Espontaneidade

Por Francisco Daudt
FOLHA DE SÃO PAULO

“Ah, eu boto mesmo pra fora! Eu estou sentindo a coisa, não estou? Pois então: é a minha verdade. Eu sou muito espontânea, não disfarço que nem muita gente falsa que eu conheço. Não quero nem saber. Isso afasta? Isso magoa? Dane-se! A verdade é mais importante. Eu sou autêntica!”

A psicanálise, com sua influência na cultura, tem culpa no cartório desse espontaneísmo todo. A crença na “verdade por trás das coisas”, e naquilo que se oculta “no fundo, no fundo”, mais a visão reichiana de que “é preciso se livrar das couraças de defesas, e se expor”, tudo isso foi atropelando, passando por cima da boa educação e da cerimônia, do jeito diplomático de
lidar com divergências, que são suavizadores sociais, facilitadores da convivência.

Esses últimos são vistos como “hipocrisia”, “máscaras e disfarces”. Claro que se aproxima da hipocrisia a minha atitude cortês de aturar um espontaneísta desses –só pelo tempo necessário para poder tomar distância sem me fazer notar– porque ofendê-lo de volta seria dar-lhe uma intimidade imerecida.

Never complain, never explain (“nunca se queixe, nunca se explique”), o precioso conselho que Disraeli, primeiro-ministro inglês, deu à rainha Vitória para que ela não concedesse intimidade sem querer. “Quem se explica, ou quem se queixa, abre a possibilidade de debate, uma porta para que invadam sua intimidade.”

Intimidade, esse bem precioso que precisa de muito zelo, carinho e cuidados nessa época de redes sociais, tuíter, uotizap e feicibuques de exposição extensa em frases curtas, que estimulam a reatividade, a inveja e o rancor “espontâneos” junto com um triunfalismo felicíssimo que dá para desconfiar.

Não nego a utilidade potencial dessas ferramentas, mas me parece que ainda estamos na fase de muito ensaio e muito erro, que ainda não acertamos a mão no bom uso delas.

Convenhamos: um máximo de cento e quarenta caracteres não é propriamente um estímulo ao pensamento reflexivo. O mesmo serve para o diálogo pingue-pongue, digitado com rapidez, que está deixando muita gente consumida e viciada em sua aparência de não solidão.

E, afinal, que verdade é essa que surge no espontaneísmo? Será mesmo “a essência” da pessoa, sua “natureza”? Algo menos construído que a educação, a cortesia, a consideração pelo próximo, a diplomacia? Algo mais autêntico (significando algo que não veio de fora, que é próprio da pessoa)?

Levando em conta que a obsessão, a paixão doentia, a compulsão perversa e vários outros sintomas de doenças psíquicas são totalmente espontâneos, posso dizer que o espontaneísmo também traz à tona algo que foi construído e que veio de fora: todos os atropelos e sofrimentos que passamos na nossa infância, que nos feriram um dia e que hoje aparecem como doloridas cicatrizes.

Faz emergir uma história que não foi escrita por nós, e sim a nosso despeito, ao nosso atropelo, sobre a qual nunca pudemos opinar, pois quem a escreveu era mais forte: uma história que nos foi impingida e que agora o espontaneísta quer impingir aos outros… Mas não é assim que se libertará dela. Só a repetirá.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo