“Esse papo de geração babou, sabe? É antigo”, diz Roberta Sá

A cantora Roberta Sá, que lança o CD "Segunda Pele"

Foto: Gui Paganini/Divulgação

Por Marcus Preto
FSP

“A chegada de uma nova geração não significa a morte criativa da outra. Tudo soma. Milton, Gil, Caetano, Chico continuam criando coisas maravilhosas.”

Trazendo para São Paulo a turnê de seu novo álbum, “Segunda Pele”, a cantora potiguar Roberta Sá conversou longamente com a Folha sobre música, público, crítica e influência. A entrevista foi feita por e-mail, em muitas sessões de vai e vem.

O show acontece nessa sexta-feira (4), às 22h, no HSBC Brasil (r. Bragança Paulista, 1281, tel. 0/xx/11/5646-2120).

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Folha – A geração a que você pertence trouxe, na metade dos anos 2000, o samba de volta para o centro do pop brasileiro. Você consegue detectar em que momento o “meio de comunicação” mudou? Em outras palavras: sabe puxar o fio que tornou, de novo, Cartola uma referência mais forte para nossos colegas de geração do que, digamos, David Bowie ou Smiths?

Roberta Sá- O meio de comunicação é o mesmo: música. Onde a pessoa nasce, como ela foi criada, quem ela encontra na vida, tudo isso forma e transforma uma identidade musical. Talvez minha geração tenha percebido uma necessidade de ajudar a reconstruir a auto-estima do público jovem pela música brasileira e resolveu vestir essa camisa. Acho que foi um momento de restaurar esse amor pela música brasileira e trazer os olhos e ouvidos do público jovem pra música nacional.

Pode ter muito disso. Mas pensei que também pode ter um tanto daquele mecanismo humano de procurar sempre um movimento de negação ao que está estabelecido. Até para não ficarmos parados no mesmo lugar. Será que tem disso?

Mas não há negação ao que está estabelecido. O que está estabelecido acolhe a novidade e cria a partir dela e com ela. Não temos pra que temer a estagnação se levarmos em conta a velocidade em que o mundo anda e com a qual a informação chega.

Eu entendo e concordo quando você diz que uma coisa não precisa deixar de existir para dar lugar a outra. Nunca precisou. Mas as estéticas costumam se revezar no foco principal. E, tenho a impressão, o samba mais “puro” (não misturado) saiu do centro das atenções do pop. Ou, pelo menos, não está tão em evidência como esteve há dez anos. Vê assim também?

Acho que o samba está mais forte do que nunca. É uma loucura como o ele fala com a população. E acho importante que exista uma parte mais radical que o proteja, assim como acho fundamental que exista quem o desafie e questione. Concordo que as estéticas se revezam no papel principal, o nome disso é modismo, não? Talvez o que você queira dizer é que o samba não está mais na moda. Pra quem fez samba isso nunca importou, porque identidade é muito mais importante e interessante do que qualquer tipo de modismo.

O momento atual já é outro. O samba já quer se misturar de novo, cada vez mais, e até se esconder de vez em quando. Caetano fez um disco que representa bem isso, “Cê”, em 2006. E mesmo seu disco novo é mais pop do que os anteriores, eu acho. Considero esse um movimento natural da geração –até Teresa Cristina, uma das primeiras a representar a revitalização da Lapa, busca isso agora. De novo: você detecta em que momento o “meio de comunicação” mudou?

Meu disco novo é mais pop sim. Mas, ao mesmo tempo, tem uma sofisticação nos arranjos do Mário Adnet, que é da praia da bossa-nova; do Humberto Araújo, que tem uma linguagem de gafieira; e o Campello amarrando todos esses universos. Mas é tudo muito mais simples do que parece. Uma coisa não precisa parar de existir para dar lugar a outra. Eu continuo pensando em fazer um disco com os sambas dos compositores contemporâneos do gênero. Acho que o cavaco, o pandeiro, o tamborim, o 7 cordas, bem tocados e sem programações, têm um valor inestimável. O samba é um patrimônio. Eu tive uma necessidade particular de me afastar desse universo porque ainda não estava pronta pra mergulhar novamente nesse mar (dediquei dois anos da minha vida falando e tratando do específico universo de Roque Ferreira). Precisava falar de mim, das minhas descobertas, preocupações e das imagens que estão a minha volta. Eu não sou do mato, embora o mato e o mar façam parte das minhas melhores lembranças. Então, preciso voltar pra esse lugar emocional de vez em quando. Mas sou um ser urbano que viaja o mundo através da música. Não tenho como ignorar. Quando vejo algo que não conheço, quero logo encontrar meios de compartilhar com meu público. Eu sou uma pessoa instigada. Acho que o que a gente tem, que é uma vantagem, é uma liberdade enorme pra criar o que a gente quiser. Misturar tudo, ver se dá certo (ou não). A tecnologia permite isso, que a gente experimente misturas que podem ser bem interessantes. Mas não podemos perder o elo. Sem raíz a planta morre. O Caetano, que você citou, veio com essa proposta da universalidade desde o começo da história dele e ele continua fazendo isso. E quando ele regrava uma pérola do cancioneiro nacional, de maneira tradicional ou moderna, é matador. Porque ele é maravilhoso, canta cada vez melhor, e pronto. E no fim, é a qualidade do trabalho que importa. Resultado: arrepiou o couro cabeludo? Te fez pensar? Vontade de pular? De rir? De chorar? Cumprimos nosso papel. Seja com um sintetizador, ou com uma cuíca.

