Eu pratiquei o aborto!

Por Marina

Caro Marcos Silva

Tenho acompanhado o debate do Plano Nacional de Direitos Humanos e como leitora do SP resolvi ousar e quebrar o silêncio acerca de assunto tão delicado para nós mulheres, o aborto. Ousar em parte, porque de antemão eu assumo que estou usando um nome fictício e que criei um email exclusivamente para enviar este texto (ao enviar foi que constatei que não era mais necessário). Acredito que dificilmente seu apelo será atendido, ou seja, ouvir as opiniões das freqüentadoras deste blog sobre o tema em questão (Texto: “Aborto e Direitos Humanos”, postado no SP em 12.01). A exceção poderá ficar por conta de uma ou outra mulher jornalista ou leitora que falará usando a terceira pessoa, imprimindo o tom da impessoalidade.

Parabéns pelo corajoso depoimento. Não é fácil falar conjugando o verbo na primeira pessoa, comumente usamos o artifício de falar usando a terceira pessoa como escudo para nos protegermos da exposição perante o outro. Entretanto, como frisou Laurence Bittencourt outro dia aqui no SP: [… Freud quem disse certa vez que quando Pedro fala de João, está falando mais de Pedro do que de João]. Mas deixemos esse papo para os psicanalistas e seus analisandos que falam disto com mais propriedade.

Voltando à questão! Eu pratiquei três abortos, mas um aborto, o primeiro deles, especialmente, me marcou profundamente. Deterei-me nele mais adiante. A dificuldade em assumir publicamente, se deve a diversos fatores só para ficar em alguns: 1. O aborto por não ser legalizado é feito de forma clandestina revestindo-o mais ainda de um caráter discriminatório; 2. Há uma forte “carga moral”, proveniente de uma formação “cristã”, embora hoje eu também não tenha mais uma prática religiosa; 3. Minha família não tem conhecimento do aborto praticado e muito embora tenha ocorrido no passado, ainda que o soubessem hoje, ainda assim, eu seria condenada em seu julgamento, olhada de forma atravessada (“pecadora”!); 4. As condições a que nós mulheres nos submetemos, sobretudo, às mulheres pobres (eu era uma delas) são impróprias e colocam em risco nossas vidas o que faz com que caminhemos para tal com um temor sem igual pelos riscos impostos.

Neste sentido, o aborto a que me refiro ocorreu num local disfarçado de enfermaria, ficava em frente à Praça Padre João Maria na cidade alta. A cama foi forrada com papel de embrulho. Tomei anestesia, juntamente com o soro, não lembro exatamente. O cara que o praticava era um enfermeiro, ao menos se vestia como tal, não foram solicitadas suas referências. O que lembro nitidamente e olhe que “são anos e lá vai fumaça” é que o mesmo enfiava um “especulo” (também não tenho certeza se o nome do instrumento era este) na vagina e remexendo lá dentro, descolava pequenos pedaços ensangüentados que me eram mostrados a cada vez que era introduzido e retirado este instrumento. Eu não via a hora daquilo terminar. O desconforto era enorme. Eu não queria ver aquilo, mas não tinha coragem de falar. Passado tanto tempo não sei traduzir o sentimento que senti naquele momento, talvez de aniquilamento.

Ao final, ele embrulhou aquilo tudo no papel e não lembro se col ocou num cesto de lixo ou outra coisa qualquer, acho que guardou no forro do teto. Eu saí de lá “arrasada”, fui pra casa e convivi calada com a dor e o desconforto físico que durou alguns dias e o psicológico que perdurou por “uma par de tempo”. Também fiquei cerca de um ano ou mais sem ir ao médico (ginecologista), achava que estava fadada a ter algum tipo de seqüela e com isto eu evitava esta comprovação. A verdade é que eu desejava aquele filho, mas não tinha condições financeiras de me sustentar, já fazia faculdade, mas dependia da minha família, especificamente da minha mãe que nos sustentava a todos e não me achava no direito de imputar mais esse encargo.

Durante muito tempo eu pensei neste filho, a idade que teria, como ele seria, que aparência teria. Tenho amigas que defendem a bandeira da descriminalização do aborto. Penso que a mulher deve ter autonomia em relação a seu corpo para decidir, todavia, acho que os métodos contraceptivos e uma boa educação sexual têm o seu papel nessa estória. Penso ainda que em se tratando de seres plurais com diferentes formações, visões e inserções culturais diversas, deveria ser assegurado que cada mulher pudesse agir de acordo com sua consciência, ou seja, o que não a violentasse, em seus princípios, idéias e convicções, quer sua decisão seja abortar, quer manter a gravidez. No meu caso eu não acho que foi uma escolha, mas a falta dela. Eu desejava esse filho, mas eu não tinha nem a condição financeira/psicológica nem a maturidade para permitir que ele viesse.

PS: Alguns anos depois eu voltei a praticar o aborto embora nesta época eu já morasse com alguém e tivesse um filho. Engravidara seguidamente, assim, optei por não ter. Contraditória? Sim, Totalmente!. Sei que desaponto, mas assim somos nós, “seres (des) humanos”, contraditórios, incompletos. Um grande abraço e receba minha admiração por você, pelo SP (leia-se Tácito) que faz história ao proporcionar um espaço para além da pluralidade cultural.

Abraços a todos!

“EU”

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Foto que ilustra o texto: quadro Mulher ao Espelho, de Pablo Picasso.

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