Ética jornalística: temas para discussão

Como ressaltou a professora Graça Pinto no blog de Tácito Costa, algumas questões que permeiam as linhas tênues da ética jornalística foram desprezadas pela falta de tempo do programa Grandes Temas. E como a TV-U vai promover uma segunda discussão, vou sugerir algumas questões a serem levantadas lá ou aqui.

EDITORIAL: Tácito levantou uma questão interessante: o posicionamento explícito do jornal. O professor Marcos Aurélio foi claro em seu posicionamento pró-Micarla durante o programa. Mas não o foi no jornal. Seria o caso de ele publicar editorial numa capa de jornal? Minha opinião é a de que sim. Embora ache uma admissão de culpa para um jornal que se diz independente em seu slogam. Mas seria uma atitude mais honesta com o leitor que compra o jornal a espera da imparcialidade. Há jornais cristãos; de esquerda; de direita; de grupos políticos; ou controlados por empresas privadas. Não acho errado um jornal faccionista desde que explicite sua posição e não venda outra imagem.

SALÁRIO: Corroboro com a opinião da professora Graça Pinto e insisto na questão. Discordo do professor João da Mata: a ética não independe do salário. Cito nomes para exemplicitar minha opinião. O editor de Cultura do DN, Moisés de Lima, trabalha há 15 anos no jornal. Tem como atividade extra uma banda de rock e a edição de uma revista patrocinada pela Capitania das Artes, pela qual foi criticado aqui como jornalista sem ética. São 15 anos de profissão para receber cerca de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil. Com essa quantia paga pensão, aluguel e mantém um carro esculhambado. Pergunto: qual a escolha do cara? Manter a ética de um trabalho exclusivo numa redação do qual lhe paga menos de R$ 1,5 mil e deixar sua filha sem leite ninho ou aceitar o convite para editar a revista? O mesmo ocorre com repórteres, em maior ou menos grau.

COLUNISTAS: Apesar de editor do caderno de Cultura, Moisés não usa o espaço para promover sua banda. Escrevo para a coluna de cultura do jornal às terças-feiras e nunca me foi pedido espaço para promover nada dele. O contrário ocorre muito. Não faz um mês me ligou um amigo afirmando: “Serginho não sabia que pagava pra colocar nota em coluna de jornal”. Meu amigo ligou para um colunista de um jornal local e o cara o induziu a dizer quanto podia pagar. É fácil identificar tais pessoas: basta certificar-se de quais assessorias o jornalista toma conta e conferir diariamente que elas são contempladas em suas colunas. Por outro lado, volto à questão salarial. As colunas são um meio (escuso, claro) de eles manterem as assessorias e os salários extra-jornal para pagarem suas contas. Tácito e Marco Aurélio argumentaram: “Basta não comprar o jornal ou não ler”. Claro, o leitor tem essa opção. Mas convenhamos: se pagamos ou assinamos um jornal queremos qualidade por completo. Eliminar colunas ou matérias tendenciosas é subtração de informação.

CENSURA (?): Levantei a questão no programa, mas fui pouco claro diante do meu nervosismo. Mas minha idéia é a da possibilidade de uma espécie de onbudsman judiciário no período eleitoral para fiscalizar matérias de blogs e jornais. O objetivo seria o de evitar o que comentei acima: a venda falsa de independência e imparcialidade dos veículos de mídia. Um jornalista gabaritado e com formação jurídica analisaria o conteúdo das matérias e, dependendo, forçaria o autor ou a empresa a se posicionar publicamente. A idéia foi radicalmente rechaçada por Cassiano Arruda. Em discussão sobre o programa na redação, ele disse que concordou com tudo o que eu disse, menos com essa colocação. É a opinião dele e acredito que da maioria. É uma espécie de censura, sim. Mas levemos em conta a injustiça, a desonestidade dos veículos de mídia de travestirem ou distorcerem a informação. Como disse: a liberdade de um (da empresa) termina quando atrapalha a do outro (o leitor).

INFLUÊNCIA: Marco Aurélio foi duramente criticado por discordar da imprensa como quarto poder – teorizada por nomes famosos como Thompson e outros. Na minha opinião, o quarto poder hoje é representado pelo Ministério Público. A imprensa já não exerce a mesma influência de antes. Mas vale o questionamento: qual o poder de influência na formação do cidadão ou no resultado de uma eleição pela mídia hoje? A grande maioria dos votos de Micarla veio das classes menos esclarecidas. Isso é fato. Estive com as três últimas pesquisas em mãos e o dado confere. Analfabetos ou de formação de primeiro grau completo não lêem jornais. Mas assistem TV. Um exemplo usado no programa foi o sucesso eleitoral do apresentador Paulo Wagner ou da própria Micarla. Mas vale lembrar que o vereador Salatiel, também apresentador, foi pro beleléu. Seria o carisma? Um argumento seria de que o vereador foi um dos parlamentares acusados pela Operação Impacto, mas outros também foram e se reelegeram.

MERCADO: Muito mais do que a questão partidária – a qual necessariamente precisava ser discutida no programa –, o fator mercadológico também merece discussão. As empresas jornalísticas vivem dificuldades financeiras e todas elas dependem de verbas governamentais, apoios políticos, etc. Eu disse todas. Qual o espaço limite para matérias pagas? A notícia passa a ter valor de mercado. Portanto, o capitalismo dita regras dos jornais. Se a notícia é mercadoria, e isso é inquestionável e irremovível; se o repórter tem seus posicionamentos políticos, uma história de vida e isso influi na produção das matérias, há limites éticos na oferta da notícia. Antes de tudo o exercício da profissão do jornalista é uma atividade de natureza social e com finalidade pública. Acobertar, omitir, distorcer a informação destrói a prática e a essência jornalística.