Como a geração paulista tem batido aí no Rio? O som de meninas como Tulipa e Tiê, de meninos como Jeneci e Romulo Fróes conversam com a música carioca?

Acho que o Rio também está mais aberto pra o que vem de fora daqui, o que é muito bom. Acho que a chegada de músicos Pernambucanos em São Paulo fez a diferença, rolou uma mistura de referências, de histórias de vida, muito interessante. Acho que isso reflete uma abertura maravilhosa de São Paulo com o Brasil. Em tudo. Quando vi o China na MTV, apresentando programa com sotaque pernambucano pensei: “Que máximo, finalmente o Nordeste com a representatividade que merece numa televisão que fala de música”. O Nordeste é uma pedra fundamental na cultura musical desse país. Acho que essa história de bairrismo está se diluindo e cada vez fica mais óbvio que os encontros é que fazem a coisa acontecer. Em Recife, no Rio, em Londres, em São Paulo Meu baixista, o André Negão, tava falando isso hoje: “Música não tem fronteira. Por mais que tentem colocar, não tem e ponto”.

São Paulo andava muito fechada para o Brasil antes disso? Qual sua visão, aí do outro lado da Dutra?

Nunca tive essa sensação. Pelo menos não do público. Mas São Paulo é uma metrópole. E acho que, em termos de produto de música, coloca o nível lá pra cima, porque o pacote é interessante: música, cenário, vídeo, moda, lugar pra tocar, som decente Tudo é mais fácil de produzir aí. Isso é inegável. Mas quando eu cheguei por aí, a música nordestina não tinha vez, por exemplo. Então, vejo que São Paulo, junto com o resto do mundo, está percebendo como a brasilidade é moderna. Percebo um olhar diferente para o público mais popular do Brasil, o que acaba refletindo na música que é feita aí porque, pra entender o público, a gente tem que entender a música que ele consome. Eu vejo esse interesse tanto dos artistas quanto da imprensa daí. E isso mostra um olhar que agrega e não mais exclui.

Você é um artista que se destaca, em termos de projeção popular, da maior parte de seus colegas de geração. Mas ainda é muito mais reconhecida no Rio do que fora do eixo, inclusive São Paulo. Existe um trabalho para extrapolar essas fronteiras? No que isso é importante?

O trabalho é ir. Fazer show. Voltar Criar uma história emocional e verdadeira com cada cidade. O Rio é o lugar onde eu moro, é natural que eu seja mais reconhecida aqui. Claro que em uns lugares cheguei com mais força. Mas eu sou muito satisfeita com meu público, inclusive em São Paulo. Ano passado, fui a Manaus e vi que tenho um público lá. Em Belém tem uma galera, também. Fiquei surpresa. Noto muita gente curiosa, querendo me conhecer. A internet tem sido um bom termômetro. E eu gosto dessa velocidade. Tô chegando. E quero chegar. É importante levar minha música pra todos os cantos do país, porque assim entendo um pouco melhor da minha cultura e, por consequência, um pouco mais de mim. O Yamandú Costa um dia falou que construo minha carreira com a mão. Gosto dessa imagem.

Bonita imagem. Significa construir a carreira aos poucos, pensando cada passo? Porque vejo uma consciência lógica trabalhando por trás de cada disco seu. Você não me parece aquele tipo de cantora que produz com a inconsciência, e, só depois de tudo pronto, pensa sobre o que fez. Estou errado?

Significa dar o sangue pra cantar a música que eu acredito. Significa trabalho braçal, envolvimento, comrpomisso Quando vou fazer um disco, é quase um transe. A criação me toma. Mas, ao mesmo tempo, desde que percebi o alcance da minha música e do meu nome, tenho responsabilidade sobre aquilo que produzo.

