O estranho mundo de Tim Burton

Organizado por Paul A. Woods, O estranho mundo de Tim Burton (336 páginas, R$ 49,90) foi lançado no Brasil em 2011, pela editora Leya, com tradução do conhecido editor de quadrinhos Cassius Medauar.

A proposta do organizador foi fazer uma espécie de biografia não convencional do cineasta, na qual sua vida é narrada sob o prisma de cada filme que ele dirigiu e/ou produziu. Assim, o livro é uma coletânea de artigos que compilam desde seus primeiros curtas, feitos no início dos anos 1980, até a polêmica versão de Alice no País das Maravilhas, de 2010.

A leitura flui de forma prazerosa, pois os textos não são meramente informativos (com curiosidades de sua vida particular e histórias de bastidores dos filmes), mas também discutem e analisam temas burtonianos, como o “qualquer tempo” e a “Cultura Monstro”; além disso, em alguns textos são insertadas entrevistas, complementando informações.

Tim Burton era uma criança introvertida, que adorava tanto os filmes B de ficção científica das décadas de 1950 e 1960, quanto os filmes de terror da Hammer (“Cultura Monstro”). Sua casa ficava próxima aos Estúdios Disney, na Califórnia, o que veio a influenciá-lo a cursar animação na CalArts, a “faculdade da Disney”. Ele chegou a trabalhar como animador na empresa do “tio Walt” até meados dos anos de 1980, mas ficou frustrado ao se dar conta de que por lá suas ideias nunca vingariam, uma vez que fugiam do tradicional padrão “fofinho”.

Em 1985, Burton realizou seu primeiro longa-metragem, As grandes aventuras de Pee-Wee (um live-action), empregando o que viria a ser sua marca registrada: a) pensava primeiro a trama visualmente, fazendo storyboards, e depois contratava um roteirista para formalizar suas ideias; b) seu herói era sempre o excluído, o nerd, o incompreendido, o sonhador, o sentimental, o estranho.

Fã dos diretores James Whale (Frankenstein) e Tod Browning (Freaks), e das animações do tcheco Svankmajer (Alice) e dos Irmãos Quay (Street of Crocodiles), Burton estudou com afinco a técnica do stop-motion e o trabalho com maquetes. Seu apego a essa técnica era tamanho, fazendo-o relutar bastante em empregar computação gráfica (CGI) em Marte Ataca!, por exemplo, até ser convencido de que o resultado seria muito mais satisfatório (o que acabou sendo uma faca de dois gumes, pois ainda faltava a ele a familiaridade com o high tech).

No capítulo tocante ao filme do Batman, de 1989, ficamos sabendo que Burton utilizou O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, como argumento para a Warner aceitar o roteiro sombrio e poético dele e do Sam Hamm, e que, recém-casado com a artista alemã Lena Gieseke, precisou administrar toda a pressão que rondou a produção do filme.

David Mills resgata a entrevista na qual ele falou pela primeira vez sobre o malfadado filme do Superman, que seria estrelado pelo Nicolas Cage. Sua proposta era focar na dualidade do herói alienígena: um ser diferente e super-poderoso, que precisava controlar suas emoções e poderes especiais para tentar ser um homem normal. O Superman burtoniano seria emocionalmente perturbado, totalmente diferente do escoteiro patriótico dos quadrinhos.

Separado de Lena Gieseke, Burton começou a namorar a atriz Lisa Marie (não confundir com a filha do Elvis), e em 1997 escreveu O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, dedicando-o a ela. O Pequeno Menino Ostra reúne 23 poemas sobre crianças melancólicas e desajustadas, com ilustrações do próprio punho, cuja influência maior foi o escritor Edward Gorey.

Assinando vários textos no livro, quem sintetiza o trabalho de Burton, de forma ímpar, é Kim Newman. Ele afirma que o cineasta “revisita a infância através de idas regulares ao mundo dos sonhos”, e compara seus filmes a uma espécie de Disneylândia repaginada “como um exuberante Grand Guinol freudiano”.

Vale salientar que o livro original, em inglês, foi lançado em 2002, ganhando uma edição ampliada em 2007. Para atualizar a edição brasileira, o Cassius Medauar escreveu os artigos que focam nos filmes Sweeney Todd, 9 – A Salvação e Alice no País das Maravilhas.

A capa e o projeto gráfico da primeira edição foram assinados pelo pessoal da Retina 78, que viriam a ser os responsáveis por alguns dos elogiadíssimos projetos gráficos dos livros da editora DarkSide Books (fundada em outubro de 2012).

Devido à exposição O mundo de Tim Burton, sediada no MIS, em São Paulo, que trouxe o diretor ao Brasil, a Leya atendeu o pedido dos fãs e disponibilizou uma reedição do livro, esse ano, haja vista a primeira estar esgotada há bastante tempo.

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