Estreias literárias

Por Mayara de Araújo
DIÁRIO DO NORDESTE

Em sequência: Jorge Amado, Lira Neto, Ronaldo Correia de Brito, James Joyce e Nelson Rodrigues, destaques no calendário literário Entre livros inéditos e coleções relançadas, saiba o que poderá compor sua estante em 2012.

Abra mais um generoso espaço na sua estante de livros. O ano de 2012 será marcado pelo lançamento de volumes em homenagem a centenários de autores brasileiros, títulos inéditos de escritores cearenses e a liberação da obra de grandes nomes da literatura internacional para domínio público.

Inéditos

Após dois anos de meio de pesquisa, finalmente o escritor cearense Lira Neto lança o primeiro volume de uma trilogia sobre Getúlio Vargas. Alcançando notoriedade no cenário literário nacional através de biografias de personagens tão distintos entre si quanto o escritor José de Alencar, o polêmico Padre Cícero e a cantora Maysa, o jornalista decidiu, desta vez, imergir na vida e na trajetória política de um dos mais memoráveis presidentes do Brasil. O autor retorna a um ambiente político já visitado há oito anos, quando escreveu “Castello – A Marcha Para Ditatura”, sobre o cearense Marechal Castello Branco.

O primeiro livro, já entregue à editora, deve sair ainda neste primeiro semestre. “Provavelmente em maio”, antecipa o autor. Neste volume retrata desde a infância de Getúlio e segue até 1930, quando inicia a sua vida na presidência. Entre o que pode revelar em primeira mão, o autor comenta o trabalho de arqueologia empregado para reconstituir as primeiras décadas da vida do advogado e político, além de uma característica interessante: “As pesquisas comprovaram que, mesmo enquanto governador do Rio Grande do Sul ou deputado, Getúlio já demonstrava simpatia pelo fascismo de Mussolini. Isto é, portanto, bem anterior à presidência”, revela.

Atualmente, o autor se divide entre os preparativos para o lançamento e a estruturação do segundo volume. “A princípio, trabalhei pensando nos três. Foi um ano só para traçar um plano geral da obra, estabelecer os assuntos de cada um dos três volumes e fazer as divisões cronológicas. Agora, devo começar a colocar no papel os primeiros esboços, definir quantos capítulos serão…”, detalha, já adiantando que deve lançar um volume por ano.

Para o autor, o livro promete “dar o que falar”, já que Lira faz emergir documentos inéditos e se preocupa em apresentar aos leitores o “caldo de cultura” em que Getúlio estava inserido. A proposta, portanto, é que o título seja acessível e popular, apesar de – espera-se – também satisfazer a crítica. “Nas filas de autógrafo de Maysa, por exemplo, era visível a heterogeneidade do público. Senhores e senhoras saudosos da obra dela e jovens que tinha redescoberto a cantora. Com este livro, espero que aconteça o mesmo”.

Lira Neto admitiu a complexidade de lidar com este personagem desde o início das pesquisas, tendo a imprensa, inclusive, intitulado Getúlio de “Esfinge”. Pensando na polêmica em torno do biografado, o autor assegura que se preocupou com o trabalho de referência das informações. “O texto precisa ser atraente ao leitor, mas isso não me permite nenhuma licença poética. Tudo o que está escrito, tem base em algum documento”, esclarece. Das 600 páginas do primeiro livro, aproximadamente 50 delas foram dedicadas a notas finais.

De São Paulo, rumo a Pernambuco, um outro cearense também se prepara para um lançamento importante. O médico e escritor Ronaldo Correia de Brito lança, no segundo semestre deste ano, mais um romance – sucessor de sua premiada estreia no gênero, “Galileia”. Ronaldo é reconhecido por alguns sucessos como o conto “Lua Cambará” – publicado em 1970 e adaptado para TV, cinema e teatro – e o próprio “Galileia”, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2008.

Em seu novo livro, o autor deixa o ambiente sertanejo, revisitado em Galileia, e se dedica a um romance mais urbano. “São personagens que poderiam ter surgido nos Estados Unidos, na Inglaterra. É ambientado em um Recife da década de 60 e tem como cenário de fundo a ditadura de 1964. Mas não estou visitando os porões, este não é o principal foco da história”, esmiúça.

