Essas humanidades

Por Pablo Capistrano
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Esse ano eu completo doze anos de sala de aula e confesso a você, leitor de boa fé, que já cansei de ter que justificar o motivo pelo qual não desisti de ser professor de filosofia, a despeito de ter concluído, com muito sacrifício, um curso de Direto na UFRN. Não costumo mais a responder a perguntas do tipo: “filosofia serve pra quê?”.

O fato é que uma resolução do NCE (Conselho Nacional de Educação) estabeleceu a necessidade de se manter disciplinas de filosofia e sociologia em todos os anos do ensino médio e mesmo assim, a despeito desse comando legal, eu e meus colegas sociólogos ainda temos que justificar a pertinência e a importância de nossas disciplinas, como se precisássemos a todo tempo justificar nossa própria existência.

Apesar de ser esse um exercício doloroso não vou me omitir de argumentar a favor daquilo em que eu acredito. Mas, para não ser acusado de exclusivismo, não vou falar apenas sobre a filosofia. Queria apenas que você fizesse um exercício comigo e pensasse só um pouquinho como seria o mundo sem as humanidades.

Sem as humanidades teríamos muita dificuldade em entender porque tanta gente se aglomera em cidades monstruosas, sujas e poluídas e tanta terra é ocupada por tediosas e monocromáticas culturas agrícolas. Não saberemos dizer o motivo pelo qual uma garota de classe média se prostitui para comprar uma bolsa de marca, ou porque um pai de família morre num semáforo com um tiro na cabeça disparado por uma arma na mão de um garoto de 15 anos. Não entenderíamos os motivos que levam uma mãe a alugar os filhos em troca de cinco pedras de crack, ou porque a gente deve aumentar o volume do carro quando o rádio toca Sgt. Peppers dos Beatles e mudar rapidamente de estação quando começam os primeiros ruídos da “Eguinha Pocotó”. Não teríamos ideia do motivo pelo qual a escola do filho do juiz tem lousa eletrônica e a do filho da empregada não tem carteiras, quadro de giz ou merenda.

Não saberíamos que muitas vezes a expressão “pinto duro” pode ser interpretada simplesmente como a afirmação da existência de um cadáver aviário no quintal, ou que, na maioria das vezes, aquilo que a gente fala, não é entendido como a gente quer pelas pessoas que nos escutam. Não teríamos ideia de porque certas notícias não saem no jornal nacional e outras são tão neuroticamente repetidas no noticiário. Não poderíamos contemplar em toda intensidade a grandeza de um verso de Dylan ou mesmo entender o motivo pelo qual Pinto do Monteiro, mesmo sem nunca ter tido uma irmã ministra de estado, pode ser melhor do que Chico Buarque.

Porque um cara calado entra em um colégio e fuzila doze crianças? Porque um jovem torcedor de futebol é espancado até a morte na saída de um estádio? O que faz com que Machado de Assis seja um gênio e Paulo Coelho um simples best seller?

O que faz um vegetariano, que não bebe, não fuma, que é amante dos esportes e da arte condenar seis milhões de judeus à morte? Por que ainda somos racistas, sexistas, sedentários, homofóbicos, consumistas e intolerantes mesmo diante da obviedade que nada do que é humano pode nos ser estranho? Por que o amor é tão ambíguo? Por que a morte ainda nos assusta? Por que um marido mata a esposa por ciúmes enquanto outro viaja para São Paulo com a mulher para curtir a noite em um clube de swing? Por que a dor nos acompanha apesar das farmácias, dos bares e das igrejas estarem sempre lotadas? Por que existem mais cadeias do que livrarias no Brasil? Por que, a despeito de toda técnica, de toda ciência, de todo conforto material, mais e mais pessoas anseiam desesperadamente por um sinal de Deus?

Sem as humanidades, talvez o mundo continuasse do mesmo jeito que ele sempre foi. Com a brutalidade das coisas tecendo seu curso, com as incertezas da vida nos assombrando. Mas nós, solitários humanos, confinados em nossas próprias complexidades, em nossos desconcertantes paradoxos, seriamos mais parecidos com as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.

Estaríamos soltos no imediato natural, sendo coisas entre as coisas, automaticamente ligados ao mundo, mas profundamente distantes de nós mesmos.

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