Estória de Tia Alzira (complementada por sua neta Gilani)

Por Demétrio Diniz

1

O desmantelo ou, melhor dizendo, a queda, começou quando Alzira, minha tia, se botou de namoro com um militar e, para escândalo da família, largou o marido. Era casada com o vaqueiro Hermínio, que, na velhice, só por vaidade, ainda vestia o gibão de couro, embora já não contasse com força para derrubar nem mesmo um bezerro. Apesar de Hermínio ter uns trinta anos a mais que minha tia, do casamento nasceram dez filhos, sem falar nos cinco abortos. Alguns dos filhos ela prometeu dar a parentes antes do nascimento. Ao entregar o bebê, dizia chorando que fazia isso para cumprir com a palavra. Pedia apenas fosse registrado na letra “J”, como os outros, não escapando da consoante nem mesmo Jenival e Jerusa, que já entraram na vida errando pelo nome.

Alzira trocou o sítio pela cidade onde o soldado era destacado, e abriu um bar. O rompimento com a igreja, que se recusou a orar e cantar hinos em sua casa, justificou alegando que não ia se sufocar por conta de caprichos de religião, além da tristeza de não poder botar batom, ruge e pó, pintar as unhas e usar saia no joelho ou vestido com manga decotada.

Ela e o soldado Vidal jogavam porrinha na única mesa do bar, desocupando-a quando chegava algum freguês. Ficava a um canto, recuada e silenciosa, ouvindo estórias de bêbado. Francelino Expedicionário, depois de algumas cervejas, trazia sempre de volta a Segunda Guerra e a tomada de Monte Castelo. Falava sobre o tempo em que distribuía chocolate às belas italianas e chicletes à gurizada faminta que entupia a porta dos cassinos: “Here, shorty, here”, relembrava em inglês, estalando os dedos. No bar Glória também aparecia João Mão de Finado, a cada dose de cachaça repetindo o refrão que influenciou toda uma geração de estudantes: “Beber e morrer enquanto se é novo e o cadáver é bonito.” Embriagado, declamava os versos ufanistas e fora de moda do poeta Sebastião Lira, que ainda moço voltara do Rio de Janeiro para morrer de tuberculose na sua terra.

Meu pai dizia que o bar da tia era um cabaré. Na época eu achava que não. Para mim não passava de um bar de cidade do interior, com seus vapores de bebida e urina. Todavia muitos anos depois, uma prima de quem não me lembrava mais telefonou de São Paulo. Gilani disse que havia uns quartinhos nos fundos, sim, e via os homens entrarem neles com mulher e uma chave na mão. Que à época, ela com cinco anos, morria de curiosidade para saber o que iam fazer nos quartinhos. Gilani falou também de outras particularidades de minha tia, sua avó. Contou que esta tinha entre as pernas um fogo de coivara. Quando a avó fez operação de períneo, surpreendeu-a, assim que saiu da mesa de cirurgia, arrancando os pontos, apavorada pelo medo de não ter ficado abertura para o coito. Que ela se lembra muito bem de ter visto as mãos ensanguentadas. Acrescentou ainda que a avó gostava de apanhar do soldado antes dos entreveros do amor. Se ele, cansado, se recusava a bater e ia dormir, Alzira, por pura provocação, urinava sobre a farda, atirando depois sobre o militar a moqueca de pano ensopada.

2

Pouco tempo depois de tia Alzira ter largado o vaqueiro Hermínio, veio a morte de Josué, o filho caçula. Sempre pelas nove horas o via chegar no consultório do doutor Mazinho. Cada dia vinha mais pálido, o cabelo comprido e preto realçando a palidez, esboçando um sorriso murcho. Acho que era murcho mais por conta da vida ruim que mesmo da doença. Ou talvez pelas duas. De consulta em consulta Josué foi piorando. Até que uma manhã de sábado meu pai chegou em casa trazendo no pescoço uma toalha suja de sangue. No corredor comentou para a minha mãe: “Passou a noite implorando: “Tio Manoel, não me deixe morrer”. E acrescentou, lavando o rosto na bacia de alumínio: “Vomitava sangue o tempo inteiro. Era golfada por cima de golfada.”

