Esses loucos fotógrafos do Beco da Lama

A veia nevrálgica cultural de Natal é o Beco da Lama, onde a culta raiz está sempre sendo exposta para todos com manifestações poética e visuais dos seus frequentadores. O pai de todos os becos do mundo já foi cantado em músicas pelos cantantes, versado em sonetos pelos poetas, pintado em quadros por vários artistas plásticos, mostrado em vídeo/documentário pelo cineasta Carlos Tourinho, e muito fotografado pelos loucos varridos da imagem com suas câmeras invocadas.

Numa de suas crônicas na coluna “Acta Diurna”, Câmara Cascudo já destacava a chegada de Manoel Dantas ao Beco da Lama com sua “inseparável Rolleiflex”, vindo do Royal Cinema, por volta de 1920. O professor, juiz de direito, jornalista, escritor, historiador e etnógrafo, Manoel Dantas, foi o primeiro fotógrafo, genuinamente potiguar, a registrar os aspectos urbanos de Natal e do Beco da Lama, no início do século retrasado.

Nascido por trás da Igreja do Galo, onde as Laranjeiras fazem molduras para uma foto do pôr do sol no Potengi, me criei vendo a produção poética/visual das figuras becodalamenses que fizeram história no “quadrilátero da maledicência” (como é chamado, a boca miúda, as adjacências do Beco da Lama). Como xarias assumido, filho da Cidade Alta, convivi com vários fotógrafos que registraram as histórias do Beco da Lama.

Conheci o fotógrafo Rodrigues, um boêmio que retratou o Beco nos anos 70 e 80, além de fotografar personagens inesquecíveis como o poeta Bosco Lopes. O retratista Valdemir Germano manteve um estúdio e laboratório fotográfico no Grande Ponto natalense por mais de 60 anos, mas não fotografou o lado urbano do Beco. Seu Valdemir fotografou personalidades como Newton Navarro e o próprio Câmara Cascudo. Hoje, seu Valdemir está com sua objetiva aposentada.

Com a câmera analógica em mãos, gastando muitos filmes em branco e preto, Lenilton Lima é considerado o “Paparazzi do Beco” pelos registros históricos do Beco da Lama e pelos retratos que fez de seus habitués. Suas objetivas revelaram o Beco da Lama para o mundo ao longo dos últimos 20 anos e continua atuante. O fotógrafo macaibense Rodolfo também registrou as festas literárias no Sebo Vermelho durante muitos anos até seu falecimento.

O fotojornalista João Maria Alves tem um grande acervo fotográfico do Beco da Lama, desde os anos 1980. Além de boêmio, João Maria é daqueles fotógrafos que não deixa a câmera em casa, que está pronto para o clique decisivo. Outros repórteres-fotográficos que também registraram o Beco da Lama e toda efervescência cultural de Natal dos anos 60, 70 e 80 foram: Marco Polo, Argemiro Lima, Paulo Saulo e Carlos Lira.

Os famosos fotógrafos natalense Jaecy e Luiz Grevyforam os pioneiros em fotografar Natal, criando os primeiros cartões postais da cidade, inclusive com fotos aéreas, nos anos 30, 40 e 50. Porém, não há registros que eles apontaram suas lentes para o Beco da Lama, apesar de ter fotografado alguns artistas da época que frequentava o lugar. Requisitado para fotografar festas da alta sociedade natalense, o boêmio e lendário fotógrafo Dany Cooper apreciava fotografar de perto a alma do Beco da Lama.

Nos últimos 20 anos, as ações da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba) sempre tiveram um fotógrafo para registrar o rega-bofe cultural no Beco da Lama, como o “Proatodomundo – Festival Gastronômico do Beco”, o “Carnabeco – Carnaval Fora de época do Beco”, “Cabaré Night Beco”, “14 de Marco – Dia da Poesia no Beco”, entre outras festas boêmias.

Nesses tempos modernos das câmeras digitais, onde os frames são mais abundantes, há mais retratistas andando pelo Beco da Lama e clicando. Se alguém sentar para tomar uma cerveja nos botecos do Beco, pode se deparar com fotógrafos do calibre deKarl Leite, Rodrigo Sena, Valdecir de Oliveira, Jailson Fernandes, Vlademir Alexandre, Teotônio Roque, Richardson Santana, Adrovando Claro, Ivanísio Ramos, Moura Neto, Henrique José, Antônio Delirius Manso, Elias Medeiros, Venâncio Pinheiro, Canindé Soares, Tertuliano Aires e tantos outros que estão registrando o Beco da Lama para a posteridade.

Não há registro de mulheres fotógrafas no passado do Beco da Lama. Hoje, porém, podemos ver as fotos da dentista Rhovani Bezerra, da poeta Civone Medeiros e da produtora cultural Ju Ataíde, que fotografam com emoção as cenas do Beco. Apesar de não atuarem no mercado como profissionais, o poeta, jornalista e artista plástico, Eduardo Alexandre (Dunga), e o atual presidente da Samba,Tarcio Fontenele, são os retratistas “oficiais” do Beco da Lama hoje em dia, dando continuidade a história visual do Beco da Lama dentro de uma sociologia da imagem, tendo a fotografia como condutora e os fotógrafos como protagonistas dessa história.

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Rhovani Bezerra 28 de Abril de 2016 3:52

    Excelente pesquisa sobre a fotografia no Beco da lama , obrigada pela citação como fotógrafa amadora que registra o centro cultural de Natal.

  2. Anchieta Rolim 28 de Abril de 2016 16:26

    Massa!

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