Ainda que não seja uma preocupação de Ronaldo, pode-se dizer que 2012 é também um ano de expectativas para sua obra, já que alguns de seus textos e livros tiveram suas licenças vendidas para o cinema e o teatro. Os direitos de “Galileia” e de alguns contos de “Retratos Imorais” foram adquiridos para cinema, e o último também para adaptações no teatro.

Quanto a isso, Ronaldo mantém uma postura firme. “Uma vez conversando com o Luís Fernando Veríssimo, um autor brasileiro bastante adaptado, ele me aconselhou que, para não ter contrariedade, eu devia me preocupar sempre em procurar vender bem o direito de adaptação e não querer saber o que estavam fazendo. Ele ainda disse mais: que, de preferência, não fosse nem ver o resultado! Achei um conselho de um homem sábio. Fico feliz que a força motriz da obra tenha saído de mim, mas quando chega ao teatro, ao cinema e a TV, a obra já não é mais minha”, opina o autor.

Mas Ronaldo, e o título do livro? O autor poetiza: “Ai, isso eu não posso dizer. Nesse sentido, sou muito africano. Os africanos não costumam divulgar o nome dos filhos. Muitas vezes, fazem isso só no ato do nascimento e alguns chegam a passar anos da infância sem ter seus nomes divulgados. Os pais só sopram seus nomes, secretamente, no ouvido dos filhos. Estou soprando nas páginas do meu livro o nome dele, mas vou deixar para dizer só quando ele nascer”.

Homenagens

Dentre os centenários e efemérides, 2012 presenteia os que gostam de uma literatura brasileira popular e bastante temperada. Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Janeiro compõem o caldo dos relançamentos deste ano: Jorge Amado e Nelson Rodrigues fariam 100 anos, já Carlos Drummond de Andrade, 110.

Jorge Amado será celebrado com uma verdadeira revisão de sua obra, vida e ideologia. Desde 2008, a obra do escritor ganhou nova casa editorial e vem sendo relançado pela Companhia das Letras em edições com excelente projeto gráfico. Aliás, o que a obra, de fato, merecia.

Entre as festividades que percorrem o Brasil, estão: o já lançado filme “Capitães da Areia”, da cineasta e neta do escritor Cecília Amado; uma nova montagem da peça “Dona Flor e seus Dois Maridos”, que entrou em cartaz no Rio de Janeiro; e a editora Companhia das Letras lança uma caixa que reúne os quatro livros das mulheres de Jorge, além de preparar uma programação com edições especiais, como o livro inédito de cartas que Jorge trocou com Zélia enquanto estava no exílio. Em março, deve sair “Navegação de Cabotagem”, em edição especial ilustrada; em maio o lançamento de uma coleção de obras infanto-juvenis de Jorge, selecionada por Heloísa Prieto, e, finalmente, em agosto: “Os Velhos Marinheiros” e “Jorge & Zélia”.

Já o mineiro Carlos Drummond de Andrade, que posteriormente dividiu seu coração com o Rio de Janeiro, ressurge nas livrarias com nova roupagem também pela Cia. das Letras, que ganhou, em 2011, o direito de publicar toda a obra do poética do escritor. “A Rosa do Povo”, o primeiro, chega em março, em tempo da homenagem da 10.ª Festa Literária Internacional de Paraty, marcada para julho. Ainda em 2012, outros três títulos não divulgados serão lançados.

A mais misteriosa é a programação de lançamentos da Nova Fronteira, que edita Nelson Rodrigues. Ela garante que publicará textos inéditos do autor, releituras de suas peças e edições populares, mas não dá detalhes.

SAIBA MAIS

Acompanhe o calendário de lançamentos literários neste ano:

Fevereiro

A obra de Pedro Nava, em novas edições pela Companhia das Letras

Março

“A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade (Cia. das Letras)

“Navegação de Cabotagem”, de Jorge Amado (Cia. das Letras)

Abril

Nova tradução de “Ulisses”, de James Joyce, feita por Caetano Galindo ( Penguin-Companhia das Letras )

Maio

Primeiro volume da trilogia sobre Getúlio Vargas, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Agosto

“Velhos marinheiros”, de Jorge Amado

“Jorge & Zélia”, organizado por João Jorge

Setembro

Novo romance de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara)

Comments

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 3 de Janeiro de 2012 20:32

    Mayara, bom saber de mais uma tradução do Ulisses, de Joyce.
    Em 2012 tem um dos mais importantes centenários, o de Luiz Gonzaga. Ninguém mais que ele mostrou o nordeste para todo Brasil.

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