No ano seguinte, por volta do Natal, Alzira perdeu também duas filhas. Numa manhã, assim que minha mãe abriu a meia-porta da frente e viu a velha Isolda, na casa vizinha, puxar o fumo do cachimbo mirando os serrotes, como a perscrutar as novas trazidas pelos ventos de dezembro, a notícia chegou. Juraci e Janaína fugiram no circo. Janaína, com o palhaço, e Juraci, com o rapaz do globo da morte. Minha mãe que às vezes falava com um certo sotaque poético, comentou sobre o destino das sobrinhas: “Aquelas duas os pés ganharam asa, não voltam nunca mais.” A tia teve notícia delas por carta. Do Ceará, Maranhão, até da usina de Paulo Afonso, na Bahia, o carteiro Baruk trouxe correspondência, mas nunca mais as viu.

Para completar, alguns anos depois, o soldado Vidal, bem mais moço que Alzira, se engraçou de uma empregada da casa do juiz, e sumiu com a mocinha no mundo. Acompanhou um bando de ciganos arranchados no riacho, aprendeu com os gajões a atirar com rifle bala u, e dizem que foi ele quem, por encomenda, deixou aquele buraco de bala no queixo do velho Uribano.

Abandonada, Alzira perdeu força. A idade também contribuiu para a queda. Devia estar perto dos cinquenta anos. No bar, ou mesmo na rua, na padaria, no açougue, os homens já não olhavam enviesados para o seu corpo. Falavam com ela de forma complacente, como se tratam os velhos. Sem homem, a tia não era ninguém.

Vendeu as coisas do bar, arrumou as poucas roupas numa maleta de madeira e deixou a cidade. Ao sair de casa cobriu o rosto com um lençol, e o curto trajeto da porta de casa para a boléia do caminhão fez às cegas. Ficou com o rosto coberto até as Cajaranas, na saída de Mombaça. Ao atravessar a cancela do posto fiscal, que divisava o município, guardou o pano, explicando ao motorista: “Pra não ter de ver mais essa cidade”.

3

Natal não foi o que esperava. O mar, por quem a vida inteira ansiou em conhecer, era salgado e revoltoso. Lembrava-se do açude, sempre fresco e calmo, de sua parede por onde caminhava olhando o baixio verde de mangueiras e cana-de-açúcar. Também não se viam na areia da praia as galinhas d’água, piando e correndo no meio do capim com seu passinho miúdo. Era tudo uma aridez só, que o azul das águas, apesar de muito bonito, não resolvia.

À noite ficava sozinha, inconformada. Os vizinhos mantinham as portas fechadas, e deles Alzira não sabia nem o nome nem a estória. Não apareciam sequer para pedir um pouco de sal, uma xícara de farinha ou de açúcar. Pensou em retornar à igreja, conhecer gente, fazer novas amizades. Contudo não aguentava mais seu rigor, as velhas exigências, e o que mais a irritava: a supremacia dos crentes por se acharem salvos. Sabia por experiência própria que só o amor de um homem lhe traria alegria. Mas com o corpo devastado, as pernas cheias de varizes se arrastando dentro de casa, não via como isso acontecesse.

Em Boa Viagem, no Ceará, as irmãs Juraci e Janaína desfilavam de maiô em cima de um caminhão. Faziam pequenas acrobacias com um aro de fogo, quando o policial acenou pedindo que descessem. As irmãs demoraram a entender o gesto no meio do coro de meninos que gritavam palhaço.

– Tenho uma notícia para vocês – disse o policial. – Sua mãe deixou esse endereço para avisar. Ela morreu.

– Mas como? – perguntaram as duas artistas ao mesmo tempo, ainda excitadas com o desfile.

– Ela se enforcou – respondeu o homem, guardando no bolso da calça um pedaço sujo de papel de embrulho.

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