Eu não vou

Por Adriano de Sousa
TRIBUNA DO NORTE

Coxinhas e pastéis em transe na quitanda virtual disputam, como carlos lacerdas de quinta divisão, a primazia no discurso de cachorro louco: o meu ódio é maior que o seu, a minha inteligência é menor que a sua. Marie Antoinette já ordena a Janicleide que areie as panelas para a fofa bater até derrubar o puxadinho de sonhos que a diarista construiu enquanto a esperança venceu a empulhação.

Coronéis da opinião reapresentam os mosquetões recolhidos em 1985, reapresentados em 1989 e silenciados pelo estrondo das urnas em 2002. Limpam os canos, pesam o chumbo, medem a pólvora, ajustam a mira: de domingo não passa. A jiripoca vai piar, a roseira vai balançar, o bicho-golpe vai pegar geral. A cobertura vai descer ao asfalto, sob as bênçãos da classe média, para mostrar à perifa com quanto botox se repagina o look do monstro. Com registro em selfie cívica.

Não sou habituê do fla-flu de pitbulls encarniçados, onde só a paixão é aceita como argumento. Sou um patético vascaíno do pé da Serra da Barriguda, órfão de Geovani e Juninho, Edmundo e Romário. Mas a orfandade não me faz partidário do modelito Eurico Miranda de arranjar as coisas. Nem de seus iguais na política, empoderados de si para decidir – acima do ronco da urna e na rua mais cenográfica que real – quem é o verdadeiro rei da montanha.

Para essa galera organizada em torno do próprio umbigo, com difusão on line e o gentil patrocínio das Casas Grande, a democracia só vale quando o seu time levanta a taça. Se não for assim, recorre-se ao tapetão, com o mesmo espírito dos galinhas-verdes de outrora.

A presidente não pode ser responsabilizada pelas trapaças de quem vendeu na feira da xepa a própria alma e a esperança alheia. Acima do falso moralismo, dos casuísmos travestidos de lei e das birrinhas ideológicas, Dilma é a legítima dona da faixa que hoje serve de forca a um projeto de país. Os erros de gestão; os cangapés programáticos; o recurso ao plano do oponente e às alianças de eficiência zero e qualidade ainda menas; a saudação à mandioca e a criação da mulher sapiens – tudo prova que ela é ruim de gestão, de política e de verbo. Mas não prova que é corrupta.

Ao contrário do que entoam tucanos e araras, papagaios e urubus em sofrência por treze anos, o tribunal para julgar tais “crimes” foi, é e continuará a ser a urna. Ali, Dilma e seu partido receberão a fatura da massa de traídos no sentimento de que um novo Brasil saíra do forno, com o calor da comunhão e o fermento futuro da igualdade.

O voto não pode ser passado na lâmina de manobras diversionistas insufladas para mitigar os apuros de cunhas e calheiros, os de agora e os de sempre, de todos os pês. Ou apenas porque uns lobões aí querem vender mais ingressos para o espetáculo do circo pegando fogo – e encontram bobões que os comprem, por inconsciência da nossa história de trevas e dos riscos (latentes no pagode do impeachment) de repeti-la.

Nesse banquete de salgadinhos sem sal, nessa sopa de siglas que se nivelam por baixo na baixaria do que tentam e por cima na voracidade do que representam, o meu partido ainda é o mesmo do finado Agenor: um coração partido, com um PQP! por divisa. E o que é viver senão o moto contínuo alternado entre recolher os cacos e refazer o desenho? Até a próxima pedrada, a próxima esperança.

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