Esquadrão Suicida e os vaticínios do mercado

Director/Co-writer David Ayer seen at Open Road Film's Los Angeles Premiere of 'Sabotage,' on Wednesday, March 19, 2014 in Los Angeles. (Photo by Eric Charbonneau/Invision for Open Road Films/AP Images)
Diretor e roteirista David Ayer, 48 anos, tem em sua filmografia sucessos, como Coracões de Ferro e Dia de Treinamento; sua experiência em Los Angeles serve de matéria-prima em suas histórias repletas de ação; refém dos estúdios e de pacote publicitário, até onde um diretor consegue preservar suas ideias em meio aos milhões investidos em um filme cujo marketing é um produto à parte?

O filme derivado dos quadrinhos da DC Comics, Esquadrão Suicida, escancara os problemas da relação entre arte, público e mercado, diagnosticados há anos pelos ressentidos frankfurtianos, Adorno e Horkheimer, ao descreverem impactos da economia que rege os meios de comunicação na cultura, em especial o cinema.

Era uma tentativa de fazer um prognóstico, em meados do século passado, dos caminhos tortuosos da cultura de entretenimento artístico.

A indústria cultural, conceito peça-chave dos teóricos, elabora seus produtos ao gosto do público para oferecer-lhe aquilo que acredita ser o que este quer consumir, de forma a elaborar coisas simples para as pessoas, sem maiores exigências por parte delas, reforçando o gosto mediano, o senso comum.

Eis a controvérsia: o público não é homogêneo e influenciado da mesma forma pelos produtos e por todos os mecanismos insidiosos da comunicação persuasiva. A maioria das pessoas, na verdade, pode nem apreciá-los.

Enquanto os produtores acharem que só importa o que o público espera gostar de ver, os produtos serão apresentados de maneira a reforçar fórmulas de características visuais voltadas ao público que almeja alegria e leveza, por exemplo, ao invés de uma dimensão oposta, sombria e reflexiva.

Não é isso o que a maioria quer, como apontam pesquisas e outras percepções de mercado?

Afinal de contas, o outro estúdio já não oferece personagens mais coloridos e não é isso que tem funcionado melhor na concorrência?

Em detrimento da vontade própria de um diretor, visto na maioria como responsável pelo filme (neste caso, o infeliz David Ayer, aqui chamado de autor), por não conseguir imprimir no filme o que poderia fazer de melhor para expressar uma visão coerente na sua criação, amparada por uma equipe formada por roteiristas, atores, técnicos cinematográficos.

Há controvérsias entre fãs, principalmente no que concerne às mudanças nas adaptações e características de personagens entre as mídias, cinema e Hqs, mas isso é terreno de uma outra discussão.

O que está em jogo aqui é a recepção do produto final dessa indústria.

Da escolha de pormenores formais às possibilidades de recursos dramáticos vistos na narrativa, sobressai algo forjado pela fórmula regida com a equação do mínimo denominador comum para um produto, que pode ser atraente, porém inconsistente como modelo de cinema.

Ao reforçar sentidos e contrastes facilmente reconhecíveis, em vez de nuances mais reflexivas e sutis, o mantra dos executivos ecoa nas obras formatadas ao gosto médio.

Trata-se de um mercado que gira na casa das centenas de milhões por produção, somados à mesma quantia em marketing até começar a ser visto, ou não, pelo público.

Desse jeito, com a perspectiva de faturar mais, as tomadas de decisões dos executivos imperam e o produto imaginado como algo singular pode perder sua sensibilidade dita artística.

Esquadrão Suicida.4Deixo claro que apenas observo as discussões geradas nas interpretações de recepção sobre o filme Esquadrão Suicida, não trato aqui do mérito ou demérito da obra em si, isto é, destaco apenas discursos relacionados à recepção crítica, como público especializado e o espectador comum, para compreender como se constrói essa relação entre obra (afinal, quem é o responsável por ela?) público, crítica e expectativas de mercado.

É curioso notar como um significativo número de fãs pediu, através de um abaixo-assinado, para a maior plataforma agregadora de avaliação crítica de cinema no mundo, o Rotten Tomatoes, parasse de publicar críticas negativas ao filme.

