Eu admiro muito o paganismo

Matéria publicada no Diário de Pernambuco de domingo (13) sobre “Mattinata”, o novo livro do escritor Fernando Monteiro, que será lançado quinta-feira próxima às 19 hroas na Siciliano do Midway.

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Imagem: HELDER TAVARES/DP/D.A PRESS

O escritor Fernando Monteiro completa 63 anos na próxima quinta-feira, dia 17. Na mesma data, na Livraria Siciliano da cidade de Natal, lançará seu mais recente título, Mattinata, composto de três poesias longas e de “contenido novelesco”. Mattinata leva mais adiante o combate de Fernando contra a “literatura feita com lixo”, responsável pela “indiferença, acídia e tédio mortal” sintomáticos em leitores (e escritores caça-prêmios) de estômago forte e cabeça enfiada na terra (ou romances).

São tempos de “bosta tampando os tímpanos”, escreve Fernando, sem deixar de revelar nem o frescor, nem a raiva posta na máquina dos três poemas: Mattinata, que dá nome ao livro; Escritos no túmulo; e Para que ser poeta em tempos de penúria?. Os textos surgem da página em organizações tipográficas distintas. Com uma forma clássica, alinhado à esquerda, no primeiro; em maiúsculas, como se fossem escritos em lápides, no segundo; e todo centralizado, agregando diálogos e elementos “não usualmente poéticos”, no último. No terceiro poema, também figuram citações de Marianne Moore, Orides Fontela, Giánnis Ritsos, além de Roberto Piva, poeta morto em 2010 e de quem foi emprestado o título da devastação promovida por Fernando.

Mattinata possui tiragem numerada e foi pensada por duas editoras que atuam em um gueto de pouco interesse do “grande mercado”. A catarinense Nephelibata, com sede em São Pedro de Alcântara e impressionante catálogo (confira em www.edicoesnephelibata.blogspot.com.br), é capitaneada por Danilo Prado, responsável pessoalmente e manualmente por cada número da tiragem. A segunda, Sol Negro, é mais jovem, espelha-se na editora de Santa Catarina e é comandada por Márcio Simões.

“Nephelibata e Sol Negro é o encontro de duas pessoas que têm as mesmas intenções. Intenções perdidas em um Brasil dominado pelo mercado editorial, onde eu já estive e do qual orgulhosamente saí. Deste Brasil regulado exclusivamente pelas leis de mercado eu definitivamente saí”, dispara Fernando, que concedeu a seguinte entrevista ao Diario.

ENTREVISTA

O livro apresenta três poemas longos. Uma forma que o senhor retomou recentemente.

Desde Anna Akhmatova… Na verdade, desde o meu primeiro livro, sempre tive muito interesse pelo, talvez não seja a expressão mais exata, poema narrativo. O poema que é necessariamente longo. Eu lamento muito que os poemas narrativos, ou mesmo poemas longos e não necessariamente narrativos, sejam pouquíssimos publicados no Brasil (não é o caso do que acontece com a poesia universal como, por exemplo, Pound e Eliot). A poesia no Brasil é lírica e os livros, vamos dizer assim, são feitos a partir de “estados d’alma”. Você passa uma página, é um estado de espírito. Isso sempre me desagradou, como se você mal conseguisse refletir sobre uma coisa, já passasse para outra. Já os poemas longos, os poucos, sempre me atraíram muito, ao exemplo de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, ou o Poema sujo, de Ferreira Gullar. Essa poesia longa e, no meu caso, também narrativa, evidentemente perdeu espaço. Numa livraria, eu não sei mais onde fica a estante de poesia. E, hoje, o taxista é romancista. O zelador do meu prédio é romancista. Vera Fischer é romancista. Eike Batista talvez também seja romancista. De repente, surgiu uma ênfase no romance em uma literatura que não se distingue exatamente por esse gênero. Eu estava sendo romancista e decidi voltar a ser poeta. Na verdade, a gente já sabe, em parte, do que se trata. Tem muita gente aí perseguindo prêmio de romance. R$ 200 mil, R$ 100 mil. Conheço casos de pessoas que foram aliciadas por editores e, recentemente, a Luciana Villas-Boas (ex-diretora editorial do Grupo Record), em entrevista longa à revista da Livraria Cultura, a mesma Luciana que foi minha editora, fala que os escritores jovens não deveriam começar por poesia, nem conto. Dizia ela que esses gêneros não vendem e o escritor jovem poderia correr o risco de ficar com a pecha de mal vendedor de livro. Ela fazia uma exortação do romance com base unicamente no, todo-poderoso, mercado. No mundo inteiro, há prêmios para romances. E o Brasil, apesar de Machado e Lúcio Cardoso, e outros bons romancistas do regionalismo, você poderia dizer que é um país de poetas. É só uma questão de mercado. As pessoas estão comprando mais poesia do que romance, e daqui a pouco, nem vão comprar mais romance.

