Eu não tenho onde morar

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Sou quase um sem teto. Vendi a casa onde moro há vinte e nove anos e estou à procura de um apartamento. Nunca pensei que aos 58 anos, depois de uma vida inteira pisando o chão, me treparia e encaixotaria num edifício. Morar em casa tornou-se impossível no Recife. Os bairros cresceram de forma desordenada, tornaram-se violentos, e os prédios de apartamentos acenam com uma aparente segurança.

Ninguém acreditaria que até alguns anos atrás meus filhos brincavam de bicicleta na rua e que nas festas de aniversário eu contratava charretes e cavalos pra garotada passear. No bairro, tínhamos a maior cobertura verde da cidade e a sensação de morar no campo. O crescimento urbano nos roubou esse pulmão verde. Cercamos de muro os sítios em torno das casas e, de tempos em tempos, passamos a subir os muros, criando verdadeiras fortalezas, que também davam a falsa sensação de segurança.

Sempre cuidei de cada pequeno detalhe de minha casa e chorei feito um bezerro desmamado quando me desfiz dela. Não terei como transportar comigo dois paus-brasil, uma mangueira, uma goiabeira, três palmeiras, duas árvores de grande porte típicas da mata atlântica, e dezenas de plantas do meu ex-jardim, cultivado com extremo zelo. E os sabiás, os bentevis e as ararinhas que vivem por cá? Quem vai prestar atenção neles?

Temo que o novo proprietário não goste dos assoalhos de ipê dos quartos e escritório, da azulejaria dos banheiros, do piso veneziano das salas, tudo bem conservado, mantido fiel a um tempo e estilo arquitetônico. E se ele cismar de substituir as belíssimas portas e janelas de legítima sucupira, uma madeira quase extinta, por esquadrias de alumínio? Será que ele terá sensibilidade para apreciar as vigas da cobertura, os caimentos dos telhados? Talvez não. Certamente porá tudo abaixo.

Nos quarenta anos em que moro no Recife, vi a cidade perder o seu patrimônio arquitetônico civil, considerando de valor para tombamento apenas o que é barroco, uma leitura medíocre do que seja patrimônio. Até a década de 1950, Recife era uma cidade soberbamente bela e decadente. A decadência se agravou com o crescimento desordenado, a falta de educação da população e de quem ocupa o poder, a desigualdade social, a miséria e a violência.

Andar pelas ruas do Recife representava uma aula de história e de arquitetura. Hoje, é a mais pura tristeza. Quase nada sobrou do que Manuel Bandeira evocava no seu poema. As casas foram abandonadas, derrubadas para a construção de prédios, transformadas em comércio, disfarçadas ou adulteradas por placas gigantes, fachadas de cerâmica, folhas de zinco, tudo muito feio e agressivo, o oposto dos traços do colonial e barroco, do clássico, neoclássico, eclético e art déco. É como se todos tivessem perdido o amor pela cidade e não se importassem com feição triste e feia que ela pudesse assumir.

Sinto-me como se tivesse capitulado e fosse mais um retirante. Para não sei que cidade de não sei que país.

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