Esse tal direito de ser feliz

Antígona, uma das personagens mais fortes da literatura ocidental, confrontada com a inevitabilidade de sua própria execução por ter desrespeitado o decreto do seu tio e rei de Tebas, Creonte, responde: “Sabia que teria de morrer um dia, como ignorá-lo, sem que para isso precisasse de seu decreto. E se morrer antes do tempo, tanto melhor para mim, porque quem, como eu, vive no meio de desgraças sem conta, como não hei de considerar a morte um bem desejado? Por isso o destino que me reservas não me causa dor alguma”.

Há um desconcertante sendo de realidade na fala de Antígona. Não apenas porque ela traduz muito bem a condição dos personagens da chamada trilogia tebana de Sófocles, marcados pela maldição familiar que arrastou Laio, Jocasta, Édipo e seus parentes em um turbilhão de tragédia e sofrimento; mas também porque a fala da heroína trágica apresenta uma noção muito cara ao homem antigo: a percepção de que a felicidade ou é uma circunstância da sorte ou uma prática que exige muito esforço e uma boa dose de auto sacrifício.

Dificilmente um homem antigo poderia compreender alguém que demandasse algum suposto “direito de ser feliz”. O que significaria esse direito? Contra quem ele deveria ser interposto? Contra os deuses?

Sem chance.

Os deuses pouco se lixavam para o que os humanos sofriam e só intervinham mediante algum tipo de barganha (devoção, fé, merecimento ou macumba, não importa, há sempre algo dado em troca do auxílio divino). Essa noção estrutural da felicidade tomada como acaso, nos legou toda uma tradição de pensamento filosófico que nos oferecia técnicas para suportar as adversidades da existência e as fatalidades do destino. A arte de viver implicava a construção de uma força psicológica necessária para suportar as adversidades e enfrentar desgraças previsíveis, como pestes, guerras, escravidão e violência.

Esse quadro modificou-se radicalmente quando as revoluções modernas eclodiram no horizonte do ocidente.

Em 1776 os revolucionários liberais norte americanos colocaram na declaração de independência a ideia de que o Criador havia dotado todos os homens de “certos direitos inalienáveis”, entre eles “a vida, a propriedade e a busca da felicidade”. Para quem não é muito afeito ao jargão jurídico é importante lembrar que um “direito inalienável” é um direito que você não pode negociar; ou seja, um direito do qual você não pode abrir mão.

A ideia liberal que eclode na modernidade subverte completamente a intuição fundamental que a condição humana impunha ao homem antigo. A felicidade não é mais uma filha do acaso ou da fortuna (como pensava Sêneca, por exemplo); ou resultado de uma longa e disciplinada prática de virtudes (como imaginava Aristóteles). A felicidade é um objetivo viável. Uma imposição ética posta aos homens por um Criador que nos imbuiu da tarefa de gozar a própria vida. Um Criador que nos impôs a labuta de curtir a existência; de dedicar nosso tempo na terra em busca de um regozijo que atravessa o nosso horizonte existencial como um produto a ser alcançado em uma prateleira de uma gigantesca loja de departamentos planetária.

Foi essa modernidade liberal que construiu a ideia de que ser feliz é uma tarefa ética e política. A utopia posta na declaração de independência norte americana (o “manifesto comunista” dos liberais) é a conquista de uma ordem social que garantiria o direito sagrado de todo cidadão buscar a própria felicidade.

A terra prometida liberal nasce dessa utopia política, fruto de uma ideologia complexa e articulada com teses metafísicas, regras éticas, modelos econômicos abstratos e um programa político que se propõe a expressão da natureza humana (como protagoniza toda cartilha ideológica que se preze, diga-se de passagem).

Filha da modernidade iluminista, do racionalismo cartesiano, do humanismo cristão e do capitalismo industrial, a crença de que somos obrigados a buscar uma felicidade viável, presente de um Criador que nos presenteou com uma obrigação fundamental de auto realização (travestida de direito inalienável) sublimou o sentimento trágico da vida, tão caro aos antigos e abriu caminho para o estranho deserto existencial dos últimos três séculos, que nos ofereceu como resíduo de sua experiência, por um lado; o horror econômico do mercado e por outro, o terror político do Estado.

Como é possível que a experiência moderna de todas essas revoluções que ajudaram a criar o século XXI tenha produzido tanto mal estar? Esse desconcertante espanto obriga o pensamento a retornar sobre as questões que gestaram essa já velha modernidade. Precisamos de um novo esforço arqueológico para recapitular essa história e saber melhor como e porque chegamos aonde chegamos.

ILUSTRAÇÃO: Jan Steen, The Dancing Couple, 1663

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito do IFRN. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 20 de Junho de 2016 10:09

    Salve Pablo Capistrano.
    A turma do S.P. fez um golaço mais uma vez.

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