O senhor produz uma poesia com conteúdo novelesco…

Exato. Eu tenho insistido nisso, no que o Dámaso Alonso, nos anos 1950, chamava do “contenido novelesco” que ela sempre teve. Poemas longos e narrativos não podem ficar suspensos da realidade, de forma abstrata. No poema longo, você está narrando algo. Com conteúdo novelesco ou não, está narrando. Isso é o que o leitor também espera da prosa. Meu primeiro poema foi longo, Memória do mar sublevado (1973). Ecométrica, com o qual obtive um prêmio nacional (prêmio nacional da UBE/Rio), em 1984, é também um poema longo em formas fixas. Eu fiquei isolado – talvez com exceção da companhia de Marcus Accioly, com seu Latinoamérica, e César Leal, que não é da minha geração (a Geração de 65). Em 2009, diante dessas condições, eu voltei com um poema realmente longo, que é o Vi uma foto de Anna Akhmátova, com “contenido novelesco”, ou seja, apresentando algo que está acontecendo. O leitor pode não saber o que é exatamente, mas sabe que algo está ocorrendo.

No poema Mattinata, vejo reaparecer a imagem da noite e do dia. São significantes que dão estrutura ao poema.

No Mattinata, há a separação de um casal. Na manhã recentíssima, no final da madrugada, que é um momento de começo e de alegria, um casal está terminando um relacionamento amoroso, numa cidade estrangeira. É a noite dessa tristeza, oposta àquela manhã que acabou de nascer. Quando a manhã estiver instalada, eles vão se separar definitivamente. Estão provisoriamente no apartamento, no quarto, no hotel, mas vão se separar. Essa é a noite do sofrimento. Digo, a noite como uma coisa que significa, de alguma forma, o sofrimento humano.

Escritos no túmulo têm tipografia em maiúsculas e em itálico. Conduzido pela leitura dos editores, não pude deixar de vê-lo como uma ruína.

Fiz questão de sugerir a tipografia em maiúscula, ainda que o editor (Fernando) tenha tentado me dissuadir (falou que tudo ficava muito empastelado). As lápides, portanto, ficam sugeridas nessas letras maiúsculas: a ruína da ruína – aliás, um verso que está no poema anterior. Então, não deixa de haver uma continuação, embora recuando para aquele mundo romano. No segundo poema, há a ruína mesmo. A ruína da cultura, de uma civilização, e dentro dela a modernidade de uma relação entre dois homens, escrita nas lápides, que é o objeto do poema. Eu admiro muito o mundo do paganismo. Acho superior ao mundo em que nós vivemos. Mais refinado. Um mundo que o cristianismo veio a reformar completamente, na minha opinião, para pior.

Os vestígios falam da aparição de uma proximidade, por mais longínqua que possa ser o que o deixou, como comenta Benjamin, não é? Além disso, as noções de pornografia e promiscuidade sugerem a própria promiscuidade que envolve a equivalência geral das imagens e dos símbolos na cultura moderna…

Note que alguns afrescos de Pompeia ainda são vetados porque mostram a relação entre dois homens. Nesse momento, o poema questiona que mundo refinado é esse romano, enquanto nós, com todos os preconceitos cristãos que criamos, vetamos uma sala onde está uma relação amorosa. O homem antigo não fazia a menor diferença entre uma relação amorosa de um homem e uma mulher e uma relação entre dois homens. Era amor de qualquer maneira, como é de fato. O poema também pretende ser moderníssimo tratando da antiguidade. É como passear em um cemitério romano tentando entender o significado daquelas lápides, dizeres que não pertencem ao nosso mundo, mas a um mundo que foi superior ao nosso. A ruína termina sendo um espelho, sim, uma forma de nos enxergar de uma maneira muito mais limpa. Desde Descartes, somos racionalistas ao excesso e, hoje, hiper, supertecnológicos. Um mundo sem lugar para ruína, a não ser a ruína dos equipamentos eletrônicos.

E vem a pergunta :“Para que ser poeta em tempos de penúria?”…

Essa pergunta está em um poema do (Roberto) Piva e também, de forma parecida, em um poema do Hölderlin (fiquei sabendo depois desse segundo caso). O que de imediato me irritou foi que, em 2010, quando Piva faleceu, esse verso foi citado nos poucos necrológios que apareceram. O independente, rebelde, que Piva sempre foi, não mereceu a atenção da mídia. Nas notícias que foram publicadas, ainda assim, aparecia esse equívoco de citar esse verso como se remetesse ao lado biográfico do poeta. “Para que ser poeta em tempos de penúria?” foi reduzido a: “o Piva estava sem dinheiro”, “o Piva estava sem saúde”, “o Piva estava lascado”. Enquanto que a pergunta falava do mundo, e não dele. Para que ser poeta neste mundo no qual ninguém lê poesia, ninguém está preocupado com a beleza?

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