O estigma que ameaça as palavras

Algumas palavras se tornam interditas, malditas e muitos temem até pronunciá-las para não atrair maus presságios ou doenças.

Câncer, por exemplo. Lembro bem de pessoas fazendo malabarismos linguísticos para contornar esse fatídico substantivo. Acabaram reduzindo-o para “CA”, o que de certa forma amenizou sua carga nefasta.

“Azar” é outra. Mas acho que nenhuma chega nem perto de “diabo”, “satanás”. Recentemente, surgiu outra forte candidata à ser malhada. Falo dela mais abaixo.

“Do demo? não gloso. O senhor pergunte aos moradores – em falso receio não fala o nome dele – dizem só: o que diga (…) quem muito se evita, se convive”, escreve Rosa em “Grande Sertão: Veredas”, monumento literário que este ano completa 60 anos de publicação.

No caso do “cão”, as pessoas mais antigas achavam que nominando-o ele poderia aparecer. Então, para driblar esse medo, inventavam uma variedade de denominações, com intuito de tapeá-lo.

Eu não tenho conhecimento de obra de ficção que tenha alcunhado o “coisa ruim” com tantos outros nomes como “Grande Sertão”.

São dezenas, alguns bem curiosos (peguei os menos conhecidos):

Anhangão / Apôrro / O Austero / O Azarape / O Azinhavre / O Canho / Caracães / Careca / O Carocho / O Coxo / O Cramulhão / O Cujo / O Dado / O Dê / Deamar / Deamo / O Debo / O Diá / Dianho / Dião / Diogo / Dioguim / O Dos-Fins / O Drão / O Duba-Dubá / O Faca-Fria / O Facho-Bode / O Galhardo / O Indivíduo / O Morcegão / O Muito Sério / Muitos Beiços / O Não-Sei-Que-Diga / O Ocultador / O Oculto / O Pé-De-Pato / O Pé-Preto / O Que Azeda / O Que-Diga / O Que-Não-Existe / O Que-Não-Ri / O Que-Nunca-Se-Ri / O Que Rança / O Rasga Embaixo / Rincha Mãe / Sangue-D’Outro / Santanazim / O Sem-Gracejo / O Sem-Olho / O Sempre / Solto-Eu / O Solto-Fu / O Temba.

Em anos recentes no Brasil, poucas palavras foram tão usadas quanto “legado”. Sobretudo, nos estados que sediaram jogos da Copa do Mundo. Tornou-se, por obra do destino, mais uma forte candidata a maldita.

Ouvi agora de manhã em um jornal da tv um apresentador falando sobre o “legado” das Olimpíadas. Evento que, para mim, ficará marcado pela morte absurda da onça Juma, em Manaus, por aqueles retardados do Exército, das quedas de algumas figuras carimbadas carregando a tocha, e pela cobertura forçada da Globo.

Vendo agora em que se transformou o tal “legado” da Copa, marketing político, obras inconclusas, estádios superfaturados e deficitários, corrupção, enfim, sinônimo de coisa ruim, não é difícil supor que tenhamos em breve mais uma palavra da nossa língua, coitada, que não tem culpa de nada, estigmatizada.

Podendo mesmo passar a ser conhecida apenas como “O LÊ”. Exatamente como Rosa faz com o “tinhoso”, quando chama-o de “O DÊ”. Ou ainda ganhando dezenas de epítetos, como “O Cunha”, “O Jajá”… Sinto muito “legado”, você não merecia essa triste sina.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 21 de julho de 2016 19:30

    Valeu, Tácito Costa. Recado dado.
    Muito legal.

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