Eu era um lobisomem

Marcia Tiburi fala sobre o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”, que completa 30 anos

Por Marcia Tiburi
CULT

O filme Um Lobisomem Americano em Londres completa, neste ano de 2011, 30 anos. A efeméride é um bom momento para voltar à verdade sobre a imagem da adolescência ali exposta, considerando a urgência de uma leitura filosófico-política que salve os jovens da “naturalização” à qual foram condenados pela psicologização da adolescência.

Lembremos que a expressão “adolescência” surge com o estudo de Stanley Hall no começo do século 20. A expressão “lobisomem juvenil”, nome de um sucesso do grupo Legião Urbana nos anos 1980, fornece-nos neste momento o inteiro conceito da adolescência na forma como ela é construída socialmente. Refletir sobre ela talvez nos permita escapar do sofrimento que está em sua base.

No filme de John Landis – o mesmo que depois dirigiu o famoso Thriller, de Michael Jackson –, dois garotos nova-iorquinos viajando pelo norte da Inglaterra são atacados por um animal estranho. Um se torna um zumbi, o outro sobrevive tornando-se herdeiro da maldição do lobisomem.

Os adultos da aldeia, sabendo que incorrem em assassinato ao não avisá-los do perigo, apenas sugerem que se afastem do pântano e que permaneçam na estrada.

Fundamental é que o lobisomem seja um ser do pântano, uma monstruosidade da zona da margem que não tem contato com a vida urbana. No filme, a chegada do jovem à cidade levará à morte violenta de vários cidadãos adultos.

A imagem do lobisomem explica a vida adolescente como mais uma forma de vida nua (ou a mera vida, como falou Walter Benjamin), forma literal na qual, aliás, ele aparecerá morto no final do filme.

É curioso que adolescentes vivam também como seres da margem e que a ausência de vínculo, a reclusão pela falta de grupo, não aconteça sem sofrimento.

A questão a ser levantada refere-se ao fato de que esse sofrimento tem um fundo político e não meramente psicológico: a saída da infância em que se está protegido por adultos responsáveis é inevitavelmente sentida como ameaça.

Buscando proteção, adolescentes reunir-se-ão em grupos, sejam as monótonas panelas de escola, sejam as gangues de revoltados que realizam sua verdade política e social nas ruas.

Entre o homem e o animal

A rua, por sua vez, tornou-se nos contextos urbanos um lugar perigoso, a zona de indistinção entre o selvagem e o político. É onde, dizem os adultos do filme, os jovens devem ficar como que em uma zona de exceção em que os que não têm lugar encontram, paradoxalmente, um lugar.

Giorgio Agamben escreveu sobre a figura política do lobisomem do antigo direito germânico. Marcado no limiar de indiferença entre animal e humano e banido da comunidade, o condenado poderia ser morto por qualquer um nas margens da cidade. O direito de punir tornava-se a potência de uns contra os outros.

A adolescência é quase uma forma de punição em um campo de concentração temporal construído por adultos que definem quando bem entendem que um jovem é ainda criança para determinados atos ou já é adulto para outros.

Como o lobisomem do filme, aprisionado entre dois mundos sem pertencer a nenhum, a adolescência é, para quem a vive, ou desejo de revolta ou escravização voluntária de quem já se conformou.

Assim como os deuses invejam os mortais, os adultos invejam os adolescentes. Marcação biopolítica, a mesma que se faz com mulheres, homossexuais, negros e outras minorias, a desdenhosa expressão “aborrescência” revela o ressentimento daquele que a promove.

A complexidade da vida de um jovem não cabe na miséria espiritual de quem teve de se tornar adulto à força.

A salvação de quem se torna adulto é revoltar-se contra o adulto que ele mesmo se torna, mantendo fidelidade aos próprios sonhos juvenis sabendo que a economia política atual se esforça por tornar todo sonho uma mera mercadoria e que a resistência é sempre uma espécie de metamorfose monstruosa que não se dá sem dor.

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