Embora pouco tempo nos separe deles, já somos muito diferentes de artistas como, por exemplo, Lenine e Pedro Luís. É possível identificar um traço comum entre os artistas surgidos na música brasileira a partir dos anos 2000? Uma estética, um espírito, um qualquer coisa que os aproxime?

Artistas como Lula Queiroga, Pedro Luís e Lenine permitiram que a gente pudesse existir. Esse mérito é deles. Eu lembro a primeira vez que ouvi “Olho de Peixe” [1983, Lenine e Marcos Suzano], “Astronauta Tupy” [1997, Pedro Luís e a Parede], “Baque Solto” [1983, de Lenine e Lula Queiroga]. São discos históricos. E são artistas inclassificáveis: o cara mistura samba com rock com maracatú, o que esse cara faz? Isso pode? Em que lugar da estante de discos eu vou colocar essa galera? Acho que a nossa geração herdou essa pluralidade, estamos cada vez menos dentro dos rótulos e tem gente que não se conforma, né? Quer rotular de qualquer jeito. Quer colocar um carimbo na sua testa. Acho que os compositores do Brasil carregam o peso de virem depois de Gil, Caetano, Chico, Tom –que são realmente geniais. Mas a roda gira, a gente precisa continuar criando. Isso não pode virar uma prisão e sim inspiração. Pra geração do Pedro, do Lenine, acho que foi até mais puxado e acho que eles abriram o caminho pra que a gente pudesse fazer o que a gente faz hoje. Eles já são referência. E o espírito em comum é a liberdade.

Muito boa essa visão a respeito da geração 90. Também considero esses caras –e outros, como Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Chico César etc.– os responsáveis pela ponte entre aqueles anos 1980 em que o rock comandava e os 2000 em que o samba voltou à tona. Foram desbravadores. Mas pouca gente da geração 2000 dá esse crédito a eles, notou? Acho que essa ficha ainda não caiu.

Acho que, como existe uma proximidade de gerações e eles são todos muito agregadores, parceiros, então talvez haja uma dificuldade de enxergar o papel e a importância dessas pessoas na música popular brasileira. Seria legal se minha geração reconhecesse isso. Mas percebo que algumas pessoas estão mais preocupadadas em serem a geração de ouro e eu acho que esse papo de geração babou, sabe? É antigo. O que determinha o fim do tempo criativo de uma pessoa é a morte. E se as pessoas estão mais saudáveis, vivendo mais e com mais qualidade de vida, o tempo dela –portanto, sua “geração criativa”– não aumentaria?

A música de nossa geração está à altura da tradição da MPB, que já teve Jobim, Cartola e Caymmi e ainda tem Chico, Milton e Caetano?

Acho que isso a gente só vai saber depois. Nem acho que a gente deva pensar nisso, porque isso trava a criação. E nós vivemos num outro momento. Quando o Caetano e o Chico chegaram, o Caymmi ainda estava vivo e produtivo. Quando os Novos Baianos chegaram, depois [de Caetano e Chico], continuaram cantando Caymmi. Hoje, o Caetano canta música do Moreno e continua tão inventivo quanto antes. E eu ainda canto Caymmi e quero cantar pra sempre, porque a música boa é eterna. A chegada de uma nova geração não significa a morte criativa da outra. Tudo soma. Milton, Gil, Caetano, Chico continuam criando coisas maravilhosas.

Mas essa é a questão: eles criaram (e ainda criam) coisas tão maravilhosas a ponto de colocar em cheque a validade do que é produzido pela nossa geração? O que sobrou pra gente fazer, depois que tudo já foi feito?

Todo o resto. O que virá. Um mundo de possibilidades. Eu penso muito na formação do público pra música Nacional. Acho esse um papel importante de quem está chegando. Criar essa ponte pro público chegar mais perto desse universo maravilhoso e popular que foi colocado como cult. O povão acha que não é pro bico dele. E é. Minha busca é unir essas pontas. É popular com o acabamento impecável, poesia num nível que seja compreendido, mas que seja interessante também pra quem entende do assunto. Olha só, quanta coisa pra pensar. A gente tem muito o que somar.

E como a gente faz para seguir essa “linha do tempo” (pra não falar em “linha evolutiva”), mantendo o nível dessa tradição, mas sem repeti-la?

O Yamandú Costa, o Hamilton de Hollanda, têm a minha idade. São gênios de seus instrumentos e conseguiram um sucesso de público num tempo em que a música instrumental é pouco valorizada. Mas nunca vi uma reportagem que mostrasse o verdadeiro panorama da música popular brasileira hoje, incluindo eles. Nós temos novos desafios. Acho que fazer o público voltar a ouvir música é o maior deles. Pra mim, a genialidade dos artistas contemporâneos mora aí, além do virtuosismo.

