A estrela solitária

Por Adriano de Sousa
NA TRIBUNA DO NORTE

O PT vai às ruas hoje sob a bandeira da esquizofrenia. O rótulo genérico “em defesa da democracia” não camufla as divisões internas do movimento contra a pregação golpista gestada pelo PSDB e suas barrigas de aluguel. Embora o contraponto pareça coeso na defesa do mandato da presidente, os petistas estão isolados no apoio incondicional ao governo Dilma, suas ações e alianças. A concertação política com a vanguarda do atraso no Congresso e, principalmente, o programa econômico em curso são repudiados até por parceiros de rua, como a CUT e o MTST. “Contra o golpe e contra o ajuste fiscal”, proclamam, prensados pelo peso do pacote fiscal sobre trabalhadores, funcionários públicos e aposentados.

A ambiguidade flagrante – defende-se o mandato da presidente mas não seu programa – talvez não baste para fazer do movimento a cópia em vermelho do ser-ou-não-ser característico da tucanagem, que não se entende nem para o mal nem para o bem. Mas num aspecto o diagnóstico é conclusivo: a dualidade espelha um dissenso de fundo, mais doloroso e de maior custo político para o PT, com projeção negativa no alcance popular das manifestações.

O partido perdeu a faculdade de interlocução com as gentes que, embora não portassem filiação nem tomassem a estrelinha por sol ideológico acima das circunstâncias, mantinham-se por afinidade afetiva na órbita do planeta vermelho. Movia-as o reformismo social, as bandeiras éticas, o fulgor utopista emanado do discurso e da história atípicos na república das legendas imperiais.

O petista honorário foi afluente decisivo no caudal que emprestou ao PT, em 2002, o poder de testar no governo o seu projeto de Brasil. Partidário da simpatia-quase-amor, prorrogou o quanto pôde o resgate da nota promissória. Resistiu aos cavalos de pau programáticos, assimilados como desvios táticos necessários. Aceitou companhias partidárias pouco recomendáveis, em nome da governabilidade. Tolerou os primeiros solavancos éticos, ainda no governo Lula, debitando-os à confusão entre fato e factoide na guerrilha sangrenta com a tucanagem.

Esse simpatizante parece ter sucumbido enfim à constatação de que a soma de partes como Vaccari e Dirceu revela-se maior que o todo – os avanços sociais ora fulminados pelo acúmulo de patranhas que, atribuídas a indivíduos, confundem-se com a imagem do partido e a do governo. Sem a força anterior da convicção íntima, ele se sustém apenas numa razão externa: o fio frágil da defesa do mandato presidencial. Poderia ser o bastante para levá-lo às ruas. Porém, diante do buraco negro gerado por suspeitas, denúncias e condenações, desconfia-se que não: é muito alto o grau de frustração espontânea e induzida.

O confronto com as milícias do golpismo não se encerra no fiasco ou no sucesso da mobilização de hoje, porque o desfecho da questão institucional é futuro. Mas há um triunfo indireto que o consórcio da sinistrose já pode contabilizar, e que vai além do coronelesco desejo de “exterminar essa raça vermelha”: a derrocada do vínculo suprapartidário entre a ideia do novo Brasil e a maioria dos brasileiros.

Para a delícia de quem, por ação e por omissão, à direita e à esquerda, cético ou conformista, crava sempre a mesma aposta: em matéria de utopia política, toda bandeira acaba-se em mortalha.

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