branca, patriarcal e heteronormativa se reúne em harmonia (o marido só voltará a bater na esposa e a estupra-la no dia seguinte; mesmo que ela “mereça”, como sempre, hoje é dia de perdoar!); num espírito de caridade cristã (deu até uns trocados à empregada negra e a deixou sair de casa às 19h ao invés que às 21h como sempre – sem pagar hora extra – para que ela também possa curtir o Natal em família); rezando pela paz no mundo, pelos que nos protegem todo dia daqueles marginaizinhos pretos vagabundos lá fora (deus ilumine até essa ralé ai, só por hoje…) e para que finalmente caia esse governo corrupto e safado – de preferência pela mão de imaculados heróis da ética, como Cunha – e o Brasil volte a ser feliz; com o pensamento piedosamente voltado para quem não pode estar lá (até mesmo aquele caçula viadinho – ou aquela filha lésbica, aquele filho traveco… – que, mesmo não estando com eles, é amparado pelo amor da avó ou da tia que o acolhera meses atrás, quando fora brutalmente espancado e expulso de casa); sendo bondosos até com aquela sobrinha petralha (embora não seja do PT, na última eleição tenha votado no PSOL no primeiro turno e nulo no segundo e não se sinta representada pelo sistema político existente… mas esses detalhes são irrelevantes: é tudo a mesma coisa, são todos uns merdas como aquele tal de Chico Buarque) que teve que ir pra ceia da família a contragosto… É, não há como não amar o Natal…

Faltam só a neve fofinha, os trenós e o frio para essa festa que encarna o verdadeiro espírito da família brasileira, que é a cara desta terra seja perfeita. Mas não tem problema: a decoração dos shoppings centers se encarrega de suprir essa ausência.

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