Estamira e As Catadeiras de Dorian Gray

No mês de Maio – Maria na palma da minha mão. Lembro Estamira (foto) e de todas as mulheres. Principio e razão de tudo. Sant´Anas a nos livrar dos arengueis da vida. Lembro também de “As Catadeiras”, poema escrito e desenhado pelo poeta do pincel e do grafismo Dorian Gray Caldas. Um dos mais belos poemas escritos no Rio Grande do Norte. Poema que transforma dor em arte, assim como Estamira soube tirar do lixo a liberdade. O poeta das belas marinas escureceu a sua pena e as flores ficaram negras para lembrar as catadeiras do Mangue feito caranguejos como escreveu Josué de Castro. Reproduzo parte do poema semovente do meu amigo Dorian Gray, como epigrafe. Uma forma de homenagear todos os moradores de rua e catadeiras de lixo. Que vivem á margem com os restos do banquete da sociedade que monta barricadas para se livrar deles: Dos Mários e Marias da vida…

“Passeio sua pele / Mangue / E em seu piso / Nenhuma coluna
Se plante / Nenhuma coluna / Faça-se ponte / Seja / Mais profunda /que sua raiz / de sombra.
Nenhuma arvore / cresça nenhuma folha ou flor faça-se jardim / ou urbana praça com repouso límpido de água.
Neste mangue / restos da fome. / semoventes terras / ondem navegam flores negras / sob uma lua cega.
A noite lavra/ meus pés pisam este ser ambíguo / com cuidado aqui estão os restos da cidade ( sem memória e sem história ).”
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Volto ao documentário Estamira lembrando que ela já é morta e não tinha promessa de ser rainha como Inês. Mesmo assim viveu com dignidade e coragem.
A Imaginação existe. A imaginação é. Assim termina o pungente e forte documentário de arrebentar corações e mentes. Estamira é Estamira. Estamira tem certezas. Uma mulher de 63 anos que trabalha há mais de 20 num depósito de lixos do RJ. Estamira casou e teve filhos. Um casal morou com ela e uma filha foi adotada. Um documentário de quase duas horas. Inquietante. Incomodante. O diagnóstico é que Estamira sofre de distúrbios mentais. Fácil, não!
Estamira toma todos os remédios e sabe que está sendo dopada. Muitas vezes sente a cabeça se dissolvendo feito um sonrisal num copo de água. Ela tem razões para não acreditar em Deus. O filho diz que ela está possuída do diabo.
O personagem vivido por Estamira é muito forte. A fotografia é maravilhosa. Só ela entende as razões do mundo. Sua cosmogonia é própria. O cometa comanda. Existem astros bons e ruins. O plano quase sempre fechado no rosto da personagem denuncia o sofrimento. Estamira foi estuprada várias vezes. Seu pai a violentou. Seus maridos não a respeitavam. Eram mulherengos e traziam mulher ate em casa. Assassinatos em família.
Estamira rebate a existência de Deus com a dura realidade. Assaltos, roubos e muita miséria. Estamira acredita no comunismo. Ela sabe que nas escolas só fazem copiar. Que médico são charlatães. O aprendizado está na vida. Do lixo Estamira tira o alimento para a vida que não precisa ser rica. Como ela sabe cozinhar muito bem, transforma aqueles restos num banquete.
Estamira é um documentário muito forte de um Brasil real. Estamira é lúcida. Belas imagens, planos e música de um filme inquietante. No meio do lixo Estamira encontra pessoas muito boas, como o grande personagem do João. Entre urubus, cachorros e outros bichos – vivos e mortos, Estamira. Ela prefere essa vida a viver num manicômio. Prefere viver dois anos livres a viver cinco, trancada. Estamira pode ser acusada de louca, mas o seu discurso faz o que pensar. É o Brasil mostrando a sua cara longe dos guizos falsos de algumas certezas discutíveis.

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Anne Guimarães 1 de Maio de 2012 12:11

    João querido…
    Revivi todo o doc em seu texto…
    Parabéns por falar sobre esse mundo obscuro que Estamira sobreviveu. A história é gritante, para mim foi bem difícil acompanhar todas as cenas, doridas, infelizmente as “vidas” de muitos dos nossos irmãos seguem assim, sem uma luz no fim… do lixo.
    🙁

  2. Anchieta Rolim 1 de Maio de 2012 13:33

    Realidade de um país desgovernado. Parabéns Damata!

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