Esses adoráveis vagabundos

Apresentação teatral  no Ocupa MinC em Natal

“Não se trata de escapar estupidamente da responsabilidade sobre as contas que não fecham. Mas também não é possível ignorar a destruição sistemática de toda e qualquer forma de humanidade e solidariedade: como Shylock em O mercador de Veneza, os bancos e os credores cobram impiedosamente a libra de carne viva de quem não pode saldar a dívida.” (Nuccio Ordine, in “A utilidade do inútil: um manifesto”, ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2016).

Não está claro, ao menos para mim, que economias aparentemente fáceis e diretas quanto a itens relativos à cultura e à arte, baseadas unicamente no critério do paupérrimo utilitarismo aliado à ideia de lucro e traduzida em valores monetários e falsamente políticos, possam explicar que um governo açodado e insensível se embrenhe em arriscadas tarefas exterminantes e que tome decisões contrárias às experiências e aos dados já confirmados positivamente a favor da sociedade criativa.

Ficou evidenciado o grande equívoco quando esse novo governo, com caráter de impostura confirmada e construída através de artifícios jurídicos, teve que voltar atrás rapidamente e restaurar a existência de um Ministério da Cultura dotado de autonomia com relação ao Ministério da Educação, atualmente dirigido por um tal Mendonça Filho, ou Mendoncinha, para ficar ainda mais claro o tamanho colossal do erro.

Nem tudo pode ser medido em números, em cifras. E tenho cá as minhas dúvidas se os números também não favorecem mesmo o forte e decisivo posicionamento dos artistas, servidores e autoridades reais e orgânicas do mundo da cultura. É evidente que a cultura nos traz divisas monetárias e simbólicas, traduzindo-se em valores humanos elevados para o país, ainda mais quando é um país com as características de diversidade tão marcante, como é o Brasil.

Em recente manifesto citado na epígrafe – que todos deveriam ler, principalmente os representantes dos governos – o professor Nuccio Ordine, que profere aulas na Universidade da Calábria e em várias partes do mundo, mostra que há fortes objeções ao utilitarismo, que se baseiam em valores e em direitos fundamentais humanos, firmando-se a convicção de que nem tudo é valorado economicamente.

No caso da decisão do fechamento do Minc ou do seu atrelamento ao Ministério da Educação, essa maneira de tratar dos temas correlatos a partir de uma “teoria dos vasos comunicantes” parece conter alguma lógica, mas não se sustenta diante da realidade da autonomia entre as formas de saberes. Nesse caso específico, não tenhamos dúvidas, as coisas devem ser separadas para que possam andar juntas.

A educação pressupõe um tratamento básico da informação, que será aperfeiçoado a partir da vivência transformadora e questionadora advinda da cultura e da arte. Ambos os conteúdos devem se basear no princípio da liberdade, mas é evidente que um nos traz o repertório dos saberes e o outro nos traduz e amplia.

Ademais, quando se busca tolher as práticas dos artistas e fomentadores da cultura, chamados de vagabundos e desocupados por alguns desavisados e “pacatos” cidadãos de bem e pretensas autoridades, o que se está buscando de fato é a manutenção de um quadro estanque e pouco receptivo às mudanças e transformações que somente chegam até a sociedade através dos olhares e condutas irreverentes e até mesmo subversivas (no melhor sentido) dos artistas.

Sob esse prisma, foi bom saber e ter a confirmação de que os nossos queridos artistas, adoráveis “vagabundos”, com suas presenças ousadas e corajosas, têm mesmo botado o bloco na rua, botado para reabrir ministérios e mistérios artísticos, que vão pintar cores múltiplas por aí, para que não sejamos esmagados por uma nova-velha realidade embotada, cinza e triste.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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