OBS: Aos desavisados e tendenciosos: não sou petista!

Comments

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  1. Anonymous 14 de Outubro de 2008 20:38

    REFERÊNCIA DO DOUTOR MARCOS AURÉLIO DE SÁ A VOSSA PESSOA: “Os ataques vêm de blogs ensandecidos, assinados por jornalistas passionais, a maioria deles sem a mínima chances de ocupar espaço na mídia convencional pela forma irresponsável com que distorcem e agridem a verdade ou truncam informações verdadeiras para detratar quem não lhes bate palmas ou não lhes proporciona sinecuras”.

    SERGIO, LAMENTO MUITO SUA PARTICIPAÇÃO MEDÍOCRE, GAGUEJANDO SEM PARAR, NO DEBATE. PORÉM, PERCEBO QUE O MAIS GRAVE NISSO TUDO FOI O SEU MAU CARATISMO DE DENUNCIAR COLEGAS DE PROFISSÃO, ATÉ MESMO PESSOAS QUE TRABALHAM NO SEU VEÍCULO. HOJE, O ASSUNTO PRINCIPAL FOI ESSE, EM TODAS AS REDAÇÕES DE JORNAIS DE NATAL. NINGUÉM MAIS CONFIA EM VOCÊ. CARA, PARABÉNS POR TER DESCIDO O PAU NO SALÁRIO QUE A GENTE GANHA, MAS CONSIDERAR OS COLEGAS ANTIÉTICOS PORQUE TRABALHAM EM ASSESSORIA É CUSPIR NO PRATO QUE JÁ COMEU, NÃO ACHA ? TOMARA QUE UM DIA O COLEGUINHA REFLITA A MERDA GRANDE QUE FALOU E TENHA A SORTE DE PEGAR UMA BOA ASSESSORIA, A EXEMPLO DA CODERN.

  2. Sérgio Vilar 14 de Outubro de 2008 21:06

    Chato responder a covardes que não se identificam. Mas lhe digo: de certo a referência do professor Marcos Aurélio não é à minha pessoa pelo seguinte fato: eu já estou na mídia convencional e fui o único entre os presentes no programa a defender sua participação. Sou humilde repórter e mantenho um blog pouco visto. De certo o professor se referiu a outros com mais poderes de influência.

    Gaguejei, sim. Não me dou com TV. Sou tímido. Fiquei nervoso pacas. Talvez num próximo eu melhore, espero. Mas nunca iria destratar minhas colegas de trabalho. E se eu estivesse preocupado com a opinião de outros seria com a delas, as quais entenderam minha colocação.

    Infelizmente não deixaram eu concluir meu raciocínio. Queria tão somente exemplificar a necessidade do jornalista em procurar outros meios de sobrevivência, visto que são criticados por trabalherem em órgãos públicos relacionados às editorias que escrevem. E mais: citei que uma das repórteres trabalhava em um órgão ligado à prefeitura (portanto ligada à Fátima), e outra à Micarla, o que proporcionava mais equilíbrio e imparcialidade do jornal.

    Se você fosse melhor informado e acompanhasse esta discussão sobre ética jornalística iniciada no blog de Tácito Costa, já saberia minha posição quanto a isso. Tenho defendido veemenemente melhores condições para os repórteres. Nunca iria criticar o trabalho em assessoria. Mas se alguns como você interpretaram de outra forma, me serve o apoio e os elogios de quem eu preciso ter e tive.

  3. Caçador 15 de Outubro de 2008 8:29

    Sérgio,
    Assino embaixo de tudo o que vc disse, inclusive a respeito do comentador anônimo ao lado.
    Sobre a questão do quarto poder, não é pode ser vista de um ponto de vista simplista. Ou seja, o que quero dizer é que os teóricos não expoem a mídia como quarto poder em um nível que concorra com o ministério público, por exemplo.
    O papel da mídia como quarto poder, inicialmente, foi visto como contraponto aos poderes estabelecidos no Estado – o que deveria incluir o próprio MP. Era o papel de cão de guarda de democracia, fiscalizando todos os atos dos poderes públicos. Algo como quer sugere o slogan do próprio JH.
    No entanto, hoje em dia gente como Thompson analisa a mídia como quarto poder por ser a instituição paradigmática do poder simbólico, que existe ao lado do poder coercitivo, do poder político e do poder econômico. Por isso, o poder de um homem como Silvio Berlusconi é imenso – ele concentra, atualmente, o fóco de todos esses poderes na Itália, como primeiro ministro e proprietário de rede de comunicação.

  4. Sérgio Vilar 15 de Outubro de 2008 9:19

    Cara, muito bacana seu ponto de vista. Se for eu o jornalista do DN novamente a comparecer ao debate é um ponto a ser colocado na mesa. Eu tinha escrito ainda algo como a mídia passada para trás decorrente da enxurrada capitalista e da notícia de mercado, diferente da independência judiciária do MP. Suprimi a informação porque o post já estava muito grande (rs). Isso que você comentou está corretíssimo, na minha opinião.

    OBS: não consigo encontrar seu blog. Houve algum problema com o link.

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