Ethos do mala

Por Marcelo Rubens Paiva
ESTADÃO

Não acredito que “ser mala” é um valor de identidade social. Não é o que caracteriza um indivíduo enquanto grupo. Pois todos somos malas em momentos em que imaginamos viver em harmonia com nossas neuras e dos outros. Quer a prova?

Numa situação de confronto com uma autoridade considerada de baixa patente, quem já não proferiu: “Eu poderia falar com o gerente?”.

Mala é como nos definem nos bastidores de empreendimentos prestadores de serviço, assim que exigimos que o debate mude de esfera, e o debatedor seja substituído.

Alguns ainda amplificam o exercício de ser mala. Aqueles que acreditam que têm o direito de expor os problemas para o topo da pirâmide hierárquica: “Só falo com o seu supervisor”.

Malas não faltam nos ambientes em que se praticam negociatas gastronômicas:

1. A cozinha está fechando. Você foi informado do horário do atendimento. Mesmo assim, decide pedir uma picanha “do ponto para mal”, quando os funcionários do restaurante já lavam a cozinha e torcem para pegar o metrô ainda aberto; caso contrário, deverão madrugar na calçada.

2. Para dar uma pinta aos convivas, fazer charme de entendedor, decide intervir no serviço, chamar o garçom e afirmar que o vinho está pouco frutado. Pede para a garrafa ser substituída, apesar de ela ter sido rigorosamente selecionada pelo sommelier que presta serviço ao estabelecimento, que morou em vinícolas francesas na infância, colheu uvas no pé, cursou faculdade em Bordeaux, pesquisa como um obcecado as melhores safras, tem coluna no jornal mais vendido da cidade e um programa de rádio que mistura dicas de vinho e músicas.

Aliás, um mala conhecido pelas redações de jornal é aquele que, depois de ler o caderno exclusivo que revela enfim quem matou JFK, reclama que vai cancelar a assinatura, pois o analfabeto do jornalista, que passou dois anos fazendo uma investigação para dar o furo, escreveu Lee Harvey Oswald com a grafia errada.

O telemarketing inferniza a vida de todos. Perdemos a paciência assim que ouvimos “posso falar com o dono da residência ou responsável”, e proferimos um palavrão agudo e sintético. Malas são eles?

Depende. Muitas vezes, do outro lado da linha, está uma deficiente física, talvez visual, que, inscrita no programa de inserção social da companhia, está exultante pela oportunidade oferecida pela empresa.

Naquele dia, quase foi atropelada três vezes, depois de tatear e tropeçar com sua bengala até o serviço que ajuda a pagar o tratamento do filho com asma crônica. Para escutar os piores impropérios durante o plantão, em que é obrigada a ficar sete horas sem fumar e comer, com um fone de ouvido precário, num salão mofado e gélido, contaminado por um ar-condicionado que foi limpo pela última vez na década de 50, incubador de ácaros e bactérias desconhecidas.

O aeroporto Salgado Filho amanhece encoberto pela neblina. No Tom Jobim, cai uma tempestade torrencial. O JFK, de Nova York, enfrenta uma nevasca nunca antes vista. Miami está sob alerta de furacão. Controladores de voo de Paris entram em greve. Em Salvador, se espatifa na pista o bimotor de um vereador radialista. Dá pane no sistema aéreo nacional. O controle de voo internacional entra em colapso. E seu voo atrasa.

Toda a sua ira desaba sobre a funcionária de solo estagiária, grávida de um piloto alcoólatra e casado, que se esforça para atender passageiros nervosos de dezenas de voos.

Começam as agressões. Em seguida, você inflama outros passageiros, afirmando que chegou no horário, que seu cachorro está com vermes, e sua bisavó com diverticulite aguda. Exige providências. Exige a presença do presidente da companhia aérea no balcão.

E vomita as frases mais ouvidas em tempos recentes, como “este país não tem condições de sediar uma Copa do Mundo, quiçá uma Olimpíada”, que a culpa é do mensalão, do PT, do Zé Dirceu, do Genoino, do Ricardo Teixeira, do Rafinha Bastos.

Tira o celular e passa a discar para seus advogados. Até encontrar um em férias em Cancún. Exige que o supervisor fale com ele.

Discursa para o saguão lotado, invade o setor de embarque e só é contido pela chegada da Polícia Federal. Ainda dá tempo para gritar: “Ao invés de prenderem os corruptos de Brasília, algemam um cidadão que paga os impostos em dia!”.

O mala profissional é aquele que acha que a buzina do seu SUV é um som agradável, cujo timbre lembra o Concerto de Brandenburgo, de Bach, e faz questão de acioná-la quando, atrás de dez carros, vê ao longe o farol abrir. Como se todos à frente estivessem fazendo hora no congestionamento agradável e relaxante.

Pior o taxista que puxa assunto quando o passageiro perdeu o emprego, a mulher fugiu com o terapeuta argentino. E ele está com pressa para pagar a prestação atrasada do marca-passo da sogra, que ficou para trás.

Somos malas quando reclamamos dos serviços públicos, mas procuramos os contadores mais experientes e brechas nas leis, para sonegar alguns impostos.

Ou quando, diante do caixa de supermercados, interrompemos o procedimento, pois nos esquecemos da lasanha 4 queijos e vamos procurá-la, apesar da fila de aposentados que esperam a vez.

Sem contar aqueles que entram no caixa de 12 volumes com as compras do verão, ou param em vagas de deficiente ou em fila dupla e dizem, para quem reclama, “é só um minutinho”, ou demoram minutos para digitar a senha do cartão para pagar o cinema sábado às 21 h, ou comem pipoca na peça de teatro densa de um autor de vanguarda alemão, e ainda chacoalham o saco para espalhar o sal, ou preferem saquinhos plásticos de amendoim, MM, jujubas, delicados e afins.

Lição de moral: antes de sair reclamando, lembre das malices recentes. Atire a primeira pedra quem nunca praticou. Aliás, que mala esse papinho de lição de moral…

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo