Estas, as coisas:

aqui (imagem/Google)

Esta, a coisa: o ânimo. E se a gente se enreda na teia da palavra… Ânimo, ânima, alma. É isso o que falta, às vezes, quando a gente sabe o certo do fazer, mas não faz. É o ânimo que não chega. Sem ele, a gente é só corpo cansado, mesmo com a mente e o espírito em ebulição. Falta o ato. Como Hamlet, falta a ação. E as coisas vão transcorrendo, sem contribuição nossa. Mas a nossa não contribuição é uma contribuição grande! Ação e omissão são irmãs siamesas.

Da lista de coisas a fazer, escolhem-se as mais fáceis. Às vezes não se faz nem essas. Vai-se deixando. Vai-se vivendo suspenso. Mas as coisas começam a dar errado. Alguma luz acende, um alerta, não se dá atenção. O tempo passa, e mais avisos. Não se liga, não nos ligamos. Um belo dia a falta de ânimo para agir acaba nos encurralando. Agora, faça.
Mas, tudo está perdido. Passada a hora de ser feito. O leite entornou e borbulha pelas superfícies, escorrendo como tempo fugidio. Foi.

Esta, a coisa: o tempo. Não se tem tempo para nada. Eu queria que o dia tivesse… Oitenta e duas horas. Quero tudo hoje e já. Mas não há tempo. Estou com a corda toda. Mas as horas relampejam. Ao mesmo tempo, tudo não dá. Mas não tenho mente para escolhas. Faço tudo mal feito, então. Tudo alinhavado, tudo sem sentir direito o gosto. Tenho toda a energia do mundo.
Só não tenho tempo para sentir. Porque sentir é coisa para vagares. Coisa para descanso, para desfrutes. Coisa que me rouba o tempo é o sentir as coisas.

Esta, a coisa: o sentir. A coisa perigosa, inidônea. A coisa assaltante, súbita, mas permanente. Sentir é feito destino. Tem de ter aceitação. Senão fica doendo, e só se sente é dor. E sentir não é só dor. Tem sentir outras coisas. Esperança é um sentir-se prolongado. Paixão é um sentir-se urgente, ansioso. Compaixão é um sentir-se irmanado.
Há perdulários de sentir, espalham o sentir para todo lado. Sentem tudo, se envolvem com todos, absorvem alegrias e mágoas. Chegam às outras pessoas pelo lado de dentro, íntimos.

Esta, a coisa: intimidade. Os muito íntimos que me perdoem, mas um tanto de reserva é fundamental, até para preservar a própria intimidade, que é uma coisa precisando de tempo. Intimidade é vagarosa. A alma tem de ser astuta para pressentir quando a intimidade vale. E aí, fazer valer. Sei que ser astuto é uma coisa rápida, mas só às vezes, não nesse caso. Tem até de ter avareza com os bocados, no começo. O inteiramente precisa tempo. Intimidade de supetão violenta os mistérios. Os gozosos e os gloriosos.

Esta a coisa: ânimo de sentir-se íntimo do tempo.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × cinco =

ao topo