O eterno retorno

Por Ivan Maciel de Andrade (Advogado)
TRIBUNA DO NORTE

Todo grande ficcionista tem dois ou três temas de sua preferência (que podem ser, numa pesquisa mais rigorosa, reduzidos, talvez, a um), que ele explora ao longo da vida. A forma de abordagem – estrutural e formalmente — diferenciada, em cada obra escrita, não permite que se observe facilmente o caráter obsessivo desses temas. Há necessidade de superar as impressões de uma leitura de mera admiração ou divertimento. Na verdade, é como se o escritor fosse aperfeiçoando progressivamente a forma de desvendar e apreender todas as possibilidades de percepção e prospecção que esses temas oferecem. Por isso é que eles funcionam, em última análise, como se fossem os canais de acesso a uma abrangente perspectiva de captação e interpretação da realidade mimetizada pelo romancista em sua narrativa. E é dessa forma que numa obra genial da maturidade de certo escritor se descobrem os contornos imprecisos de toscas obras iniciais, a que só se concede valor por pertencerem a um nome hoje consagrado. A mesma temática, porém sob novo tratamento.

Por outro lado, há estudos que demonstram que o ser humano tende a agir de conformidade com determinados padrões que correspondem não apenas aos condicionamentos socioculturais, mas também (ou principalmente) às características definidoras de sua personalidade. Por isso mesmo, as pessoas propendem a ter comportamentos repetitivos como se estivessem limitadas a fazer opções que, embora variando por força de fatores circunstanciais, têm sempre em suas raízes pontos fundamentais de identidade. Assim é que cometem erros e produzem acertos diante de diferentes situações, observando padrões que as induzem a fazer ou deixar de fazer, a preferir, a escolher, a aceitar ou rejeitar. A singularidade do ser humano se evidenciaria, então, não tanto por atitudes caprichosas e aleatórias, mas através de específicos padrões de comportamento que cada um adota em razão de fatores psicológicos, emocionais, de índole e temperamento. Isso não significa evidentemente uma robotização. Pois o ser humano sempre surpreende. Para o bem e para o mal.

Seria a repetição uma lei comum à arte e ao comportamento humano? Lembro a esse respeito a técnica ficcional de Proust em “À la recherche du temps perdu”, em que os personagens reaparecem marcados pelo tempo. Por meio desses retornos, oferece o autor imagens dos personagens que se superpõem e se completam de forma agudamente reveladora de suas qualidades, defeitos e vícios.

Segundo Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Na realidade, certos regimes ditatoriais surgidos em nossos tempos, se comparados com ditaduras que ameaçaram dominar o planeta, têm indisfarçável caráter farsesco. No entanto, há tragédias na África e no Oriente Médio que se repetem de tal forma que temos a impressão de que tudo não passa de um “replay”, dada a semelhança entre as antigas e as atuais atrocidades. Assusta-nos Nietzsche com seu eterno retorno: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e inúmeras vezes ainda”. O núcleo dessa teoria é uma confirmação de nossos impulsos repetitivos.

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