Em comentários de blogs de música brasileira, sempre leio fãs seus ressaltando seu tino para escolher repertório. Queria que você contasse a maneira como escolhe as coisas que vai gravar.

Tem música que quase ninguém conhece e eu considero inédita. Tem canções que ultrapassam as gerações. Eu preciso identificar o sentimento da canção para poder canta-la. Eu tenho meu jeito de escolher repertório e é difícil de definir como eu faço, porque é muito natural. Já estou fazendo agora enquanto respondo seu e-mail. Penso obsessivamente qual o caminho que vou seguir pro próximo disco e aí vou falar com os compositores, no caso das inéditas, ou ouvir música até apaixonar, no caso das regravações.

Entendo que seja importante para a intérprete criar uma relação com a canção para fazê-la bem. Mas me pergunto se, em vez de escolher aquelas por que se apaixonou, essa intérprete não poderia cantar coisas que a incomodam, numa relação amorosa ao contrário. Um pouco de conflito não é necessário para fazer arte?

Mas é justamente isso o que eu faço. Escolho meu ponto de vista sobre aquilo que me incomoda, ou que me tira do lugar, o que eu vi, o que vivi, através de uma canção pela qual me apaixonei. Um disco é onde coloco minhas reflexões mais profundas, sobre a música, sobre o ser humano, seus desejos, suas falhas, sobre o amor. Meu meio de comunicação, minha salvação, meu elo com o mundano e com o divino, é a música. Tudo o que penso está disponível nos meus discos. Mas o ouvinte tem que querer ler nas entrelinhas. Aí a gente entra noutra discussão, porque a música faz parte a vida de cada pessoa de uma maneira diferente. Eu estou dizendo tudo que canto.

Tem gente que reclama de reclama que os novos compositores paulistanos são muito “fofos demais” e que os cariocas são “comportados (obedientes) demais”. Pessoalmente, acho que a coisa é mais complexa, mas consigo entender a crítica. O que você pensa disso?

Não gosto de generalizar. Cada um tem uma qualidade. Achei isso uma bobagem. Um jeito de pensar meio preconceituoso.

Preconceituoso, claro. Mas, como não quero que a questão vire um tabu, tentei detectar o que, generalizando, incomoda essas pessoas. Acho que é um suposto comportamento politicamente correto, poético e musical, que se sobressai na produção de um número considerável de artistas do nosso tempo –chamados aqui, genericamente, de “paulistas fofos” e “cariocas comportados”. Como é um tema recorrente, achei importante te perguntar isso, mesmo que fosse apenas para provocar uma resposta como a que você deu.

Todo brasileiro é técnico de futebol e crítico de música. Continuo achando que quem pensa isso precisa conhecer outras coisas. Tem pensador de música que se acha dono do artista. Que quer mandar na inspiração do artista. Existe tanta coisa interessante disponível que acho um pensamento redutor, separatista e até invejoso. O que eu, como intérprete, busco para cantar são músicas que sejam ricas harmonicamente, com uma bela melodia e com uma letra atual. É esse encontro da poesia contemporânea com a música que forma uma grande canção, que é tão raro de achar.

Quais são os maiores equívocos que a imprensa em geral comete em relação aos artistas pós-queda da indústria?

É achar que seus eleitos são os eleitos do público. Pode ser que sim, mas não necessariamente. O público também tem sabedoria e tem muitas ferramentas pra escolher o que melhor o traduz.

Explica melhor esse “achar que seus eleitos são os eleitos do público”. Você está falando da crítica ou da imprensa em geral? É que acho muito raro os artistas incensados pela crítica serem os preferidos do grande público –e nem é por uma excentricidade dos críticos: uma das principais funções desses jornalistas é jogar luz sobre a novidade, sobre gente que está acontecendo no subterrâneo e o público nem sabe. Já para a imprensa em geral, esses pequenos artistas nem existem. Para eles, conta quem faz mais sucesso com o grande público –na maior parte dos casos, são artistas com status de celebridade ou fenômeno, como Ivete Sangalo e Michel Teló (e aqui não vai nenhum juízo de valor sobre a música deles). Por isso eu queria entender melhor o que você está apontando. E acho o tema relevante, já que a relação entre artista e imprensa, que sempre foi importante para a música, está em acelerado processo de mudança.

Vou reformular minha resposta: Pra mim, o maior equívoco é achar que tudo o que é alternativo é bom, e que tudo que faz parte das grandes gravadoras é o demônio. É não mostrar pro público que por trás do status de “cool” e “indie” também existe um mercado poderoso. É não respeitar todos os universos como uma forma legítima de manifestação artística. Por fim, é não querer enxergar o Brasil abrangente e plural como ele é.

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