Indico a matéria: http://g1.globo.com/pop-arte/blog/quem-curte-o-blog-de-fa-clube/post/fas-querem-fechar-rotten-tomatoes-apos-criticas-esquadrao-suicida.html

A expectativa criada é tão grande que existe fã nos Estados Unidos noticiando sua insatisfação em um movimento de ação contra a empresa produtora, Warner Brothers, por propaganda enganosa.

Muitas cenas vistas em trailers anteriores não estão no filme.

Este caso não é o único, nem será o último – são vários filmes publicitários e muitos pôsteres dentre outros estímulos publicitários trabalhados para gerar envolvimento com público.

A principal reclamação do fã, neste caso, foi sobre a esquálida presença na narrativa de um personagem bem conhecido da cultura pop, O coringa, dentre outros fatores.

Esquadrão Suicida_2
Modelo australiana Margot Robbie interpreta personagem Arlequina

Esperado como suposto antagonista, e por ter sido visto com sugestiva presença nas peças de divulgação do filme, o coringa vivido pelo ator dublê de cantor Jared Leto, finalmente aparece pouco no produto final.

Além de outras cenas e participações de personagens que foram limados nessa versão.

Alguém aí se lembrou da estratégia posterior de lançamento do produto diferenciado em outras mídias, com a versão do diretor?

Portanto, isso se desdobra em maiores reclamações nos EUA.

Outra sugestão de leitura está aqui: http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-123627/

Isso serve para ilustrar como o aparato mercadológico de divulgação, arquitetados e lançados bem antes do filme, são um caso a parte para análise, pois é o lugar por excelência para observar a simbiose mais que parasita entre persuasão mercadológica e objetos culturais. Mesmo assim, rica em significados.

É interessante rever a história desse contato entre a sétima arte e o mercado, pois o casamento entre publicidade e cinema se renova há mais de 100 anos.

Há tempos é observado o uso de técnicas cinematográficas na publicidade, como também a participação das estrelas dos próprios filmes em comerciais como parte dessa relação.

Até o final dos anos 1950, as marquises dos cinemas expunham títulos dos filmes, além de cartazes pelas ruas e anúncios de jornais formavam o pacote publicitário empregado para divulgar os filmes.

Por outro lado, desde os anos 1970, as técnicas mercadológicas dos filmes alcançaram novo patamar.

O filme Tubarão, de Steven Spielberg, e Guerra nas Estrelas, de George Lucas, estabeleceram algumas das estratégias mais recorrentes.

Não é apenas o produto fílmico em si, desdobrados nos trailers, produtos e objetos derivados dos filmes que cativam às pessoas, mas toda uma relação entre público e marca que se estabelece.

SUICIDE SQUAD
“[…] um significativo número de fãs pediu, através de um abaixo-assinado, para a maior plataforma agregadora de avaliação crítica de cinema no mundo, o Rotten Tomatoes, parasse de publicar críticas negativas ao filme”; Existe um movimento nos Estados Unidos para processar a Warner por propaganda enganosa, pois cenas dos trailers sumiram da versão oficial
Desponta a cultura de fãs, proliferam as franquias de entretenimento que dominam a oferta de filmes no mercado, regula-se um mecanismo de moto-perpétuo na indústria.

Deste modo, os filmes e suas campanhas publicitárias transformam-se em dois produtos oferecidos pela indústria de entretenimento artístico.

Fato que registra um forte aumento nos custos de produção, com a proliferação das superproduções, delimitadas por explosivas campanhas de marketing.

Consumimos não apenas as próprias narrativas desse mercado cultural, mas também pôsteres, trailers, informações sobre a produção em andamento e fatos da vida das estrelas.

Agora, lembremo-nos da preocupação dos intelectuais europeus que vaticinaram sobre a promiscuidade entre mercado e cultura.

Parece que eles tinham razão, evito admitir, pois é algo recorrente e indissociável o que vemos nessa relação que condiciona boa parte do consumo desses produtos que circundam sobre os valores estimados pelo mercado.

Professor de comunicação social. Tenho maior interesse em cinema, cinefilia, crítica cultural, literatura e séries de tevê. Meus estudos são relacionados às convergências midiáticas, publicidade, artes e design. [ Ver todos os artigos ]

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